Flávio Sampaio é fotógrafo há mais de duas décadas, com atuação pela região oeste paulista e pelo Brasil em projetos pessoais e editoriais. Em março de 2022, voltou ao Projeto Lucas Aba — uma iniciativa de saúde bucal baseada em Santarém, que leva dentistas em embarcações pelo Rio Amazonas e afluentes para atender comunidades ribeirinhas isoladas. Foi a segunda missão dele: a primeira havia sido em 2017 (Ação 37), e a pandemia forçou uma pausa de quase cinco anos. Agora na Ação 56, ele não voltou só pra fazer fotos: voltou pra contar histórias em vídeo.
De retorno ao Blog: a primeira vez no projeto, em 2017
Flávio conheceu o Lucas Aba em 2017 através da coordenação, que mapeava profissionais dispostos a embarcar. Na época, a missão era direta e curta, com uma equipe bem maior. “Eu fui fazer fotos”, lembra ele, mas voltou impactado com o que viu: comunidades em que a única assistência odontológica do ano vinha daquela embarcação, com gente esperando na margem horas antes do barco atracar. De volta em casa, descreveu no AdamiCast a experiência como uma das mais marcantes da carreira — e a primeira aparição dele no blog.
A pandemia, claro, congelou tudo. O barco ficou parado. O projeto continuou pagando a conta básica, mas as ações presenciais no rio só puderam voltar em março de 2022, com a equipe reduzida. Flávio monitorou o retorno e, quando a coordenação reabriu a possibilidade, topou voltar.
Quase 20 ações depois: o que mudou no barco, o que não mudou nas comunidades
A Ação 56 aconteceu em março de 2022 com uma tripulação enxuta: seis dentistas, um amigo (Tótoro) e Flávio como fotógrafo e videomaker, totalizando vinte pessoas a bordo. “Eram 16 horas de barco pra chegar em Santarém, e mais 16, 18 horas de barco dependendo do rio pra chegar nas comunidades”, conta. No mapa, parecia mais próximo do que se mostrou no tempo real. A Foz do Tapajós, especialmente, é complexa: a água do Amazonas é mais pesada, o barco vibra diferente, e a navegação exige um tipo de leitura que só quem conhece a região domina.
O que mudou, sim, foi o ângulo do trabalho dele. Em 2017, Flávio fazia fotos: visitas curtas, um retrato, um registro. Em 2022, ele entrou no barco pra fazer vídeo, entrevista e pré-entrevista. “Na foto tudo bem, legal, você mora aqui? Posso fazer uma foto? Acabou. No vídeo, você tem que entender a relevância daquilo, ouvir a história antes de apertar o botão de gravar”. Isso transformou a missão inteira num diálogo, com tempo de escuta — e nas comunidades ribeirinhas, esse tempo é um luxo raro pra quem sempre está correndo pra resolver o que aparece.
Mudar pela base, não pelo topo: a estratégia do projeto
O Lucas Aba foi idealizado pelo comandante de aviação André Luiz Fachini, hoje com 69 anos e passando o bastão da coordenação. A história começou nos anos 1970, quando Fachini sobrevoava a Amazônia e via, do alto, casarios isolados no meio do rio. Em 2008-2009, ele fez o mapeamento inicial com apoio do aeroclube de São José dos Campos e de uma amiga de infância, Gláucia (hoje coordenadora do projeto). De início, a leitura do comandante foi clara: entregar comida ou dinheiro não mudaria a cultura local. “É saúde bucal que a gente vai atacar, de baixo pra cima, não de cima pra baixo. Se muda a base da pirâmide, muda a estrutura”.
Flávio viu de perto como essa lógica já transformou gerações. Em uma das comunidades, ele e a equipe entrevistaram uma menina de 16 anos que levava a filha de 1 ano e 8 meses pro dentista. “Ela foi atendida com cinco anos, foi uma das primeiras atendidas, e hoje ela leva a filhinha dela”. Em outro lugar, os próprios professores, novos no projeto, estão sendo ensinados pelas crianças a escovar os dentes: “Os professores que não acompanharam desde o início estão sendo educados pelas crianças. É da hora”. Tudo isso atravessado por um detalhe que Fachini manteve nas comunidades: o rádio via satélite, instalado pra emergências (picada de cobra, tiro acidental), e que já salvou vidas por ali.
