Lucas Valdomiro foi para Buenos Aires fazer a primeira maratona da vida com uma capa de chuva rosa que ele não conseguia largar. Marcelo Mansano tinha avisado para ir de blusa descartável ou manguito. Lucas não acreditou, ficou com a capa até o quilômetro 15 e passou frio mesmo assim. Terminou em 3 horas e 10 minutos. Ao cruzar a linha, foi direto para o chão. Mansano não perdeu a oportunidade e filmou tudo. No episódio 430 do AdamiCast, os dois contaram a maratona de Buenos Aires, por que a torcida argentina envergonha o Brasil, o que acontece com o corpo e com a cabeça depois do quilômetro 30, quanto tempo leva para se preparar do zero, e por que tênis de placa de carbono machuca quem não está pronto para usar.
A capa rosa e o frio que não passou nos 15 km
A largada em Buenos Aires foi abaixo de 10 graus com garoa. Mansano havia explicado a estratégia: ir com uma blusa leve para descartar antes de pegar velocidade, ou usar manguito que dá para tirar e guardar no bolso. Lucas foi com uma capa de chuva rosa. Ficou com ela correndo até o quilômetro 15 tentando entrar em calor. Não conseguiu. “Morrendo de frio, tentando ficar perto de outros corredores para pegar um pouco de calor.” Depois do 15 descartou. Demorou mais para aquecer. Mansano já tinha experiência com Porto Alegre onde largou com 2 graus e sabe que no frio a estratégia de roupa muda tudo. “No calor daqui de Dracena você esquenta no segundo quilômetro. Lá pode não esquentar até o 15.”
42 km de torcida e a cidade que surpreendeu os dois
O que mais surpreendeu Mansano positivamente foi o público. “O argentino vai em massa. Todo lugar que a gente passava tinha torcedor.” Chegou a comparar com as cinco maratonas que fez no Brasil antes de ir para fora pela primeira vez em Chicago: nenhuma delas teve metade da experiência da torcida. Em Buenos Aires, as pessoas vestiam a camisa da prova. Em Chicago, era 42 km sem um espaço vazio nas calçadas. “Desde o senhorzinho de 90 anos com sininho balançando para você até a criança que fazia questão de que você batesse na mão dela.” O conceito de rixa entre Brasil e Argentina, para Mansano, é invenção nossa. “Esse negócio é só o brasileiro que tem na cabeça. O argentino te trata muito bem lá.” A cidade era organizada, limpa, cheia de monumentos no percurso. O fato de ter algo para olhar a cada quarteirão ajuda a não ficar obcecado com a dor. “Por isso que eu acho louco quem corre 40 km na praça.”
Depois do quilômetro 30 é tudo mental
Mansano tem resposta direta para quem pergunta se maratona é mais física ou mental: depois do 30, é mental. O treinamento chega no máximo a 30 ou 32 km. A cabeça nunca processou 42. A partir do momento em que o corpo ultrapassa o que está acostumado, começa a argumentar para parar. “Eu falei nos 30: nunca mais faço isso. Aí chegou no 39 e foi feliz.” Lucas viveu a versão de estreante: a fase dos “mais 2 km que nunca chegam”. “Você fala: tá acabando. Mas os últimos 3 km parecem eternos.” Mansano tem até um vídeo filmando a placa do quilômetro 42 enquanto caminhava para a chegada e a placa simplesmente não chegava. “Fui 200 metros com o celular filmando aquela placa.” Lucas, ao cruzar, foi para o chão. Mansano filmou também. “Você acha que é crossfit aqui?” Lucas ficou deitado no frio enquanto esperava a esposa chegar com roupa.
Seis meses de preparação do zero
A planilha padrão de maratona tem 16 semanas, pouco mais de 4 meses. Mas isso pressupõe que a pessoa já consegue correr 5 a 10 km com conforto. Antes da planilha, são mais 2 meses de base. Na prática: 6 meses mínimo para quem começa do zero. A semana de treino do ciclo inclui longo no sábado, descanso no domingo, volume moderado durante a semana. O longo foi crescendo de 21 para 25, depois 27, depois 30. “Tinha semana que a planilha vinha com 21 e a gente ficava feliz. Nossa, é só 21.” O conselho de Lucas para iniciante: manter a constância no mesmo volume por meses antes de subir. Cada semestre uma evolução. Nada de 5k hoje, 10k na semana que vem, 21k no mês seguinte. “Isso é o que mais machuca o pessoal que tá começando agora.”
Lucas fez a preparação inteira no crossfit, sem ir quase nada para academia tradicional. Exceto panturrilha. Os movimentos funcionais do crossfit deram a base de resistência e musculatura que ele precisava. “Faria de novo.” Mansano concorda que qualquer modalidade de fortalecimento serve. O problema é que a maioria dos corredores detesta academia. “Mais cedo ou mais tarde sem fortalecimento vem a lesão.” Fratura de estresse está crescendo no consultório ortopédico exatamente porque o mercado de corridas cresceu e as pessoas não estão prontas para o volume que querem assumir.
