Carol Bizi estava em 14º lugar numa lista de 12 vagas para engenharia de produção na UEM. Tinha tanta certeza de que a lista ia rodar que alugou apartamento em Maringá, fez a mudança, participou do trote e das festas dos bichos antes mesmo do resultado final. A lista rodou até o 13º. No episódio 472 do AdamiCast, ela contou como essa frustração foi o primeiro passo de um caminho que terminaria longe das salas de engenharia: hoje Carol vive de sobrancelhas em Dracena, com agenda fechada, produtos próprios e cursos com o nome dela. No meio do caminho tem um Clio trocado por uma obra, uma piscininha sacrificada, R$ 7.000 num curso decepcionante e dias de 26 clientes atendidas uma atrás da outra.
A menina que reparava na sobrancelha de todo mundo
Desde a escola, Carol reparava na sobrancelha das amigas. Quando alguém chegava com a sobrancelha tirada demais, ela notava na hora. A família por parte de pai sempre foi do ramo da beleza, com tias e tio donos de salão, então o ambiente era familiar. Mas existia um bloqueio: trabalhar com sobrancelha não era visto como profissão. “A gente tinha aquele conceito de que para ter sucesso na vida, você tem que ter uma faculdade.” Sobrancelha podia ser no máximo um hobby. Foi com essa cabeça que ela escolheu engenharia de produção, porque gostava de matemática e a produção parecia uma engenharia “mais de boa”, próxima da administração.
Mudou para Maringá antes de a lista rodar
No vestibular de meio de ano da UEM, Carol ficou em 14º lugar para 12 vagas. A coordenadora garantiu: “Você já está dentro, pode ficar tranquila.” Ansiosa como é, ela não esperou: arrumou apartamento dividido em Maringá, fez a mudança, foi ao trote, às festas, se enturmou com a sala. Só não assistia às aulas porque oficialmente ainda não podia. A lista rodou até o 13º lugar. Um a menos. A frustração foi grande, mas ela já estava instalada em Maringá com os pais pagando aluguel. Fez seis meses de cursinho e passou de vez no vestibular de fim de ano, em 7º lugar, sem depender de lista nenhuma.
Sobrancelha no sofá do apartamento, a R$ 20
A faculdade não conquistou Carol. Ela se sentia sozinha morando longe da família e não se identificava com o curso. O que crescia eram as sobrancelhas: nos intervalos da grade bagunçada pelas greves, ela corria pro apartamento para atender as colegas da engenharia. As primeiras clientes deitavam no sofá. Depois veio uma cadeira branca velha trazida de Dracena, com almofada atrás. Ela fazia sem curso nenhum, e as amigas avisavam: “Carol, você tem certeza?” Os elogios vieram, e com eles um curso de design de 4 horas, daqueles com paquímetro e henna, ferramentas que hoje ela detesta. “Nosso rosto não é simétrico. A gente nunca vai deixar um lado idêntico ao outro. Nem Deus conseguiu.” O certificado serviu para gerar confiança, e ela começou a cobrar R$ 20 por sobrancelha. Logo eram R$ 200, R$ 300 por mês e mensagens de desconhecidas pedindo horário.
Sexta a domingo atendendo em Dracena
Quando estranhas demais começaram a entrar no apartamento, Carol mudou a estratégia: passou a atender em Dracena nos fins de semana, no próprio quarto na casa da mãe. Saía de Maringá às 2 da tarde de sexta, chegava por volta das 5, e às 6h30 já estava atendendo. Sábado começava às 7 da manhã e ia até as 6 da tarde. Domingo, manhã inteira até a hora de pegar carona de volta. Daniel, namorado na época e hoje marido, buscava e devolvia. “Eu literalmente só vinha para trabalhar.” Em cidade pequena, a indicação fez o resto: a família foi primeiro, depois amigos de parentes, e a agenda de fim de semana lotou. No Instagram, ela postava tudo sem pensar muito, antes e depois, de manhã e de noite. Em Maringá, chegou a colar panfleto com logo feita no Canva no elevador do prédio e anunciar nos classificados da cidade. “Choveu gente do prédio me procurando.”
A greve, a pandemia e a decisão de largar a engenharia
Uma greve da UEM deu a Carol uma semana inteira em Dracena, e ela aproveitou o teste: a agenda lotou de segunda a sexta. Depois veio a pandemia, a faculdade parou e ela voltou de vez, atendendo de face shield. Quando as aulas viraram online, ela assistia pelo celular enquanto atendia, e as próprias clientes ajudavam respondendo a chamada: “Carol? Presente!” Até que caiu a ficha: “Eu estou me autossabotando. Não estou fazendo a faculdade direito nem trabalhando direito.” Faltando dois anos para se formar, decidiu largar a engenharia. Os pais quase a mataram. O acordo para eles aceitarem buscar a mudança em Maringá foi se transferir para administração EAD. Durou seis meses até ela perceber que era a mesma autossabotagem de antes. “Se eu precisar administrar meu negócio, é melhor trabalhar muito e contratar alguém do que fazer uma faculdade pela metade.” Largou as duas.
