Quando Elias Félix voltou de Londrina para Dracena, em 2015, ele não tinha um real no bolso, não tinha terminado o curso de barbeiro, e não tinha a menor idéia de que sete anos depois estaria dando cursos de prótese capilar pelo Brasil inteiro. Ao lado da esposa Jéssica Morotti Félix, ele construiu, com R$ 1.700 e muita teimosia, a Barbearia Sr. Elias e a Félix Prótese Capilar, dois negócios que começaram literalmente sobre caixotes de feira e a porta de um guarda-roupa. A história, contada no episódio #177 do AdamiCast, em dezembro de 2022, é a de um casal que começou sem nada e que só não chegou mais longe porque ainda está no meio do caminho.
Ao longo de mais de três horas de conversa, Elias e Jéssica mostraram que a diferença entre quem fecha a porta de um salão velho e quem transforma esse salão em uma referência regional é menos talento individual e mais uma combinação rara de consistência, esperança e parceria. Ele, que se descreve como bruto, criado sem filtro, e que nunca se imaginou mexendo na cabeça de um homem, foi puxado para o ofício pela esposa. Ela, que já era cabeleireira de trajetória consolidada, largou a zona de conforto para tocar a prótese junto com ele. Os dois perderam os pais cedo, ficaram sem rede de apoio, e decidiram que iam ser “um pelo outro” antes de qualquer outra coisa. Desse pacto veio o que eles chamam de instinto empreendedor: trabalhar das 7h à meia-noite, abrir aos domingos, abrir nos feriados, e ir dormir no salão quando a luz de casa era cortada para as crianças não tomarem banho gelado.
De Londrina a Dracena, do zero absoluto
Elias nunca tinha pensado em ser barbeiro. Antes da barbearia, ele “fez de tudo nessa vida”, e quando ele diz isso, é de tudo mesmo. Foi a insistência de Jéssica, em meio a um período em que tentaram outras coisas em Dracena sem resultado, que levou o casal a arrumar as malas e tentar a vida em Londrina, no Paraná. Lá, ele voltou a trabalhar em salão, Jéssica continuou na área da beleza, e em uma daquelas coincidências que parecem armação do roteiro, eles foram morar a duas quadras de uma unidade da Embeleze. Foi ela quem o empurrou para a matrícula, e foi no primeiro dia de aula que o professor olhou para as mãos do Elias e disse: “Investe, você tem futuro.” Ele voltou para casa, na mesma noite, achando que não era para ele. Mas o curso já estava pago.
A volta para Dracena veio em um momento em que a vida apertou de novo. Tinham ido para Londrina para tentar algo diferente, e voltaram quebrados, sem um real no bolso, com Elias ainda sem o curso terminado. Foi Jéssica quem tomou a decisão que mudou tudo: “Então a gente vai ter que montar a barbearia.” Elias relutou, disse que não tinha cliente, não tinha estrutura, não sabia nem onde começar. Jéssica, porém, já tinha visto o ponto na Avenida Expedicionários, do lado do Mercadão, onde durante anos funcionou uma barbearia tradicional. O prédio era deteriorado, sem banheiro, mas a passagem era boa e o aluguel era de R$ 400, sem fiador. “Vai ser aqui”, ela disse. Ele achou que ela tinha enlouquecido. Em menos de uma semana, estavam assinando o contrato.
R$ 1.700, uma porta de guarda-roupa e a meta dos três cortes por dia
O capital inicial era R$ 1.700. Com esse dinheiro, o casal comprou tinta, lixa, massa, uma máquina usada, uma tesoura que tinha sido presente da madrinha de Jéssica, e uma geladeira por R$ 200, que Jéssica envelopou para não destoar do resto. Os móveis da barbearia eram caixotes de feira. A bancada, dizem eles até hoje, foi feita com a porta do guarda-roupa da filha deles, cortada ao meio, lixada e pintada. As crianças, que tinham alergia à tinta, dormiam dentro do carro na frente do prédio enquanto os pais reformavam o salão até de madrugada, e a parte elétrica foi feita por um amigo, o Luiz Paulo, porque eles não sabiam mexer com fiação. “A casa começa do alicerce”, diz Elias, repetindo o que o pai dele costumava dizer.
