Christiane Patuto Kovaleski chegou à psicopedagogia por um caminho tortuoso e muito humano: quatro anos de Direito na FADAP em Tupã, uma paixão por uma camiseta de vôlei numa praia, um casamento, uma mudança para Curitiba e o diagnóstico de asma do filho Eduardo que forçou a família a trocar o frio paranaense pelo calor do interior paulista. No meio de tudo isso, a pedagogia apareceu como uma sugestão da mãe e se transformou na vocação de uma vida.
Hoje com 56 anos, Christiane é psicopedagoga clínica e institucional, professora concursada nas escolas de Tupi Paulista desde 2002 e uma das vozes mais experientes da região quando o assunto é aprendizagem, transtornos e educação inclusiva. No episódio 401 do AdamiCast, ela abre os arquivos de mais de três décadas de carreira, de Curitiba a Tupi Paulista, passando por clínicas de atendimento a autistas graves, salas de aula universitárias e o cotidiano das escolas públicas do oeste paulista.
De Tupã a Curitiba: o atalho pelo Direito
Christiane cresceu numa família de advogados. O pai sonhava com a filha primôgenita seguindo a mesma carreira, e ela tentou: foram quatro anos na FADAP, em Tupã, pegando ônibus, enfrentando duas horas de estrada. Mas o Direito exige uma formalidade que ela simplesmente não tem. No meio desse percurso, numa praia, conheceu Sérgio Kovaleski, curitibano, jogador de vôlei. Ela foi morar em Curitiba, casou, trancou a faculdade e, quando os pais a chamaram para uma conversa franca, o recado foi direto: “você vai ser infeliz sendo dona de casa.”
Foi a mãe quem sugeriu a Pedagogia, lembrando que Christiane sempre havia dado aula para os colegas. Ela entrou na faculdade sem grande expectativa e se apaixonou. Logo emendou a pós-graduação em Psicopedagogia, fez um curso com Jorge Visca, um dos grandes nomes da área na América Latina, e foi chamada para trabalhar no Self Center, uma clínica transdisciplinar em Curitiba que atendia crianças com autismo nível 3 de suporte. “Ali eu aprendi a ser gente”, diz ela.
Cinco anos de clínica: histórias que marcam para sempre
O Self Center era voltado à elite curitibana, com casos graves e prognóstico reservado. Christiane passou cinco anos lá, e as histórias que ficaram são as mais difíceis. Uma delas envolvia um menino que só comia bolacha Divertidos e tomava Guaraná Caçulinha, precisando de lavagem estomacal a cada quinze dias por conta da seletividade alimentar. Outro, de família japonesa, arrancou a própria orelha durante um atendimento com ela. A equipe recebia treinamento para fazer contenção física em grupo, um protocolo chamado “grupo de 8”, com oito profissionais. “Eu dizia que não voltava mais. No dia seguinte, estava lá.”
O que mais a impactava era ver casais de médicos renomados, com toda a estrutura financeira, completamente impotentes diante do filho. Para poder ir ao cinema, eles precisavam deixar uma furadeira elétrica ligada perto dos outros filhos, porque o barulho era a única coisa que fazia o menino recuar durante uma crise. “Questiono minha fé toda vez que me deparo com casos assim”, admite Christiane, que se descreve como espírita.
A volta para Tupi Paulista e o recomeço nas escolas
A asma grave do Eduardo foi o fator decisivo. O médico recomendou um clima mais quente e estável, o oposto de Curitiba. Christiane quis voltar para perto dos pais, e em 2001 a família chegou a Tupi Paulista. O marido Sérgio, curitibano de nascença, levou um susto com o povo que dava bom dia para estranhos na rua. Depois acabou amando a cidade.
Ela recomeçou com dois pacientes na clínica da irmã, fonoaudióloga, pedindo emprestado uma sala. Logo veio o convite para o Colégio Objetivo de Tupi Paulista, onde trabalha até hoje como psicopedagoga institucional. Em seguida, entrou nas escolas municipais, área em que não tinha experiência mas na qual se jogou de cabeça. Está nas escolas de Tupi Paulista desde 2002, concursada desde 2008. Também deu aulas na Fundec, onde o então diretor Dr. Wander a convidou para lecionar Filosofia, e depois no CES Tupi, até 2022.