O Clio que virou salão
Com tudo apostado nas sobrancelhas, Carol trabalhou “como se não houvesse amanhã”: 12 a 14 horas por dia, atendimentos até as 9 da noite, até 26 clientes num único dia. Em seis meses a agenda estava cheia todos os dias. Veio então a vontade de ter um espaço próprio. Para construir no terreno dos pais, precisou convencer a mãe a sacrificar a piscininha do fundo. E para pagar o pedreiro, fez uma proposta inusitada: deu o Clio que o pai tinha lhe dado como parte do pagamento da obra. “Meu pai ficou bravo. Me desfiz da engenharia, me desfiz do carro. Eu queria muito viver de sobrancelha.” O projeto começou como uma salinha de 15 metros sem banheiro e terminou com uns 50 metros quadrados, recepção e banheiro, com o pai como diretor de obra. Tudo pago com dinheiro de sobrancelha, guardado centavo por centavo. Antes disso, a evolução já tinha seus marcos: da cadeira com almofada para uma maca quebrada da tia, consertada no tapeceiro por R$ 80 pagos pela mãe, até o dia emocionante em que comprou duas macas novas de três posições, uma para Dracena e outra para Maringá, por R$ 480 cada.
R$ 7.000 num curso que a decepcionou
Decidida a aprender nanopigmentação, Carol juntou R$ 7.000, sobrancelha por sobrancelha, e foi fazer o curso da profissional mais famosa do país na época, com todo o marketing do “mundo rosa”. A decepção veio rápido: 16 alunas numa sala com duas ou três professoras desconhecidas, funcionárias recém-chegadas, e a dona do curso apareceu só no segundo dia para um “oi, gente” rápido, sem nem a foto prometida do certificado. Pedro resumiu: “É como pagar pelo show da banda e chegar lá tocando o cover.” Carol saiu perdida, sem dominar a técnica, e teve que correr atrás sozinha: treinou em modelos, fez outro curso em São Paulo com uma profissional japonesa, mais um em Florianópolis, e desenvolveu técnica própria. Da experiência tirou também um princípio: nos cursos de design que dá hoje, ela mesma ministra tudo, pega na mão das alunas, monta grupo de suporte e entrega o máximo. “O que me frustraram, eu não quero entregar para as minhas alunas.”
O robô que quase destruiu a agenda
Com a procura explodindo e sem secretária, Carol contratou um robô de agendamento pelo WhatsApp. “Foi o maior desastre da minha vida.” Qualquer pessoa conseguia marcar horário sem compromisso nenhum, a agenda lotou de desconhecidas que às vezes nem apareciam, e as clientes fiéis de todo mês ficaram sem horário, empurrando atendimentos até as 10 da noite. A lição mudou o negócio: ela aposentou o robô, fechou a agenda de design para as clientes fixas e passou a tratar a recorrência como o coração do trabalho. “Design é recorrência. A cliente vai todos os meses. Se eu abrir vaga para todo mundo, falta horário para quem sempre vai.” Hoje os sábados ficam reservados para procedimentos longos, onde clientes novas conseguem entrar, e a semana segue com as fixas e os cursos.
Brow Up, fixador e a mania de pentear sobrancelha
Atendendo tantas falhas de sobrancelha, Carol sentiu a necessidade de algo além da nanopigmentação: pelos naturais. Criou o Brow Up, produto de crescimento usado no protocolo de reconstrução que ela conduz em cerca de três meses, aplicado de manhã e à noite. Funciona em sobrancelha, cílios e até barba e cabelo. Depois veio o fixador, braço direito da sua marca registrada: sobrancelha penteada todos os dias. “Uma sobrancelha penteada e fixa é uma sobrancelha volumosa.” As clientes confirmam o efeito do protocolo: “Parece que você põe a mão na minha sobrancelha e ela não para de crescer.” A regra de ouro é não cutucar em casa, disciplina que ela admite ter precisado “doutrinar” nas clientes. A inspiração rendeu frutos fora do salão: uma cliente tatuadora criou o próprio óleo pós-tatuagem depois de um empurrão da Carol.
