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Claudinei Rodrigues, o Pulga: da primeira corrida com tênis de R$ 12 ao top 60 da São Silvestre | #432

25 de novembro de 2025 • 9 min de leitura

Este texto vem do episódio #432 do AdamiCast

Claudinei Rodrigues chegou à primeira corrida de rua da vida com um tênis de R$ 12 comprado no dia, meão de jogar bola e short de futebol. Fez 7 km em 23 minutos, ficou em quarto lugar na categoria e não dormiu uma semana olhando para o troféu. Dois anos depois estava na São Silvestre entre os 59 melhores de 37.000 corredores. No episódio 432 do AdamiCast, o Pulga contou como a pandemia trocou o futebol diário pela corrida, a estratégia do efeito sombra, a corrida que perdeu por 30 milésimos de segundo em Pereira Barreto, os 12 anos que levou de moto de Ibiuna a Dracena para pedir a namorada, e a fase da vida que começou a ficar gostosa depois dos 40.

Pulga desde os 12 anos num peneirão em São Paulo

O apelido veio de uma tarde em que o Claudinei foi num peneirão de futebol em São Paulo com 12 anos. Os outros meninos da mesma faixa etária já eram grandes. Ele estava no meio deles, pequeno. Alguém no peneirão falou que parecia uma pulguinha no meio dos outros. O apelido ficou. Veio de Ibiuna para Dracena, e o Pulga veio junto. Ibiuna é a segunda cidade mais alta do estado de São Paulo. “Cuidado com os corredores de lá, o cara que corre lá corre em qualquer lugar.” A subida é o forte do Pulga até hoje.

A pandemia, o futebol travado e a primeira corrida

Antes da corrida, era futebol todos os dias da semana. A esposa ficava louca. Quando a pandemia fechou os campos, o Claudinei começou a correr sozinho pelas ruas de Dracena. Miguel, do Dracena Runners, viu ele treinando e chamou para o grupo. Em 2020 foi adicionado, começou a postar treinos, a receber dicas. Quando o futebol voltou, o Miguel apareceu com um convite: tinha uma corrida de rua em Venceslau, 7 km offroad. O Claudinei disse que não sabia fazer nada, que não era nada tecnológico, que não sabia nem fazer inscrição. O Miguel fez a inscrição. A prefeitura levou o grupo. Faltava o tênis. Foi na loja comprar um de R$ 12, foi com meão e short de futebol, chegou na largada com todo mundo olhando para ele.

Fez os 7 km em 23 minutos. Quarto lugar na categoria. Voltou para casa com o troféu. A esposa perguntou o que era aquilo, perguntou se era fácil. Ele disse que quase morreu. “Então foi fácil?”, ela perguntou de novo. Ficou uma semana sem dormir olhando para o troféu. “Cara, que legal isso. Preciso trabalhar isso.” A partir daí, a competição virou briga consigo mesmo.

De R$ 12 para a São Silvestre: 13° na primeira, 59° na segunda

Correu um ano inteiro com o tênis de R$ 12. Depois o Luiz Fernando e o Renatinho, diretor da Unesp, ofereceram um tênis Olímpicos para ele correr os Jogos Regionais pela cidade. Com o tempo baixando, no final de ano ele usou o 13° salário para comprar um Nike Porf Fly 2, R$ 400. Disse para a esposa que com aquele tênis ia correr a São Silvestre. Fez a inscrição. Na primeira São Silvestre, com 27.000 corredores, ficou em 13° no geral. Na segunda, com 37.000, ficou em 59°. Para 2025, são 55.000 inscritos. A meta é chegar entre os 30. Já melhorou o tempo de 58 minutos para 56 minutos e quer chegar em 50.

Na São Silvestre, largou no setor prime, atrás dos quenianos, ao lado das motos policiais. Desceu o Pacaembu, subiu o pontilhão, passou pelo teatro sem ninguém na frente. No quilômetro 11, na entrada da Brigadeiro, a subida extensa. Alguém da região que mora em São Paulo gritou “Dracena” da calçada. “Aquilo me dava um gás.” Chegou à Paulista junto com um pelotão de quatro atletas de Macapá, do Ceará, da Bahia, todos profissionais. “Para mim foi uma vitória.”

