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Solaris Kalina, trans e negra em Dracena: “Aos 3 anos minha mãe foi chamada na escola por eu não me encaixar” | #084

25 de janeiro de 2022 • 9 min de leitura

Este texto vem do episódio #84 do AdamiCast

Solaris Kalina é uma mulher trans, negra, de 22 anos, e mora em Dracena, no interior paulista. Foi a convidada do episódio 84 do AdamiCast durante o Mês da Visibilidade Trans de 2022, pra falar sobre militância, acolhimento familiar e os números do Brasil quando o assunto é violência contra a população LGBT. A história dela começa com um sinal precoce de diferença — aos 3 anos, a mãe foi chamada na escola — e atravessa décadas de preconceito vivido dentro e fora de casa.

A conversa passou por temas delicados: a cobrança de feminilidade excessiva em cidades pequenas, o medo constante de agressão, o conforto de São Paulo e o estranhamento de Dracena, e a militância por educação e políticas públicas. Solaris abriu a vida em rede e nas redes sociais, e o episódio virou um dos registros mais delicados de 2022 sobre o que significa ser trans no interior do Brasil.

O sinal de diferença desde os 3 anos e a transição aos 21

Com 3 anos, a mãe Andreia foi chamada na escola porque Solaris já apresentava sinais de diferença. Começou ali o tratamento psicológico. “Eu já sabia, era gay, gostava de menino, e comecei a ficar incomodada com as roupas. O chinelo não me encaixava mais, o nome não me encaixava mais, roupa masculina doía.” Aos 13, na escola, a certeza ficou em voz alta. Aos 16, virou drag queen como alter-ego pra escapar da roupa que não cabia. “Fiz isso durante bastante tempo. Só que não era isso. Não sou um personagem só de fim de semana. Sou eu.” Com 21 anos — um ano antes do episódio —, fez a transição.

O verbo escolhido foi outro. “Eu não me assumi, eu me reapresentei pra sociedade. Voltei com outro nome.” O primeiro dia transformada foi longe de Dracena, numa Parada do Orgulho LGBT em outro estado. “Eu já era toda produzida, maquiagem, tudo. Foi a primeira vez que saí assim. Foi muito bom, porque eu estava rodeada de pessoas como eu.” Em São Paulo, viveu uma temporada em que diz não existir cobrança. “Lá você vai à pizzaria de chinelo, ninguém te olha, ninguém cobra.” A volta pro interior trouxe de volta o olhar torto, o xingamento na rua e os perfis falsos no Instagram que mandam ofensas.

Solaris: o nome como pedacinho do sol que ilumina a vida das pessoas

A escolha do nome veio de um sonho. “Solaris era um pedacinho do sol, pra ajudar a iluminar a vida das pessoas. Era como se eu fosse luz. Onde chegasse a luz, eu chegava também.” Hoje, todo mundo chama de Sol. Ela faz questão de receber o apelido e devolver ele como missão. “É um brilho na vida das pessoas, sempre ajudando quem precisa. Se tiver alguém precisando de conselho, de roupa, de dica, me chama no Direct.”

A primeira aparição pública como Solaris foi na parada gay, longe da família que demorou a entender. A mãe Andreia é, segundo ela, a única base inegociável. “Me acompanha em tudo, me apoia, me abraça. Se eu tô assim, é porque minha mãe me abraça. Se tivesse mais mães assim, o mundo seria um pouco melhor.” A aceitação da mãe aparece como contraponto às histórias de expulsão de casa que ela ouve de amigas trans — as que “saíram de casa sem base, sem estudo, sem nada, e caíram no mundo, em drogas, em outras profissões”.

O Brasil que mais mata LGBT: 14 anos no topo do ranking

Solaris puxou os números durante a conversa, e eles são duros. O Brasil caminha pro 14º ano consecutivo como país que mais mata pessoas LGBT no mundo, de acordo com o ranking do Grupo Gay da Bahia. “As minhas irmãs estão nas estatísticas. Falta mais empenho, falta mais preocupação, falta desenvolver projeto em escola, projeto na cidade. O Brasil é o campeão, infelizmente.” A cobrança veio também pra quem consome. “O Brasil também lidera o ranking de países que mais consomem conteúdo pornográfico de transexuais. Consome em particular, mas na rua você mata.”

A solução que ela defende passa por três frentes: posicionamento de políticos com peso institucional (não só em discurso de ódio), educação sexual nas escolas que ensine o que é certo e o que é errado desde criança, e projetos de interação com a população LGBT dentro e fora das grandes cidades. “Desde que o mundo é mundo existem trans, existem homossexuais. Já estava lá no Império Romano. A gente tem que ensinar: olha, aqui tem outras pessoas, tá tudo bem, segue a sua vida.”

O abraço da mãe Andreia como ponto de virada

Solaris repetiu durante o episódio: o que muda a vida de uma pessoa trans é o acolhimento dentro de casa, antes da transição hormonal, antes do nome social, antes de qualquer coisa. “Tem que abraçar. Mãe e pai têm que estar ali. Se você tem uma criação preconceituosa e o filho te fala que é trans, você expulsa de casa, ele sai sem base, sem estudo, cai no mundo, e aí vai dar merda. Logicamente não é regra, mas a chance é grande.” O conselho da mãe, que ela adotou como mantra, é simples: “Não dê ouvido. Vá.”