Tênis de placa de carbono: não compre se você é iniciante
Mansano proíbe pacientes iniciantes de comprar tênis de placa de carbono. A placa sobrecarrega panturrilha e cadeia posterior de coxa em quem não tem base muscular desenvolvida. “Eu falo para o paciente: você não vai comprar tênis de placa.” A confusão vem das redes sociais onde todo atleta avançado usa o modelo e parece fácil. Mas quem corre pace de 6 a 7 minutos por quilômetro não vai sentir benefício da placa, só risco de lesão. O conselho para iniciante é um tênis confortável, sem precisar ser caro. Olímpicos foi citado como boa opção de custo-benefício. Fila também. Para quem já tem uma base e quer performar, aí sim a placa faz diferença, mas com condicionamento muscular adequado. A moda dos tênis maximalistas, os solados muito altos, também foi comentada. Há 12 anos a tendência era o oposto: tênis minimalistas tipo Vibram Five Fingers imitando corrida descalça. Caiu por terra. “Cada época tem a moda. Hoje quanto mais confortável, mais a galera gosta.”
Berlim, as seis Majors e o potencial sub-3 do Lucas
As seis maiores maratonas do mundo, as World Marathon Majors, são Berlim, Chicago, Boston, Nova York, Londres e Tóquio. Quem completa as seis recebe uma medalha especial. Para participar da maioria delas, é preciso ser sorteado. Boston é a exceção: classificatória por tempo conforme faixa etária. Na faixa de Mansano, o índice é 3h35, mas como muita gente atinge esse índice, existe ainda uma nota de corte mais rápida que garante a vaga. Mansano já correu Chicago (foi sorteado) e Buenos Aires. Está inscrito no sorteio de Berlim. Para Lucas, a análise de Mansano é direta: com o tempo de 3h10 numa primeira maratona, no frio, Lucas tem potencial para correr sub-3. “Jovem, forte, treinado, vai ganhar experiência.” O projeto sub-3 foi combinado com o Renatinho para algum momento futuro.
Constância, treinador e não se comparar com as redes sociais
A última mensagem dos dois convergiu no mesmo ponto. A corrida voltou a ser moda, o número de provas na região está crescendo, e o erro mais comum é o pessoal querer performar antes de ter base. “Todo mundo só posta quando fez um tempo bom, quando tá bem. Ninguém posta quando se machucou.” O algoritmo entrega só as melhores versões de mil pessoas ao mesmo tempo. A impressão é que correr 15 km é fácil para todo mundo. Não é. O conselho: seguir a planilha de um profissional, respeitar o treinador mesmo quando a planilha manda caminhar, fazer fortalecimento, e ter paciência. “O paciente é invencível, ele vai longe.” Lucas foi com o Rodrigo Sadala, que também completou a primeira maratona em Buenos Aires. Os três acordavam às 4h30 para treinar juntos às 5h da manhã durante o ciclo de preparação. “A gente só ia porque o outro tava esperando.”
Resumo do episódio
Lucas Valdomiro completou sua primeira maratona em Buenos Aires em 3 horas e 10 minutos, preparado por Marcelo Mansano. O episódio aborda a experiência de correr no frio, a superioridade da torcida argentina em comparação ao Brasil, o desafio mental após o quilômetro 30, os 6 meses necessários de treinamento para iniciantes e erros comuns como usar tênis de carbono sem base muscular ou comparar-se com atletas nas redes sociais.
Principais aprendizados
- No frio abaixo de 10 graus, usar roupas descartáveis ou manguito é mais eficaz que capa de chuva, pois permite descartar e aquecer no ritmo certo.
- Maratona é mental após o quilômetro 30, já que o treinamento máximo atinge 32 km e o corpo nunca processou correr 42 quilômetros.
- Iniciantes devem respeitar 6 meses de preparação: 2 meses de base antes de iniciar a planilha de 16 semanas, evitando aumentos abruptos de quilometragem.
- Tênis de placa de carbono causa lesão em corredores iniciantes porque sobrecarrega panturrilha e coxa sem base muscular, beneficiando apenas quem já tem condicionamento.
- Fortalecimento é essencial para evitar lesões, podendo ser feito em crossfit ou academia tradicional, já que corredores que ignoram isso desenvolvem fraturas de estresse.
Perguntas respondidas neste episódio
Por que Lucas Valdomiro teve frio na maratona de Buenos Aires mesmo descartando a capa?
A largada estava abaixo de 10 graus com garoa e ele manteve a capa até o quilômetro 15 tentando aquecer. Mesmo após descartar, demorou mais para aquecer porque a estratégia de roupa foi errada desde o início. No frio, o corpo não esquenta rápido como no calor.
Qual a diferença entre a torcida nas maratonas de Buenos Aires e no Brasil?
Buenos Aires teve público em massa em toda a extensão dos 42 km, com pessoas vestindo a camisa da prova e incentivando todos os corredores. Mansano comparou com cinco maratonas no Brasil e nenhuma teve metade dessa experiência. A torcida argentina superou até Chicago em quantidade e dedicação.
Quanto tempo leva para se preparar para uma maratona começando do zero?
São necessários no mínimo 6 meses. Os 2 primeiros meses são de base para conseguir correr 5 a 10 km com conforto, depois vêm as 16 semanas (pouco mais de 4 meses) da planilha padrão de maratona. Isso presume evolução lenta e constante, sem pulos abruptos.
Por que iniciantes não devem usar tênis de placa de carbono?
A placa sobrecarrega panturrilha e coxa posterior em corredores sem base muscular desenvolvida. Quem ainda corre com pace de 6 a 7 minutos por quilômetro não sente benefício da placa, apenas o risco de lesão. A confusão acontece porque atletas avançados usam o modelo nas redes sociais.
O que Mansano viu de potencial em Lucas após sua primeira maratona?
Lucas completou em 3 horas e 10 minutos numa primeira maratona, com frio e sem experiência prévia. Mansano avaliou que o jovem, forte e treinado tem potencial para correr sub-3 horas conforme ganhe experiência em futuras provas.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.