#445

Quando ninguém resolve, vai para a reumato: a trajetória de Fernanda Montroni Bezerra | #445

03 de fevereiro de 2026 • 8 min de leitura

Este texto vem do episódio #445 do AdamiCast

No episódio #445 do AdamiCast, Pedro e Mariana receberam a Dra. Fernanda Montroni Bezerra, médica reumatologista e clínica. Uma trajetória que começa querendo ser veterinária, passa por duas gravidezes na faculdade de medicina e chega até a reumatologia de dentro de um ambulatório. Fernanda também falou sobre diagnósticos que demoram meses, sobre os mitos que cercam o FAN e a fibromialgia e sobre o que ninguém conta antes de entrar na medicina.

Queria ser veterinaria, virou medica igual a irma

Fernanda queria ser veterinária quando criança. A irmã Mayara sempre quis medicina. Com o tempo, a admiração pela irmã pesou mais que o sonho dos bichos. As duas entraram juntas na faculdade em Presidente Prudente. O irmão também seguiu medicina depois. Nenhum dos pais era médico. O pai era comunicador, a mãe dona de lar. Fernanda define a família como rede de apoio sem a qual não teria chegado onde chegou.

Duas gravidezes na faculdade

No meio da faculdade Fernanda engravidou do Davi. Depois, logo em seguida, da Ester. Dois filhos nascidos enquanto cursava medicina. Estudava com o bebê no colo. A Dra. Elsa, professora de pediatria, fazia ela subir e descer escadas durante a gestação para abrir o canal. A rotina era pesada, mas ela não parou. Quando se formou, diz que não foi só ela que conseguiu. Foi toda a família.

De Junqueiropolis a Dracena pela estrada

Fernanda é junqueropolense. Depois de formada, começou trabalhando na UPA de Presidente Prudente nos fins de semana e percorrendo cidades da região em postos de saúde: Santa Mercedes, Irapuru, Junqueirópolis, Rancharia. Acordava às 4 horas, vinha para Dracena trabalhar, voltava à noite, voltava de manhã. Tinha 140 pontos na carteira de motorista. Um dia foi chamada para o postão de Dracena, entrou, gostou e ficou. Trouxe a mãe junto. A família foi seguindo.

A reumatologia que quase largou na primeira aula

Fernanda sempre gostou de tratar artrose e artrite, mas nunca pensou em fazer a especialização. Quando decidiu, a primeira aula foi pesada o suficiente para quase desistir. A virada veio no ambulatório, quando a teoria começou a se encaixar com os pacientes reais. Teve os professores Thiago e Naara como referências. Quando tinha dúvidas, os contratava para discussões de caso. Diz que na reumatologia cada caso pode mudar de direção no meio do caminho e que isso exige discutir muito.

Quando ninguem resolve, manda para a reumato

Fernanda define a especialidade com humor: quando ninguém sabe o que o paciente tem, mandam para a reumatologia. Trabalha junto com ortopedia, nefrologia (o rim do lúpus precisa de atenção constante) e outras especialidades. Os pacientes chegam com dor, fadiga, cansaço. Ninguém chega como prevenção. Ela sabe que chegam quando o problema já está instalado, por isso investe nas redes sociais batendo em prevenção. Diz que 80% do tratamento é atividade física. Pacientes arregalam os olhos quando ouvem isso. Vieram atrás de remédio.

O maior mito: FAN positivo nao e lupus

O maior mito da reumatologia, segundo Fernanda, é o FAN (fator antinuclear). Quando o exame vem positivo, médicos mandam direto para o reumatologista com o paciente já apavorado, convicto de que tem lúpus. Ela explica que uma parte da população saudável tem o FAN positivo sem ter doença alguma. O lúpus espera um FAN positivo, mas nem todo FAN positivo é lúpus. É preciso ver os sintomas, o histórico, a indicação do exame. Chega antes de pesquisar no Google.

Fibromialgia: o diagnostico que virou moda

Fibromialgia está em alta. Uma das razões é que uma lei recente passou a reconhecê-la como possível causa de aposentadoria por incapacidade. Fernanda diz que hoje todo mundo acha que tem fibromialgia. Os pacientes chegam com o diagnóstico pronto antes da consulta. O problema é que para diagnosticar fibromialgia é preciso excluir todos os outros diagnósticos antes. Dor generalizada no corpo inteiro, 24 horas, com formigamento e fisgadas à noite, pode ser fibromialgia. Mas pode ser hérnia, radiculopatia, outra coisa. Tem que investigar tudo.

Doencas autoimunes: os soldadinhos que atacam o proprio corpo

Fernanda usa uma analogia simples para explicar doenças autoimunes. O sistema imune tem soldados que defendem o corpo de vírus e bactérias. Numa doença autoimune, esses soldados começam a atacar o próprio organismo. Atacam a articulação, faz artrite reumatoide. Bagunçam tudo o sistema imune, faz lúpus. São doenças crônicas, sem cura, para sempre. O lúpus é hormônio-dependente e aparece muito em mulheres jovens, às vezes na gravidez. A artrite idiopática juvenil pode aparecer com 12, 13 anos e o nome não muda com a idade do paciente.

O primeiro plantao e a primeira intubacao

Dois momentos marcaram o início da carreira. No primeiro plantão na UPA, chegou um paciente com dor no peito. Fernanda achou que era infarto. Correu para o plantonista mais experiente. Até hoje ele comenta a cena. O segundo marcou diferente: quando intubou sozinha pela primeira vez, diz que soltou rojão por dentro. Naquele momento sentiu que era médica. Diz que se formar não significa saber fazer tudo, e que o amadurecimento vem com o tempo e com os casos.