O papel da fotografia de impacto e o que não se mede
Flávio voltou dessa experiência convencido de uma coisa: fotografia de impacto não é “fazer bonito”, é fazer quem tá longe enxergar. Quando um adolescente o procurou pedindo a foto de 2017 pra colocar no Facebook, Flávio entendeu a dimensão. “Olha cara: você consegue mudar a perspectiva da pessoa pelo olhar que você botou nela, sabe?”. No barco, ele filmou com lente 70-200 (longa distância, foco em segurança) e usou flash remoto pra driblar a falta de luz dentro das casas de madeira dos ribeirinhos. Em um culto a bordo, deu a câmera pro amigo, e cada um fotografou o outro: “Se eu tá lá sozinho, eu faço a foto de mim mesmo com o flash remoto. A gente se documenta na missão.”
A mensagem dele pra outros fotógrafos é direta: “Não faça só a foto da paisagem. Vai lá, pergunta o nome da pessoa, escuta a história, depois registra”. No Lucas Aba, a fotografia virou ferramenta de preservação cultural: ao registrar uma menina levando a filha ao dentista, ou um professor sendo ensinado pelos alunos, ele ajudou a registrar uma mudança que dura há mais de 14 anos. O próximo barco sai com a coordenação passando o bastão pra uma nova geração, mas o río e as comunidades continuam ali — e a fotógrafo, mesmo quando aperta o botão da máquina, fica.
Onde encontrar
O Flávio Sampaio atua como fotógrafo e videomaker pela região oeste paulista (base no eixo Dracena-Presidente Prudente-Marília) e roda o Brasil em projetos editoriais e de impacto social, como o registro das ações do Projeto Lucas Aba. Para acompanhar portfólio, bastidores de viagens e os registros da missão, o canal principal é o Instagram pessoal: @sampaio_foto. Para conhecer o Projeto Lucas Aba e como contribuir com as próximas ações, o caminho é buscar a instituição oficial do projeto, sediada em Santarém, PA.
Resumo do episódio
Flávio Sampaio é fotógrafo que retornou ao Projeto Lucas Aba em 2022, desta vez como videomaker, para registrar o trabalho de dentistas em comunidades ribeirinhas da Amazônia. O projeto, iniciado nos anos 1970, atua na transformação cultural das comunidades através de saúde bucal, criando gerações que perpetuam hábitos de higiene oral. Ao documentar histórias pessoais das famílias ribeirinhas, Sampaio compreendeu que fotografia de impacto é ferramenta de preservação cultural, mostrando mudanças reais e duradouras em comunidades isoladas do Rio Amazonas.
Principais aprendizados
- Fotografia de impacto não é fazer bonito, mas fazer quem está longe enxergar a realidade e a história das pessoas registradas.
- Comunidades ribeirinhas isoladas dependem da única assistência odontológica que chega uma vez por ano através do barco do projeto.
- A estratégia do Projeto Lucas Aba é mudar pela base da pirâmide social, através de saúde bucal, não através de distribuição de comida ou dinheiro.
- Gerações de crianças atendidas no projeto crescem com hábitos de higiene dental e depois educam seus próprios filhos e até professores novos na comunidade.
- O trabalho de documentação em vídeo exige escuta prévia das histórias das pessoas antes de registrar, transformando a missão em diálogo genuíno.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o atendimento odontológico do Projeto Lucas Aba nas comunidades ribeirinhas?
O projeto leva dentistas em embarcações pelo Rio Amazonas e seus afluentes para atender comunidades isoladas. A navegação até as comunidades leva entre 16 e 18 horas de barco dependendo das condições do rio. O atendimento representa a única assistência odontológica que muitas comunidades recebem durante o ano inteiro.
Qual é a estratégia do Projeto Lucas Aba para gerar mudança nas comunidades?
O projeto atua pela base da pirâmide social através de saúde bucal, não de cima para baixo. A lógica é que mudar a base da estrutura gera transformação cultural duradoura. O projeto já trabalha há mais de 14 anos, criando gerações que perpetuam hábitos de higiene e educam uns aos outros sobre cuidados dentários.
Como a fotografia e vídeo contribuem para o Projeto Lucas Aba?
A documentação visual funciona como ferramenta de preservação cultural ao registrar histórias e mudanças reais nas comunidades. Ao fotografar uma menina levando sua filha ao dentista, por exemplo, fica documentada uma transformação que se perpetua entre gerações. A fotografia também ajuda pessoas distantes a enxergarem e compreenderem a realidade dessas comunidades.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.