#350

Endocrinologia e saúde metabólica: a historia da doutora Anelise Rabischini | #350

23 de outubro de 2024 • 6 min de leitura

Este texto vem do episódio #350 do AdamiCast

No episódio 350 do AdamiCast, Mariana e Pedro Adami receberam a doutora Anelise Rabischini, médica endocrinologista que atende em Dracena desde 2010. Ao longo da conversa, ela contou como chegou até a medicina, os caminhos que percorreu até se especializar em endocrinologia e mergulhou fundo em temas que atravessam o consultório todos os dias, como diabetes, obesidade, o famoso Ozempic e os riscos de tratamentos hormonais feitos sem acompanhamento.

O caminho até a medicina e a escolha pela endocrinologia

Anelise contou que desde jovem tinha facilidade e gosto pelos estudos, mas foi o contato com o irmão mais velho, Antônio Luiz, que já cursava medicina, que despertou a decisão. “Fui conhecer com ele a faculdade. Me apaixonei. E aí foi quando decidi mesmo”, relembrou. Formada em 2004 pela faculdade de Presidente Prudente, ela contou que a trajetória até a especialização foi longa: dois anos de clínica médica na Santa Casa de Maringá, pré-requisito para as áreas clínicas, e depois a disputa pelas vagas de residência em endocrinologia, que ela descreveu como “outro vestibular”. Levou mais de uma tentativa até conseguir uma vaga de estágio em Marília, seguida por dois anos na PUC de Sorocaba, onde morou perto do irmão. “Esse ano eu faço 20 anos de formada”, contou, destacando que depois ainda cursou dois mestrados, um deles concluído durante a pandemia, período que ela descreveu como desafiador pelas aulas online e pelos créditos que precisavam ser cumpridos.

Sobre a escolha pela endocrinologia, ela explicou o fascínio pelo raciocínio clínico da especialidade: “O hormônio, ele é apaixonante. Você produz em um órgão e ele age em outro órgão.” Contou ainda que soube da existência de todo um eixo hormonal como o que regula a menstruação, comandado por uma glândula do tamanho de um grão de feijão, a hipófise, e que o corpo tem mecanismos de contra-regulação impressionantes, como a prolactina, que durante a amamentação inibe a ovulação para evitar uma nova gestação.

Diabetes, obesidade e os distúrbios metabólicos mais comuns

Segundo Anelise, os problemas mais frequentes no consultório são diabetes, obesidade, distúrbios de tireoide e distúrbios metabólicos como colesterol alto e síndrome metabólica. Ela explicou que a maioria dos casos de diabetes, entre 80% e 90%, é do tipo 2, associado à idade, obesidade, sedentarismo e histórico familiar, diferente do tipo 1, que costuma surgir na infância pela deficiência total de insulina no pâncreas.

Um ponto que ela fez questão de destacar é que a obesidade precisa ser tratada como doença crônica, e não como falta de força de vontade. “A gente vive uma época que o pessoal começa a falar que é bonito, você tem que se aceitar… você pode se aceitar, mas você está se aceitando de forma que você é um doente”, afirmou. Ela também criticou o uso isolado do IMC como parâmetro, já que ele não considera a distribuição da gordura no corpo. Para Anelise, a gordura concentrada na região abdominal é mais perigosa por se depositar em órgãos como fígado e pâncreas, enquanto o acúmulo em outras regiões, como no caso da mulher brasileira, tende a ser mais protetor.

O boom do Ozempic e os riscos do uso sem acompanhamento

A conversa passou por um dos assuntos mais comentados atualmente: o Ozempic. Anelise explicou que o medicamento, cujo princípio ativo é a semaglutida, age em um hormônio intestinal chamado GLP-1, que aumenta a saciedade e desacelera o intestino. Ela contou que o interesse por esse mecanismo surgiu quando se percebeu que pacientes diabéticos submetidos à cirurgia bariátrica melhoravam o controle da glicemia antes mesmo de perder muito peso.

Ela alertou, porém, para o uso indevido da medicação, que tem dose semanal mas é aplicada por algumas pessoas diariamente, sem orientação médica. “Tudo que é para perder peso se torna febre”, disse. Também relatou um caso grave de falsificação de canetas de Ozempic, em que o produto foi substituído por insulina, levando uma paciente a um quadro de hipoglicemia grave. Segundo ela, o tratamento correto exige acompanhamento de seis meses a um ano, com ajuste de doses, e não é indicado para quem quer perder poucos quilos, mas sim para quadros reais de obesidade.

Hormônios, testosterona e os perigos da automedicação

Outro alerta forte da entrevista foi sobre o uso indiscriminado de testosterona e outros hormônios com fins estéticos. Anelise explicou que, ao contrário da mulher, o homem mantém níveis relativamente estáveis de testosterona ao longo da vida, sem uma queda abrupta equivalente à menopausa. Segundo ela, exagerar na reposição hormonal pode causar problemas graves de coagulação, como trombose, infarto, AVC e até infertilidade, já que o excesso de testosterona externa bloqueia a produção natural de espermatozoides.

Ela também comentou a proibição recente, pela Anvisa, dos chamados “chips da beleza”, que continham derivados de testosterona e eram vendidos com promessas de melhora estética e de libido sem qualquer investigação médica prévia. “Foi proibido agora, não se pode mais comercializar”, contou, explicando que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e outras entidades participaram do pedido junto ao órgão regulador.