A mãe Andreia foi chamada na escola quando Solaris tinha 3 anos, e mesmo assim construiu, anos depois, o vínculo que falta em 90% dos casos que Solaris acompanha. “Eu pergunto a opinião da minha mãe sobre roupa. Ela fala que parece código de barras. Tudo bem, mãe, hoje eu saio andando.” A convivência com a família, segundo ela, é a base da autoestima que faz ela chegar no estúdio de gravação em Dracena e atravessar a entrevista de 1h44 sem baixar a cabeça. “A autoestima vem de tanta negatividade de fora e se transforma em amor pra mim. Eu já penso assim: eu sou demais, meu anjo, não dá pra perder tempo.”

Educação sexual e diversidade nas escolas: o que está faltando

A defesa mais firme da entrevista foi por educação sexual infantil nas escolas, independentemente da polêmica. “O pessoal fala que a gente quer ensinar as crianças a fazer sexo. Não é isso. A gente quer ensinar que existem pessoas diferentes, o que é certo, o que é errado, e que mexer no corpo é só com pai e mãe. Se essa educação chegar na escola, a criança vai pra casa, conversa com o pai, com a mãe, e qualquer abuso aparece.” Solaris contou o caso de estados que adotaram o programa e descobriram situações de abuso em desenho feito por criança — coisa que, sem o programa, ninguém teria visto.

O alvo são as crianças em idade escolar, não a transição cedo. “Quem é criança tem que ser criança. A gente só quer ensinar o que existe, o que é certo, o que é errado, e que tem como contar com o professor, com o amigo, com o tio. Ponto.” Solaris cobrou também o posicionamento firme de políticos, com poder institucional, sobre violência e assassinato. “O discurso de ódio é palavra pesada. Falta atenção devida. Falta plano de conscientização, plano nacional, plano municipal, estadual.”

A mensagem final: ‘Se amem, não desistam, falem comigo’

Solaris deixou um recado específico pra quem está se descobrindo. “O foco é em vocês. Se amem, se aceitem, se respeitem. Não deixem ninguém colocar vocês pra baixo. Lutem pra ser o que vocês quiserem ser. Se precisarem de ajuda, conversem com amigo, conversem com os pais. Se não tiverem apoio, me chamem no Direct. Minhas redes sociais estão aqui embaixo. Não desistam. Vocês vão chegar lá.”

E um recado direto pros pais. “Abraço e os seus filhos. Mais uma vez, com amor e carinho, porque a violência já tem demais no mundo. Acolhimento familiar deveria ser regra e não exceção.” Solaris terminou a entrevista agradecendo ao AdamiCast por abrir espaço num mês que costuma ser violento. “Eu não tava bem, eu tava passando mal, cheguei aqui, esqueci tudo, falei, e passou. O tratamento aqui foi incrível.”

Onde encontrar

Solaris Kalina mora em Dracena, no interior de São Paulo, e segue ativa nas redes sociais com o mesmo propósito do nome: iluminar a vida das pessoas. Pra acompanhar o trabalho, basta seguir o perfil no Instagram: @solariskalina. O episódio completo do AdamiCast está no YouTube e no Spotify.

Resumo do episódio

Solaris Kalina, mulher trans e negra de 22 anos de Dracena, discute sua trajetória desde os 3 anos quando sinais de diferença levaram a mãe a ser chamada na escola, passando pela transição aos 21 anos e sua atuação em militância. A conversa aborda o Brasil como país que mais mata população LGBT nos últimos 14 anos, a importância do acolhimento familiar como ponto de virada, e a defesa por educação sexual infantil nas escolas como ferramenta de proteção e conscientização sobre diversidade.

Principais aprendizados

  • O acolhimento familiar é mais determinante que transição hormonal ou nome social na vida de pessoas trans, sendo a base que previne expulsão de casa e queda em situações de risco
  • O Brasil lidera há 14 anos consecutivos o ranking mundial de assassinatos de pessoas LGBT, enquanto paradoxalmente também lidera em consumo de conteúdo pornográfico trans
  • Educação sexual infantil nas escolas não ensina crianças a fazer sexo, mas sim a reconhecer diferenças, distinguir certo de errado e identificar possíveis abusos
  • A transição para mulher trans de Solaris aconteceu aos 21 anos, um ano antes do episódio, após explorar sua identidade como drag queen aos 16 e ter certeza sobre sua condição aos 13
  • O nome Solaris foi escolhido por Solaris como metáfora de um pedacinho do sol que ilumina a vida das pessoas, transformando-o depois em apelido e missão de vida

Perguntas respondidas neste episódio

O que é educação sexual infantil nas escolas segundo a proposta discutida?

Não é ensinar crianças a fazer sexo, mas sim ensinar que existem pessoas diferentes, o que é certo e errado, e que mexer no corpo só pode acontecer com consentimento dos pais. O objetivo inclui criar ambiente seguro onde abuso pode ser identificado através de desenhos e relatos de crianças para professores.

Qual é a importância do acolhimento familiar para pessoas trans?

O acolhimento familiar é determinante na vida de uma pessoa trans, sendo mais importante que qualquer outra coisa. Sem ele, a pessoa sai de casa sem base, sem estudo e cai no mundo enfrentando situações de risco. Com ele, como no caso da mãe de Solaris, constrói-se a autoestima necessária para enfrentar a sociedade.

Por quanto tempo o Brasil ocupa o topo do ranking de países que mais matam LGBT?

O Brasil caminha para o 14º ano consecutivo como país que mais mata pessoas LGBT no mundo, de acordo com o ranking do Grupo Gay da Bahia. Simultaneamente, o país lidera também o ranking de consumo de conteúdo pornográfico de transexuais, criando um paradoxo entre consumo privado e violência pública.

Ouça no Spotify ou assista no YouTube.

Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.