Reguladora interna, plantonista e preceptora

Além do consultório de reumatologia, Fernanda acumula funções na Santa Casa de Dracena. É reguladora interna de vagas: quando falta uma especialidade ou vaga de UTI, ela aciona a Rede Cross para buscar em outras unidades da região. Trabalha em comunicação constante com a Juliana (Santa Casa) e com a Dani (Prudente), 24 horas, qualquer horário. É também coordenadora da clínica médica, faz a escala dos médicos e faz plantão de 24 horas toda quarta-feira. É preceptora de medicina, orientando alunos em formação. Quando perguntada o que não pode é acordar às 5 da manhã.

O que ninguem conta antes de virar medico

Quando Pedro perguntou o que ninguém conta, Fernanda foi direta: ninguém avisa o quanto dói não conseguir fazer nada pelo paciente. Um caso terminal que chega tarde demais. Um exame que deveria ser urgente mas no SUS vai demorar três meses. Uma situação em que ela sabe o que fazer, mas o sistema não permite que seja feito a tempo. Fernanda diz que trabalha pedindo ajuda a Deus o tempo todo, porque tem situações que são difíceis demais para encarar só com técnica.

Topicos abordados no episodio

  • A vontade de ser veterinária e a mudança de rumo por admiração pela irmã Mayara
  • As duas gravidezes durante a faculdade de medicina em Presidente Prudente
  • A Dra. Elsa mandando ela subir e descer escadas grávida para abrir o canal
  • Estudar com bebê no colo e se formar com a família toda como coautor
  • O circuito de cidades pela região antes de chegar no postão de Dracena
  • Os 140 pontos na carteira e a reforma depois de colocar o carro no nome do marido
  • A primeira aula de reumatologia quase fazendo ela desistir
  • A paixão que veio no ambulatório, os professores Thiago e Naara como referências
  • O FAN positivo que não é lúpus: o maior mito da especialidade
  • A fibromialgia que virou moda depois da lei de aposentadoria
  • As doenças autoimunes explicadas pelos soldadinhos que atacam o próprio corpo
  • Artrite reumatoide, lúpus, síndrome de Sjögren e vasculite: como coexistem
  • Artrose vs artrite: o que os pacientes confundem
  • 80% do tratamento é atividade física: a resistência dos pacientes e as alternativas que ela oferece
  • O primeiro plantão na UPA, o paciente com dor no peito e a corrida para pedir ajuda
  • A primeira intubação sozinha como marco de identidade profissional
  • As funções na Santa Casa: regulação interna via Rede Cross, clínica médica, plantão e preceptoria
  • A impotência de não conseguir ajudar um paciente terminal como o que mais pesa na carreira
  • Os filhos Davi e Ester, a logística de dois horários de escola diferentes e o filho indo à academia
  • Os 40 dias sem açúcar e o rebote no primeiro dia que voltou

O AdamiCast #445 é um episódio sobre uma médica que construiu a carreira sem descanso e aprendeu a amar a especialidade que ninguém entende direito. Siga a Dra. Fernanda no Instagram: @drafernandambezerra.

Resumo do episódio

A Dra. Fernanda Montroni Bezerra, reumatologista de Dracena, relata como trocou o sonho de ser veterinária pela medicina após admirar a irmã, cursou a faculdade grávida duas vezes, percorreu cidades da região em postos de saúde, quase abandonou a reumatologia na primeira aula mas se apaixonou pela especialidade no ambulatório, e hoje trabalha no consultório, Santa Casa e redes sociais desmistificando diagnósticos como FAN positivo e fibromialgia enquanto acumula funções de reguladora, preceptora e plantonista.

Principais aprendizados

  • O FAN positivo não significa necessariamente lúpus, pois pessoas saudáveis podem ter o fator antinuclear elevado sem apresentar a doença.
  • Fibromialgia virou diagnóstico comum após lei reconhecê-la como causa de aposentadoria, mas requer exclusão de outros diagnósticos como hérnia e radiculopatia antes da confirmação.
  • Doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imune ataca o próprio corpo, e são crônicas sem cura, exigindo tratamento contínuo.
  • Oitenta por cento do tratamento de doenças reumatológicas é atividade física, embora pacientes frequentemente esperem resolver com medicamentos.
  • A impotência de não conseguir ajudar um paciente terminal ou quando o sistema não permite atendimento a tempo é o aspecto mais difícil da medicina que não contam antes.

Perguntas respondidas neste episódio

O que significa ter FAN positivo?

O fator antinuclear (FAN) positivo não indica automaticamente lúpus ou outra doença. Parte da população saudável apresenta FAN positivo sem nenhuma condição. É necessário considerar sintomas, histórico e indicação do exame para diagnosticar corretamente.

Como é diagnosticada a fibromialgia?

Para diagnosticar fibromialgia é preciso excluir todos os outros diagnósticos antes. Dor generalizada 24 horas com formigamento e fisgadas pode ser fibromialgia, mas pode também ser hérnia, radiculopatia ou outra condição, exigindo investigação completa.

O que é uma doença autoimune?

Doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imune, que normalmente defende contra vírus e bactérias, passa a atacar o próprio corpo. São crônicas, sem cura, e para sempre. Exemplos incluem artrite reumatoide, lúpus e síndrome de Sjögren.

Qual é o percentual mais importante do tratamento em reumatologia?

Oitenta por cento do tratamento é atividade física. Apesar disso, pacientes frequentemente chegam esperando resolver com medicamentos e se surpreendem ao ouvir que a atividade física é essencial no tratamento.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.