O que faz (e o que não faz) uma psicopedagoga
A confusão entre psicopedagogia e psicologia é recorrente. Christiane explica com paciência: sua formação inicial é em Pedagogia, não em Psicologia. O foco da psicopedagogia é a aprendizagem, não as emoções nem o comportamento. Ela atende crianças, adolescentes, adultos e idosos com dificuldades de aprendizagem, incluindo casos de Alzheimer e Parkinson em reabilitação cognitiva. Mas se chega um pai pedindo atendimento psicológico, ela encaminha para um colega.
Outro ponto que a preocupa é a proliferação de cursos rápidos de psicopedagogia. “Você está mexendo com pessoas”, alerta ela. Nos seus primeiros anos em Curitiba, todo o salário de 600 reais que ganhava ia para a supervisão com Laura Montserrat Barbosa, uma referência nacional da área. Não abra consultório sem ter passado por supervisão séria, é o recado.
Inclusão escolar, TDAH e os riscos do excesso de tela
Christiane declara, sem rodeios, que é contra a inclusão total. Não é porque os professores não trabalham: é porque a realidade das escolas não comporta colocar qualquer criança com deficiência numa sala regular sem o suporte adequado. Para autismo nível 1 e 2 de suporte, a inclusão funciona bem e traz ganhos reais de socialização. Para casos graves, o ambiente especializado, como o das APAEs, é mais adequado. Ela cita o depoimento de uma mãe cujo filho, após tentativas mal-sucedidas na escola regular, floresceu na instituição especial e parou de ter comportamentos autolesivos.
Sobre o TDAH, explica que é hereditário e que o marido Sérgio foi diagnosticado adulto, o que deu nome a comportamentos da infância que pareciam preguiça. Sobre o aumento de casos de autismo, aponta diagnóstico tardio, maternidade e paternidade após os 35 anos e prematuridade extrema como fatores estudados. E sobre o celular: pesquisas já apontam que o excesso de tela causa espessamento do lobo frontal em crianças. “Seis horas de tela por dia para uma criança de seis anos é um problema real”, diz ela, lembrando que a família precisa parar de terceirizar a formação dos filhos para a tecnologia.
Onde encontrar
Christiane Patuto Kovaleski atende em Dracena, SP. Acompanhe o trabalho dela pelo Instagram: @christianepatuto.
Resumo do episódio
Christiane Kovaleski é psicopedagoga clínica e institucional com mais de três décadas de experiência, desde o trabalho em clínica para autismo grave em Curitiba até professora concursada em Tupi Paulista desde 2002. O episódio apresenta sua trajetória profissional, a diferença entre psicopedagogia e psicologia, reflexões sobre inclusão escolar e os impactos do diagnóstico tardio e excesso de tela no desenvolvimento infantil.
Principais aprendizados
- Psicopedagogia tem foco em aprendizagem e reabilitação cognitiva, não em emoções ou comportamento como a psicologia.
- A inclusão escolar total pode prejudicar crianças com deficiência severa quando não há suporte adequado, sendo ambientes especializados mais apropriados para alguns casos.
- O TDAH é hereditário e muitos casos são diagnosticados na vida adulta, explicando comportamentos da infância que pareciam preguiça.
- Supervisão séria e contínua é essencial para psicopedagogos, não devendo abrir consultório sem essa formação fundamental.
- O excesso de tela causa espessamento do lobo frontal em crianças e representa um problema real na formação atual das crianças.
Perguntas respondidas neste episódio
Qual é a diferença entre psicopedagogia e psicologia?
Psicopedagogia tem formação inicial em Pedagogia e foco na aprendizagem, enquanto psicologia trabalha com emoções e comportamento. Psicopedagogos atendem dificuldades de aprendizagem, incluindo reabilitação cognitiva em casos de Alzheimer e Parkinson, e encaminham questões psicológicas para colegas especializados.
A inclusão escolar funciona para todas as crianças com deficiência?
Não. Para autismo nível 1 e 2 de suporte, a inclusão em sala regular funciona bem e proporciona ganhos de socialização. Para casos graves, ambientes especializados como as APAEs são mais adequados, oferecendo melhor suporte e resultados.
O que causa o aumento de diagnósticos de autismo?
Diagnóstico tardio, maternidade e paternidade após os 35 anos, e prematuridade extrema são fatores estudados que contribuem para o aumento de casos diagnosticados. Não necessariamente há aumento na incidência, mas sim no reconhecimento.
Qual é o impacto do excesso de tela no desenvolvimento infantil?
Pesquisas indicam que o excesso de tela causa espessamento do lobo frontal em crianças. Seis horas diárias de tela para uma criança de seis anos é considerado um problema real que afeta o desenvolvimento normal.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.