O AdamiCast #134 recebe o médico veterinário Fábio dos Santos Nogueira, mais conhecido como Dr. Leishmaniose — uma referência nacional no combate à leishmaniose visceral canina. De sua clínica em Andradina, ele atende a região de Dracena, Andradina, Tupi Paulista e Três Lagoas, onde a doença é endêmica e os casos não param de aparecer. No bate-papo, Fábio conta como virou o “Doutor Leishmaniose”, explica como o mosquito palha transmite a doença, quais os sintomas clássicos nos cães, e narrra a história da droga liberada em 2016 que finalmente deu aos tutores a opção do tratamento — em vez da eutanásia, que era a única alternativa desde 1963.
Quem é Dr. Leishmaniose — o veterinário que virou referência nacional
Fábio é paulistano de origem, se formou em medicina veterinária e foi pra São Paulo trabalhar como estagiário em uma clínica de referência nacional — um dos principais livros de medicina veterinária do país tem um capítulo escrito por ele sobre leishmaniose. “Eu comecei em São Paulo com medo da profissão. Aí o casal dono da clínica me confiou a clínica quando saíram pra dar uma palestra. Fiquei lá 9 anos e deslanchei”. Quando casou com uma cardiologista de Andradina, voltou pra região e começou do zero — sem raio-x, sem os recursos que tinha em São Paulo, com a missão declarada de não parar de estudar. Fez mestrado e doutorado na UNESP de Botucatu — “minha filha nasceu durante o mestrado, meu filho durante o doutorado, por isso chamo os dois assim” —, somando mais de 7 anos de viagens de ida e volta pra Botucatu. Em paralelo, fez duas especializações em oftalmologia veterinária e está cursando nefrologia.
Em 2013, ganhou o prêmio de Veterinário do Ano em uma votação nacional de colegas. Foi o pesquisador-responsável pelo estudo clínico da droga de tratamento de leishmaniose liberada em 2016 pelo Ministério da Agricultura e da Saúde. Hoje, é membro do grupo BrasEish (Colégio Brasileiro de Leishmaniose) e participa de reuniões com os dois ministérios e com o conselho federal de medicina veterinária. “A gente bateu de frente com muita gente. Pra época, era uma coisa que ninguém imaginava, ninguém falava. Mas alguém tinha que estar na frente falando. Eu estava no lugar certo, na hora certa. Hoje fico feliz porque a gente conseguiu mudar uma realidade que estava desde 1963”.
A leishmaniose: como o mosquito palha transmite e por que a região de Dracena é uma das mais afetadas
A leishmaniose visceral é uma doença grave, potencialmente fatal, causada pelo protozoário Leishmania, e transmitida pela picada do mosquito-palha ( Lutzomyia longipalpis ). O mosquito pica um animal infectado (cachorro, principalmente, mas também pode ser cachorro-do-mato, gambá e outros mamíferos silvestres) e transmite o parasita ao picar outro animal ou uma pessoa. “Nós vamos supor que eu tenho um cachorrinho e ele está com leishmaniose. Se você não se cuidar, o mosquito pica nele, pica em você e a doença é sua também. A doença não é só do cachorro, é uma zoonose”. Em humanos, a leishmaniose visceral é conhecida como calazar e tem alta letalidade se não tratada.
Por isso a doença preocupa tão fortemente na região. “Aqui na nossa região — Dracena, Andradina, Tupi Paulista, Três Lagoas — o primeiro diagnóstico tem que ser leishmaniose. Descarta leishmaniose, aí sim a gente corre atrás do resto. Eu atendo de seis a oito casos por dia só de leishmaniose. É muito. Em Andradina, já se perderam uns 40 mil animais por causa dessa doença”. O calor, a mata atlântica remanescente e a presença do mosquito-palha criam o cenário ideal pra circulação do parasita. Quem mora ou visita a região precisa estar atento.
Os sintomas clássicos nos cães: orelha, cotovelo, unha e olho
Fábio explica que a leishmaniose tem sintomas clássicos que todo tutor de cão deveria conhecer, e que não são exatamente os mesmos do humano. “Eu falo pros meus alunos: vocês têm que aprender a leishmaniose. Eu olho pra um cachorro e chego perto. Tem aqueles clássicos: a ferida na ponta da orelha, a ferida no cotovelo que não cicatriza, a onicogrifose, que é o crescimento exagerado das unhas, atrofia muscular aqui na região da cabeça, caspa pelo corpo, processos inflamatórios nos olhos”. Não é regra — muitos cães são assintomáticos no início, e por isso mesmo o diagnóstico é tão difícil.
Em humanos, o calazar costuma se apresentar com febre de longa data, emagrecimento, fraqueza, palidez, aumento do fígado e do baço. “No humano é diferente, mas a doença é a mesma”. A importância de tratar o cachorro vai além da vida do animal: é também uma questão de saúde pública, porque o cachorro infectado é o principal reservatório urbano do parasita. “Hoje a gente fala: vamos matar o reservatório. O reservatório é o cachorro. Se você não cuida do cachorro, você não cuida da doença em humanos”.
O diagnóstico na prática: 15 tipos de exame, falso positivo, falso negativo
Não existe um único exame que dê a resposta definitiva. “Pra diagnóstico de leishmaniose, a gente tem pelo menos uns 15 tipos de exames. Uns com maior sensibilidade, outros com menor. Hoje a gente vê que o teste que era usado antigamente tinha uma baixa sensibilidade, tanto que não existe mais na rede pública. Eles mudaram tudo. Mas, infelizmente, muitos animais foram diagnosticados errado, o dono chorava porque não queria levar, e a criança levava embora e o cachorro voltava pra casa. E muitos desses cães não tinham a doença. É muito triste”. Por isso, em caso de teste positivo, Fábio recomenda repetir com outro método antes de decidir o que fazer com o animal.