Osteoporose, gestação e a importância do acompanhamento multidisciplinar

A entrevista também passou pela osteoporose, mais comum em mulheres após a menopausa, e agravada por sedentarismo, deficiência de vitamina D e doenças da tireoide. Anelise explicou que o pico de massa óssea acontece por volta dos 30 anos, o que reforça a importância de hábitos saudáveis e exercícios resistidos desde cedo para reduzir riscos futuros de fraturas.

Sobre a gestação, ela detalhou que o diabetes gestacional pode surgir devido a hormônios da placenta, sendo mais comum em gestantes com excesso de peso, acima de 35 anos ou hipertensas. Segundo ela, o tratamento inicial é a dieta, mas quando não há controle adequado da glicemia, a insulina passa a ser necessária, já que é a única medicação liberada nesses casos.

Ao final da conversa, Anelise reforçou a importância de buscar avaliação médica antes de recorrer a hormônios ou suplementos por conta própria, e de entender a origem de qualquer alteração antes de tratá-la isoladamente. “A medicina precisa voltar a ser centrada no paciente, não no exame”, resumiu, destacando que muitas mudanças no corpo acontecem de forma lenta, quase imperceptível, até que o paciente perceba que aquele cansaço ou mal-estar já dura mais tempo do que imaginava.

Onde encontrar

Você encontra quem participou deste episódio no Instagram: @draanaelisarebeschini e @dradenisekonda.

Resumo do episódio

O episódio traz uma conversa com a médica endocrinologista Annelise Rabischini, que atua em Dracena desde 2010, sobre sua trajetória profissional e o funcionamento do sistema hormonal. Ela explica como glândulas como tireoide, hipófise e adrenais regulam praticamente todo o organismo, aborda os tipos de diabetes, os mecanismos da obesidade e o funcionamento de medicações como o Ozempic, além de alertar sobre riscos do uso indevido de hormônios como testosterona e do chip da beleza. A entrevista também trata de osteoporose, diabetes gestacional e da importância do acompanhamento médico multidisciplinar antes de qualquer intervenção hormonal.

Principais aprendizados

  • A obesidade é reconhecida pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e pela ABESO como doença crônica que precisa de tratamento, não apenas força de vontade.
  • Medicamentos como Ozempic agem no hormônio GLP-1, aumentando saciedade e desacelerando o intestino, mas exigem acompanhamento médico e não substituem mudança de hábitos.
  • O uso de testosterona acima do necessário pode causar trombose, infarto, AVC, câncer de fígado e infertilidade masculina.
  • O chip hormonal conhecido como chip da beleza foi proibido pela Anvisa por conter derivado de testosterona sem finalidade terapêutica comprovada.
  • A perda de massa óssea que leva à osteoporose pode ser prevenida com alimentação adequada, exercício resistido e suplementação orientada de vitamina D e cálcio, principalmente até os 30 anos de idade.

Perguntas respondidas neste episódio

Como funciona o Ozempic para emagrecimento?

O medicamento é uma semaglutida que age no hormônio GLP-1, produzido no intestino, atuando no centro da fome no cérebro e deixando o intestino mais lento, o que gera sensação de saciedade. Ele foi criado inicialmente para tratar diabetes e depois passou a ser usado também para obesidade. Seu uso precisa ser semanal, com acompanhamento médico, avaliação de efeitos colaterais gastrointestinais e ajuste de dose ao longo de meses, não sendo indicado apenas para perder poucos quilos.

O Ozempic tem efeitos colaterais?

Sim, os efeitos mais comuns são gastrointestinais, por isso é necessário avaliar antes se o paciente tem problemas de vesícula, intestino ou estômago, que podem piorar com o uso. Reações alérgicas graves são raras, podendo ocorrer irritação no local da aplicação. Também existe risco quando pessoas aplicam doses diárias em vez da dose semanal recomendada pelos estudos, o que pode aumentar a chance de complicações sem benefício comprovado adicional.

É perigoso usar testosterona sem indicação médica?

Sim, usar testosterona além da necessidade do organismo pode causar problemas graves de coagulação, como trombose, infarto, AVC e até câncer de fígado. Também bloqueia a produção natural de espermatozoides, podendo causar infertilidade masculina. Além disso, pode causar acne e pele oleosa. O nível hormonal considerado normal varia de pessoa para pessoa, então dosar um número alto na internet e querer aumentá-lo artificialmente não é seguro nem recomendado.

Existe alimento que regula problemas de tireoide?

Não existe um alimento específico que resolva problemas de tireoide, diferente do diabetes, em que se recomenda evitar açúcar livre. O que ajuda de forma geral é manter hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada, sono adequado e prática de exercícios, pois isso melhora o quadro de qualquer doença de forma indireta. Não existe também uma vitamina ou remédio isolado capaz de corrigir todos os desequilíbrios hormonais de uma pessoa.

Por que o chip da beleza foi proibido?

O chip foi proibido pela Anvisa porque contém um derivado de testosterona liberado aos poucos no organismo, funcionando como um anabolizante, mesmo sendo vendido com promessas de melhorar libido, pele e disposição. Esse uso descontrolado pode causar acne, oleosidade na pele e os mesmos riscos do excesso de testosterona, sem necessariamente trazer os benefícios anunciados, já que resultados estéticos também dependem de exercício e alimentação.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.