A meta de sobrevivência dos primeiros meses era uma aritmética simples: cortar três cabelos por dia dava para pagar mercado, água e luz; cinco cortes já permitia respirar. No início, nenhum dos clientes antigos do salão anterior apareceu, porque aquele era um senhor que já tinha fechado, e o público novo estranhava a mistura de barbearia, sinuca e cervejinha. O casal trabalhou das 7h da manhã à meia-noite, inclusive aos domingos e feriados, e quando o dinheiro da barbearia começou a entrar, Jéssica abriu o salão de beleza retrô ao lado, o primeiro da região a apostar no estilo moderno. Em paralelo, chegaram a montar uma loja de roupas, que mais tarde se tornaria um problema, mas na época era parte do mesmo instinto de fazer render cada centavo que entrava. É nesse momento que Elias começa a dizer a frase que Jéssica gosta de repetir: ele agarrou o negócio, e ela cuidou para que ele não se perdesse no caminho.
A chuva de pedra, a pandemia e o curso de R$ 20 mil
Em 2017, uma chuva de pedra arrancou parte do telhado e encharcou os dois prédios, o da barbearia e o do salão de Jéssica. A vizinha chegou a pedir que eles saíssem do prédio, tão ruins eram as condições. Reformaram de novo, quebraram paredes, colocaram sinuca, melhoraram o ambiente. Em uma chuva posterior, o vento levou o resto do telhado, em uma cena que Elias conta dando risada: ele estava deitado cortando o cabelo do Frei Claud, e o Frei foi o único dentro do salão que não se molhou. Não deu mais para ficar, e o casal mudou para o prédio em frente, o que parecia um risco enorme, porque o ponto antigo tinha sido conquistado com suor. Mas foi o próximo passo, e funcionou. Até a pandemia chegar.
Em março de 2020, com três negócios rodando ao mesmo tempo, a barbearia, o salão e a loja de roupas, o casal teve de fechar tudo de uma vez. Trabalharam escondido por um tempo, abrindo a porta e olhando para os lados antes de deixar a cliente sair, com medo da fiscalização e do contágio. Foi nesse período que entrou em cena o que eles chamam de anjo da guarda profissional: o consultor Fernando Tino, que conheceram em uma palestra na Brinquedaria. Fernando não mandou o que fazer, fez o casal enxergar que três negócios sem foco estavam consumindo a barbearia. A decisão foi vender a loja de roupas, o que aconteceu em dois dias, pelo preço que Elias queria. Foi a virada operacional. Em paralelo, veio a oportunidade do curso de fabricação de prótese capilar, um mercado em que a matéria-prima chinesa e coreana tinha sumido por causa da pandemia, e o Brasil começava a aprender a fazer a própria. O curso custava entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Elias e Jéssica estavam endividados, sem férias, sem reserva. Pegaram o dinheiro emprestado e foram para São Paulo.
Da prótese brasileira à sala em Pinheiros: a virada que ninguém esperava
O primeiro curso de prótese foi um desastre. Elias conta que o instrutor “tremia”, o conteúdo não rendia, e durante o almoço ele chegou a pensar em devolver o dinheiro. Jéssica, como sempre, puxou para frente. No período da tarde, pediu para pegar a máquina, ouviu que se pegasse teria que terminar o curso, e simplesmente não largou. Voltaram para Dracena, trabalharam madrugada adentro durante semanas, choraram, e por pouco não fecharam. Até que Jéssica achou na internet outro curso, online, de R$ 4 mil, com um professor de Goiás que ensinava uma técnica muito melhor. Pagaram, aprenderam, e a partir daí o negócio engrenou de vez. No mês seguinte, o faturamento das próteses já era dez vezes maior que o do salão. Em três meses, compraram a casa própria, trocaram de carro, e pararam de pagar aluguel. “A prótese nos escolheu”, diz Jéssica.