30 milésimos de segundo em Pereira Barreto e o efeito sombra

A corrida mais frustrante da carreira foi em Pereira Barreto. Faltando 1 km, ele e o Gabriel estavam na mesma passada, na mesma cadência, nenhum dos dois atacava. Quando faltavam 200 m, os dois atacaram juntos e cruzaram praticamente ao mesmo tempo. A diferença foi de 30 milésimos de segundo. “3 minutos é o cara era muito melhor que eu. 30 milésimos é outra coisa.” Em Venceslau, no domingo antes do podcast, fez 16 minutos e 6 segundos nos 5 km, ficou em sexto no geral e campeão da categoria. O segundo da categoria fez 19 minutos.

A técnica que mais usa em competição é o que chama de efeito sombra: ficar literalmente atrás do atleta mais forte, no vácuo dele, sem sair. “Se ele se irritar e ficar nervoso, ele vai sair de mim ou vai quebrar.” A ideia é bagunçar a estratégia do adversário sem gastar energia. Se o cara atacar na subida, o Pulga acompanha. Se der uma quebrada na descida, passa já em velocidade máxima. “Eu passo que nem um Corola do lado de um Fusca. Dá uma reduzida e tchau.”

Treinamento: 60 km por semana, tiros de 400 com 40 segundos de pausa

Quando tem competição no domingo, o volume da semana fica em no máximo 60 km. Terça tem treino de rampa, 3 a 6 km de subida. Quinta tem tiro de 1000 m, cinco ou seis repetições com pace de 3 minutos e 15, pausa mínima. Sexta é treino fraco, 7 minutos por quilômetro. Sábado é repouso total com alimentação controlada. No dia do episódio tinha feito 3 km de aquecimento e 10 tiros de 400 m com 40 segundos de pausa, cada tiro em 1 minuto e 11 a 1 minuto e 13. “Chegava lá em cima, tela preta. Chegava lá embaixo, tela preta.” Quarenta segundos de pausa é tempo demais para o treino render, mas pouco demais para recuperar. É essa tensão que força a adaptação.

A alimentação virou prioridade. “O nosso corpo é uma máquina. Se você não dá o melhor pra máquina, a máquina vai travar, a máquina não vai responder.” Cortou os ultraprocessados, mantém poucos embutidos, só não conseguiu abrir mão de uma fatia de presunto no pão de forma no final de semana. Treina dois períodos quando consegue, agora só de manhã. Precisa terminar até as 6:20 porque o filho quer que o pai leve na escola.

Corrida com dengue e a prova que nunca mais vai fazer

Em 2021, correu o offroad de Borá a Lutécia sem saber que estava com dengue. Fez 1 hora e 35 minutos, ficou em 10° ou 11° no geral e campeão na categoria. Voltou, almoçou, dormiu, acordou com dor no corpo inteiro. Trabalhou na segunda. Fez exame, não deu nada. Fez de novo na quarta, não deu nada. Na quinta deu dengue. A plaqueta já estava em 90. Ficou 15 dias tomando soro. “Quase acabei com o estoque de soro do posto.” Hoje se o corpo avisa, ele escuta. “Não recomendo.”

A moto de 12 horas, o tombo com cunhado na garupa e Dracena

O Claudinei nasceu em São Roque e morou a vida toda em Ibiuna. A esposa era daquela cidade mas a família era de Dracena. Quando ela completou 18 anos, ele montou numa moto com o cunhado na garupa e saiu às 4:30 da manhã para pedir ela em namoro, sem saber direito onde ficava Dracena. Pegou a Raposa Tavares, caiu numa curva porque estava chovendo, a moto 250 era grande demais para o tamanho dele, a cabeça ficou atolada no barro. O cunhado caiu em cima. Perguntou se o cunhado tinha se machucado. O cunhado disse que não. “Então já pode sair de cima de mim.” Levantou, continuou. Levou 12 horas para chegar. O pai da menina deixou namorar. No dia seguinte precisava voltar mas não sabia o caminho. Namorou um ano a distância. Casaram, foram para Ibiuna. Depois o sogro chamou de volta. Ficou 4 anos no fundo da casa da sogra, comprou um meio lote no Palmeiras, financiou a casa. Está em Dracena há 14 anos.

Mãe morreu com 8 anos, rua, lixão e EJA

A mãe do Claudinei morreu quando ele tinha 8 anos. O pai arrumou outra família e abandonou os filhos. Foram cinco irmãos no total. Ele e a irmã que mora em Dracena ficaram sem ter onde morar, foram despejados do aluguel, passaram um tempo na rua, moraram na casa de um irmão, depois de outro. Foram para Ibiuna trabalhar em horta. Ele parou de estudar. Trabalhou num lixão. Voltou a estudar em 2003 pelo EJA. Conheceu a esposa. Veio para Dracena. “Minha vida mesmo começou a ficar gostoso depois dos 40.” Avó paterna morreu com 115 anos, é descendente de índio. O pai faleceu com 70 e poucos anos, um mês antes de o filho do Claudinei nascer, em plena pandemia. “Foi uma mistura. Tava vivendo um luto e ao mesmo tempo tava nascendo uma vida.”

