Andréia Aparecida dos Santos cresceu numa propriedade rural, filha de produtor, e hoje coordena o SENAR de Dracena há 16 anos. Pedagoga de formação, ela entrou na instituição quase por acaso: tinha tentado uma vaga no SEBRAE e não passou, e foi o então presidente do Sindicato Rural, seu Ismael Escalante, quem a convidou para conhecer o serviço. Ela foi sem saber direito o que era o SENAR. E nunca mais saiu.
Neste episódio, Pedro e Mariana recebem Andréia para uma conversa que vai muito além dos cursos e programas: é uma aula sobre o que significa levar conhecimento até quem vive do campo, sobre sucessão familiar rural, sobre a tecnologia que chegou ao trator e ao drone, e sobre o orgulho silencioso de quem planta, cuida e colhe sem aparecer nos noticiários.
O que é o SENAR e por que Dracena tem sorte de tê-lo
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural está presente nos 635 municípios do estado de São Paulo, operando por meio de 235 sindicatos rurais. Em Dracena, o SENAR funciona dentro do recinto da FAPIDRA, vinculado ao Sindicato Rural Patronal. A extensão de base de Andréia cobre Dracena, Ouro Verde e distritos como Japorã e Jamaica. Em 2024, foram 150 ações realizadas; para 2025, a previsão inicial já soma 17 ações, fora os extras.
Não existe mensalidade, não existe taxa de inscrição, não existe pré-requisito de escolaridade na maioria dos cursos. O único requisito para os cursos profissionalizantes é ter 18 anos. O SENAR fornece almoço, café da manhã, material didático e certificado. E o certificado sai na segunda-feira seguinte ao encerramento do curso, se ele terminar na sexta.
Cursos que mudam a renda de uma família inteira
O episódio começa com um exemplo concreto: na semana da gravação, estava acontecendo um curso de processamento agroindustrial do leite. Dois dias de teoria sobre como montar um laticínio, quatro dias de prática: queijo minas frescal, requeijão, iogurte, doce de leite de corte, leite fermentado. O soro que sobra do queijo, que normalmente vai para o ralo, virou mais um produto com valor de mercado.
A lógica é simples: quem tira 200 litros de leite por dia e entrega 150 ao laticínio sobra 50 litros parados. Com esse curso, esses 50 litros viram queijo, viram requeijão, viram renda. O SENAR atende desde a grande usina canavieira, como a Usina Caeé (parceira desde 2015), até a pequena propriedade familiar que quer aproveitar melhor o que já tem.
Operadores de máquinas, morango orgânico e aquaponia
Os cursos mais procurados são os de máquinas agrícolas: operação e manutenção de tratores, retroescavadeira, motoniveladora, pá carregadeira. São 40 horas em cinco dias, das 8h às 17h. O de operação de tratores é pré-requisito para os demais, e mesmo assim já tem fila de espera. Andréia conta que, quando trabalhava com a Usina Caeé no treinamento FAT, encontrou uma mulher loira, cabelo longo, unhas compridas, operando a maior máquina da área. O responsável pela turma disse que, se pudesse, todas as operadoras seriam mulheres: mais cuidadosas, menos manutenções.
Do outro lado do espectro, em março de 2025 começa um programa de morango orgânico na associação da Edna Barro, em Dracena. As mudas vêm da Espanha, passam por Campinas e chegam ao sindicato em quatro variedades. São seis meses de programa, dois encontros mensais. No ano anterior, a mesma iniciativa funcionou no Pantareto e surpreendeu com a produção, já que Dracena é considerada quente demais para o morango. O SENAR também oferece aquaponia, que combina hidroponia com tanque de peixes, reduzindo o ciclo da alface de 41 para 21 dias.
O programa Integrar e a Feira do Produtor
Desde agosto de 2024, o SENAR de Dracena iniciou o programa Integrar: três pesquisadores percorrem todas as propriedades do município fazendo um censo rural completo. O objetivo é mapear o que Dracena e Ouro Verde produzem, identificar lacunas e orientar melhor os cursos futuros. Com o mapeamento, o produtor que tem uma área parada poderá chegar ao SENAR e receber uma orientação concreta sobre o que é viável plantar ali.
Em paralelo, está sendo planejada para 2025 uma Feira do Produtor com 26 participantes, incluindo horticultores, artesãos e produtores de tubérculos. O SENAR vai acompanhar todo o processo: desde a organização da propriedade, passando pelo cálculo de custo e precificação, até a montagem dos stands artesanais em bambu no dia da feira. É um projeto de formção integral, do plantio à comercialização.
Assistência técnica, sucessão e o campo que envelhece
Um dos programas mais recentes é o ATG (Assistência Técnica e Gerencial): uma veterinária de Dracena visita 30 propriedades uma vez por mês, por quatro horas, sem custo para o produtor. O foco em Dracena é gado leiteiro. Ela cuida das pastagens, analisa os custos e monta planilhas de controle. Resultado documentado: produtores que começam tirando 200 litros por dia chegam ao final do ano tirando 400.