E mesmo com o teste, existe a possibilidade de falso positivo e falso negativo, especialmente em cães sem sintomas. “Por isso é tão importante ter um veterinário de confiança que conheça o animal. O diagnóstico não é só o exame. É o exame mais a clínica, mais o histórico do animal, mais o exame físico, mais a epidemiologia da região. Quando você junta tudo, a chance de acertar é muito maior”.
A história da droga de 2016: quando o tratamento virou opção
De 1963 até 2016, a única política pública pra leishmaniose canina no Brasil era a eutanásia do animal diagnosticado. Fábio viveu isso de perto. “Era o seguinte: dava positivo, o CCZ ia na casa, levava o cachorro. A gente sofria muito. Eu falava: gente, esse animal não tem. Tinha diagnóstico errado, o tutor chorava, o animal ia embora. Eu bati de frente com muita gente. Mas alguém tinha que falar. Hoje a lei ainda fala em eutançasia, mas já existe a opção de tratamento e o tutor é quem decide”.
Em 2016, o Ministério da Agricultura e da Saúde liberou a primeira droga registrada pra tratamento de leishmaniose visceral canina. Fábio foi o pesquisador-responsável pelo estudo clínico que viabilizou o registro. “Quando você faz um estudo bem feito, com casuística grande, com grupo controle, com resultados publicados em periódico de impacto, você consegue convencer os régios públicos a mudar”. Hoje, a droga é a única aceita oficialmente pelo Ministério, e Fábio trabalha com outros fármacos complementares pra otimizar a resposta. “Eu tenho mais cinco pesquisas em andamento: dois fármacos novos, uma vacina também. Acredito que em uns três anos a vacina esteja no mercado. A coisa está prosperando pra um mundo mais saudável, com cura”.
Onde encontrar
O Dr. Fábio Nogueira atende clínica e pesquisa em Andradina, SP, com atuação em toda a região de Dracena, Andradina, Tupi Paulista e Três Lagoas. Para acompanhar o trabalho, casos clínicos e conteúdo educativo sobre leishmaniose, o perfil no Instagram é: @drleishmaniose. Para quem tem cachorro na região, a recomendação é direta: “qualquer alteração na orelha, no cotovelo, na unha, no olho, ou queda de pelo, vá ao veterinário e peça pra descartar leishmaniose primeiro. Aqui na região, ela é a principal suspeita até que se prove o contrário”.
Resumo do episódio
O veterinário Fábio Nogueira, referência nacional em leishmaniose visceral canina, explica como o mosquito-palha transmite a doença em Dracena e região, quais são os sintomas clássicos nos cães como feridas na orelha e cotovelo, e conta a história da droga liberada em 2016 que permitiu o tratamento em vez da eutanásia obrigatória que vigorava desde 1963.
Principais aprendizados
- A leishmaniose visceral canina é transmitida pelo mosquito-palha e constitui zoonose, podendo infectar humanos quando o mosquito pica tanto o animal quanto a pessoa.
- Os sintomas clássicos em cães incluem feridas na ponta da orelha, feridas no cotovelo que não cicatrizam, crescimento exagerado das unhas, atrofia muscular e processos inflamatórios nos olhos.
- O diagnóstico de leishmaniose exige pelo menos 15 tipos diferentes de exames, com possibilidade de falso positivo e falso negativo, especialmente em cães sem sintomas.
- Até 2016, a única política pública para leishmaniose canina no Brasil era a eutanásia obrigatória do animal diagnosticado.
- O cachorro infectado é o principal reservatório urbano do parasita, tornando seu tratamento uma questão de saúde pública para prevenir a doença em humanos.
Perguntas respondidas neste episódio
Como o mosquito-palha transmite a leishmaniose?
O mosquito-palha pica um animal infectado, principalmente cão, e transmite o parasita Leishmania ao picar outro animal ou pessoa. A doença é uma zoonose, podendo infectar tanto animais quanto humanos através da picada do inseto.
Quais são os sintomas de leishmaniose em cães?
Os sintomas clássicos incluem feridas na ponta da orelha, feridas no cotovelo que não cicatrizam, crescimento exagerado das unhas, atrofia muscular na região da cabeça, caspa pelo corpo e processos inflamatórios nos olhos. Muitos cães são assintomáticos no início, dificultando o diagnóstico.
Como era o tratamento da leishmaniose canina antes de 2016?
De 1963 até 2016, a única política pública para leishmaniose canina no Brasil era a eutanásia obrigatória do animal diagnosticado. O centro de controle de zoonoses recolhia o cachorro na casa do tutor após resultado positivo.
O que mudou no tratamento de leishmaniose em 2016?
Em 2016, o Ministério da Agricultura e da Saúde liberou a primeira droga registrada para tratamento de leishmaniose visceral canina. Pela primeira vez, passou a existir opção de tratamento, permitindo que o tutor escolhesse entre eutanásia ou tratar o animal.
Por que é importante tratar o cachorro com leishmaniose?
O cachorro infectado é o principal reservatório urbano do parasita. Seu tratamento é fundamental para questões de saúde pública, pois reduz a circulação da doença em humanos na região.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.