Milan Pintura, o primeiro patrocinador, e o grupo Pulga Amigos que Correm

O Milan Pintura foi o primeiro a aparecer com patrocínio. Viu o Claudinei ganhando corridas e perguntou se ele tirava do bolso para ir. “Sim, quando a prefeitura não paga, a gente racha o combustível e vai.” O Milan começou a ajudar com dinheiro e continua até hoje. “Foi ele que iniciou tudo isso aí.” O grupo que criou para treinar com amigos se chama Pulga Amigos que Correm. Não chama de grupo de corrida. Começou com o Jorge, a Lucimara e a Andreia. Hoje tem a Andressa, a Jéssica e outros. O Renatinho, diretor da Unesp, também está junto e vai com o grupo para a São Silvestre. “Qualquer cidade que você for aqui e falar do Pulga, vão conhecer.”

Na corrida em Bantina, foi ganhar R$ 500 e o motor do carro fundiu no estacionamento. Ligou a luz do óleo quando puxou o freio de mão. Correu mesmo assim, ficou em segundo e faturou R$ 400. O diagnóstico na segunda-feira foi de R$ 3.000. “Se aconteceu, foi porque Deus quis. Não vou murmurar.” Hoje tem carro novo. O filho de 5 anos, na competição das crianças com 4 anos, recusou comer de manhã antes de competir porque o pai não come. “Vai ser igual eu e você, Pedro.”

Resumo do episódio

Claudinei Rodrigues, conhecido como Pulga, saiu de uma primeira corrida com tênis de R$ 12 e chegou ao top 60 da São Silvestre em apenas dois anos. A história passa pela pandemia que o levou do futebol diário para a corrida de rua, a estratégia do efeito sombra que usa em competições, derrotas marcantes por milésimos de segundo, e uma trajetória de vida que começou na rua e no lixão até encontrar estabilidade em Dracena após os 40 anos.

Principais aprendizados

  • O efeito sombra consiste em ficar atrás do atleta mais forte no vácuo dele para bagunçar a estratégia do adversário sem gastar energia própria.
  • Treinos para corredores competitivos incluem tiros curtos de 400 m com 40 segundos de pausa, sessões de rampa de 3 a 6 km e volume total de 60 km semanais.
  • A alimentação funciona como prioridade fundamental para corredores, requerendo corte de ultraprocessados e controle mesmo quando o corpo está debilitado por doença.
  • Correr com dengue ou outras doenças que afetam a recuperação muscular é prejudicial, mesmo que o desempenho momentâneo pareça bom.
  • A subida é o forte de corredores que treinam em regiões montanhosas desde o início, como Ibiuna, que é a segunda cidade mais alta do estado.

Perguntas respondidas neste episódio

Como começar a correr sem experiência técnica ou equipamento caro?

É possível começar com equipamento básico, como um tênis simples, e integrar-se a um grupo de corredores que oferece dicas e apoio. A inscrição em uma corrida local é o ponto de partida, e a competição se torna o motivador para evoluir de forma contínua.

Qual é a técnica do efeito sombra na corrida competitiva?

Consiste em ficar literalmente atrás do atleta mais forte, no vácuo dele, sem sair. Se o adversário se irritar e ficar nervoso, ele vai sair ou quebrar. A ideia é bagunçar a estratégia sem gastar energia: acompanha na subida e passa em velocidade máxima na descida.

Como é estruturado um treino de corrida competitiva durante a semana?

Quando há competição no domingo, o volume fica em 60 km semanais. Terça inclui treino de rampa com 3 a 6 km de subida. Quinta tem tiro de 1000 m com cinco ou seis repetições. Sexta é treino fraco e sábado é repouso total com alimentação controlada.

Qual a importância da alimentação no desempenho do corredor?

O corpo funciona como uma máquina que responde conforme o combustível recebido. Cortar ultraprocessados, manter poucos embutidos e controlar a alimentação antes de competições são práticas essenciais. Treinar ou competir com o corpo debilitado por doença prejudica a recuperação muscular.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.