Andréia toca num ponto delicado: o problema da sucessão rural. Ela usa o próprio exemplo de família: seu pai é produtor, os irmãos seguiram outros caminhos, e na propriedade ficaram só ele e a mãe. O SENAR tem um programa específico de sucessão familiar, porque a terra envelhece com o dono quando os filhos vão para a faculdade e não voltam. E quando o produtor vai embora, a propriedade costuma ser arrendada para a cana ou vendida para loteamento.
Dezesseis anos sem um dia ruim no trabalho
Andréia diz que em 16 anos nunca acordou com vontade de não ir ao sindicato. E conta uma história que resume bem o porquê: seu irmão João Paulo estava num posto no Mato Grosso quando um rapaz o reconheceu e pediu para mandar um recado para a “professora Andréia”. Ele tinha sido aluno dela, era “muito atentado” na época, chegou a botar fogo em copinhos no fundo da sala. E agora trabalhava como operador de máquinas numa fazenda. “Fala pra ela que eu cresci.”
Esse é o tipo de retorno que mantém Andréia no trabalho. Não é só ensinar uma técnica: é passar pela vida de alguém e fazer diferença. O SENAR, ela resume, é para todo mundo: para o pequeno produtor que não sabe precificar o que planta, para a família do assentamento que quer transformar artesanato em renda, para o jovem que quer operar uma máquina e entrar no mercado de trabalho. Qualquer um pode chegar. Basta chegar.
Onde encontrar
Andréia Aparecida dos Santos atua em Dracena, SP, e pode ser encontrada pelo Instagram em @deiaapda. O Sindicato Rural de Dracena, onde o SENAR opera, está no Instagram em @sindicato_dracena. O escritório fica no recinto da FAPIDRA, atrás do palco, e funciona de segunda a sábado, das 8h às 17h.
Resumo do episódio
Andréia Aparecida dos Santos coordena o SENAR de Dracena há 16 anos e oferece cursos gratuitos que transformam a renda de produtores rurais. O episódio explora como a instituição funciona sem mensalidades, quais são os cursos mais procurados (desde operação de tratores até processamento de leite e cultivos inovadores), e como programas como assistência técnica, sucessão familiar e mapeamento rural ajudam pequenos e grandes produtores a potencializar o que já possuem.
Principais aprendizados
- O SENAR não cobra mensalidade, taxa de inscrição ou pré-requisitos de escolaridade na maioria dos cursos, fornecendo almoço, café da manhã, material didático e certificado
- Cursos de processamento agroindustrial permitem que produtores transformem subprodutos em renda, como usar 50 litros de leite restante para fazer queijo e requeijão em vez de deixar parado
- Operadores de máquinas agrícolas são profissionais muito procurados, com cursos de 40 horas em cinco dias que combinam operação de trator, retroescavadeira e outros equipamentos
- A Assistência Técnica e Gerencial (ATG) oferece visitas mensais de técnicos sem custo, com documentos que comprovam duplicação de produção em propriedades de gado leiteiro
- A sucessão rural é um desafio estrutural: quando produtores envelhecem sem filhos que continuem na propriedade, a terra é arrendada para monocultura ou convertida em loteamento
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o SENAR de Dracena e quem pode participar?
O SENAR opera no recinto da FAPIDRA, vinculado ao Sindicato Rural Patronal, e cobre Dracena, Ouro Verde e distritos como Japorã e Jamaica. Não existem mensalidades, taxas de inscrição ou pré-requisitos de escolaridade na maioria dos cursos, com o único requisito sendo ter 18 anos para cursos profissionalizantes. Fornece almoço, café da manhã, material didático e certificado.
Quais são os cursos de máquinas agrícolas mais procurados no SENAR?
Os cursos mais procurados são de operação e manutenção de tratores, retroescavadeira, motoniveladora e pá carregadeira, com 40 horas em cinco dias, das 8h às 17h. O curso de operação de tratores é pré-requisito para os demais e possui fila de espera.
Como um curso de processamento de leite pode aumentar a renda de um produtor?
Um produtor que ordena 200 litros diários e entrega 150 ao laticínio fica com 50 litros parados. Através do curso de processamento agroindustrial de leite, esses 50 litros se transformam em queijo minas frescal, requeijão, iogurte e doce de leite, gerando renda adicional com produtos que antes iam para o ralo.
O que é o programa Integrar do SENAR?
Iniciado em agosto de 2024, o programa Integrar utiliza três pesquisadores para fazer um censo rural completo em todas as propriedades do município. O objetivo é mapear o que Dracena e Ouro Verde produzem, identificar lacunas e orientar melhor os cursos futuros, permitindo que produtores recebam orientação concreta sobre o que é viável plantar em áreas paradas.
Como o programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATG) impacta a produção leiteira?
Uma veterinária visita 30 propriedades uma vez por mês durante quatro horas, sem custo, cuidando de pastagens, analisando custos e montando planilhas de controle. Produtores que começam tirando 200 litros de leite por dia chegam ao final do ano tirando 400 litros.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.