Hoje, a Félix Prótese Capilar atende cerca de 80 a 90 clientes na região de Dracena, tem uma sala alugada em Pinheiros, na capital paulista, onde o casal vai uma vez por mês para atender clientes e dar aulas, e roda cursos pelo Brasil inteiro, com turmas recentes em Fortaleza, Goiás e Bahia, além de alunas no exterior. Elias dá aulas na Fundação Casa e tem cerca de dez ex-alunos que abriram barbearias em Dracena, e Jéssica é professora no Instituto, onde já passou por seis turmas de cabelo e maquiagem, e acompanha alunas que abriram o próprio salão. A prótese é fixa, não sai na água, pode ser usada para tomar banho, nadar, mergulhar, e a manutenção custa R$ 50 no casal, contra R$ 120 a R$ 220 no mercado. É um trabalho que devolve autoestima para pessoas com calvície, alopecia, pacientes oncológicos, quem perdeu cabelo na covid, e também para mulheres que querem um topete ou um moicano que não cresce naturalmente. O próximo passo, dizem eles, é usar a mídia para explicar às pessoas que prótese não é peruca, não é coisa de cidade pequena, e que qualquer um pode aprender a fabricar, inclusive quem cuida de filho em casa e precisa de uma renda extra. O lema continua o mesmo: carregar o povo junto, abrir a porta para quem quer aprender, e não tratar ninguém diferente por causa do que tem no bolso.
Onde encontrar
Elias Félix atende na Barbearia Sr. Elias, em Dracena, na região da Avenida Expedicionários, e viaja pelo Brasil para aplicar próteses capilares e ministrar cursos pela Félix Prótese Capilar. Jéssica Morotti Félix atende no salão ao lado, dá aulas no Instituto e é responsável pela presença digital do casal. Para acompanhar a rotina, os bastidores e os próximos cursos, siga a Barbearia Sr. Elias no @barbeariasrelias, a Félix Prótese Capilar no @felixprotesecapilar e a Jéssica no @jemorottifelix.
Resumo do episódio
Elias e Jéssica começaram a Barbearia Sr. Elias e a Félix Prótese Capilar com R$ 1.700, móveis de caixotes de feira e uma porta de guarda-roupa como bancada, sem clientes e sem estrutura. A trajetória de sete anos inclui enchentes, pandemia e mudanças de negócio, até a descoberta da prótese capilar levar ao faturamento dez vezes maior que o salão em um mês. Hoje eles atendem 80 a 90 clientes em Dracena, mantêm sala em Pinheiros e dão cursos em todo o Brasil, devolvendo autoestima para pessoas com calvície, alopecia e pacientes oncológicos.
Principais aprendizados
- A consistência e a parceria foram mais decisivas que talento individual para transformar um salão deteriorado em referência regional.
- Trabalhar das 7h à meia-noite, inclusive domingos e feriados, com meta inicial de três cortes por dia para cobrir mercado, água e luz, foi a aritmética de sobrevivência dos primeiros meses.
- O consultor Fernando Tino ajudou o casal a enxergar que três negócios simultâneos estavam consumindo a barbearia, levando à decisão de vender a loja de roupas em dois dias.
- O curso online de R$ 4 mil com técnica melhor foi decisivo após o primeiro curso de R$ 15 a R$ 20 mil render pouco, transformando o negócio da prótese.
- A prótese capilar fixa, que custa R$ 50 em manutenção contra R$ 120 a R$ 220 no mercado, atende calvície, alopecia, pacientes oncológicos e quem quer estilos como topete ou moicano.
Perguntas respondidas neste episódio
Como começar um negócio com pouco capital inicial?
O casal começou com R$ 1.700, comprando tinta, lixa, massa, uma máquina usada, uma tesoura e uma geladeira. Os móveis foram caixotes de feira e a bancada foi feita com a porta do guarda-roupa da filha, cortada ao meio, lixada e pintada. A sobrevivência inicial dependia de três cortes de cabelo por dia para pagar mercado, água e luz.
Quanto custa o curso de prótese capilar?
O primeiro curso custava entre R$ 15 mil e R$ 20 mil e renderem pouco. Depois encontraram um curso online melhor por R$ 4 mil, com um professor de Goiás que ensinava uma técnica muito mais eficiente, a partir do qual o negócio engrenou e o faturamento mensal das próteses ficou dez vezes maior que o do salão.
Qual é o valor da manutenção de prótese capilar?
A manutenção da prótese capilar custa R$ 50 no trabalho do casal, enquanto no mercado varia entre R$ 120 a R$ 220. A prótese é fixa, não sai na água, pode ser usada para tomar banho, nadar e mergulhar.
Para quem é indicada a prótese capilar?
A prótese capilar devolve autoestima para pessoas com calvície, alopecia, pacientes oncológicos e quem perdeu cabelo na covid. Também serve para mulheres que querem um topete ou um moicano que não cresce naturalmente.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.