De R$ 20 para cinco vezes mais
A sobrancelha que custava R$ 20 hoje custa cinco vezes mais, e Carol não se desculpa por isso. “Foi muito investimento, muito curso, muito tempo, muita técnica. Tempo também custa dinheiro.” A transição de preço foi gradual e acompanhada de posicionamento: ela mostrava no Instagram que trabalhava muito, que construiu o salão do zero e que tirou tudo do próprio trabalho. O conselho que ela deixa para quem está começando vale para qualquer área: dar valor ao próprio trabalho e ao trabalho do próximo. E ela desmonta um mito do ramo: não é a nanopigmentação que garante a liberdade financeira. “Eu consegui a liberdade financeira através do design. A nano foi complemento.” O design tem recorrência mensal; a nano, não.
Toda sobrancelha tem uma história
Antes de tocar na pinça, Carol conversa. Analisa a personalidade, o jeito de vestir, o tom de voz, o cabelo. “Quando a pessoa chega no meu salão, eu mais ou menos já consigo visualizar o que vai ser aquela sobrancelha.” É o visagismo aplicado: cada cliente carrega uma história, da sobrancelha tirada demais que destruiu a autoestima ao trauma que deixou alguém um ano sem fazer nada, passando por cicatrizes de infância e assimetrias que incomodam. O resultado, ela diz, é transformador: tem cliente que se emociona na frente do espelho. “Sobrancelha transforma uma autoestima fora do normal.” Homens, porém, ficam de fora da agenda, e não só por falta de horário: “Eles não aguentam. É ai, ai, para, para, tá doendo.” Pedro que o diga: foi levado de surpresa pela Mariana a um “compromisso” que era, na verdade, um horário marcado para tirar a sobrancelha dele.
A arquiteta de sobrancelhas
Carol queria arquitetura quando prestou vestibular. De certa forma, conseguiu. “Eu falo que sou arquiteta de sobrancelhas. Se eu queria assinar casas, virei de sobrancelha.” A assinatura dela está nos rostos da região, e o aprendizado que ela deixa é o do desequilíbrio consciente: “Para ter sucesso em algo, você tem que causar desequilíbrio. Eu abri mão de tudo lá atrás: não comprava nada, não viajava, não via família. Fez parte do processo e eu me orgulho disso.” Casada desde o ano passado, ela agora equilibra os pratos entre casa, família e trabalho, com a agenda fechada, os cursos de design e a cabeça de quem empreende: “Não desliga nunca. Uma hora vai chegar algo novo.” A família, que um dia quase a matou por largar a engenharia, hoje entende: o segredo não é o diploma, é empreender no que se ama.
Resumo do episódio
Carol Bizi abandonou a engenharia de produção para construir um negócio de design de sobrancelhas em Dracena, partindo de atendimentos no sofá do apartamento por R$ 20 até montar um salão próprio com agenda fechada, produtos registrados e cursos com seu nome. O caminho incluiu uma mudança radical de mentalidade sobre profissão, investimentos em formação contínua, decisões difíceis como vender o carro para construir o espaço, e o aprendizado de que a recorrência do design gera mais liberdade financeira que procedimentos únicos como nanopigmentação.
Principais aprendizados
- O bloqueio inicial de não reconhecer trabalho com beleza como profissão foi a maior barreira a vencer antes do sucesso.
- A recorrência mensal do design de sobrancelha gera mais liberdade financeira que procedimentos como nanopigmentação, que não têm frequência garantida.
- Automação sem critério de filtragem na agenda causou colapso, levando ao encerramento de buscas abertas e priorização de clientes fixas.
- Investir em formação contínua diferencia o serviço: cursos, treinos em modelos e desenvolvimento de técnica própria foram essenciais após decepção com curso de R$ 7.000.
- Para aumentar preço, é necessário comunicar claramente o investimento em técnica, tempo e infraestrutura através de presença consistente nas redes sociais.
Perguntas respondidas neste episódio
Como Carol começou a trabalhar com sobrancelhas sem experiência profissional?
Carol começou atendendo colegas de engenharia no sofá do apartamento em Maringá, depois numa cadeira velha trazida de Dracena. Fez um curso básico de design com paquímetro e henna, que serviu mais para gerar confiança do que pela qualidade do aprendizado. Os elogios das amigas e a necessidade de formalizar motivaram a cobrança de R$ 20 por sobrancelha.
Como Carol estruturou seu negócio saindo de atendimentos informais para agenda fechada?
Após o robô de agendamento sobrecarregar a agenda com clientes sem compromisso, ela encerrou buscas abertas e priorizou clientes fixas mensais para design. Sábados ficaram reservados para procedimentos longos com novos clientes, enquanto a semana segue com fixas e cursos. Design tem recorrência mensal, o que garantiu consistência de renda.
Quanto custa o design de sobrancelha que Carol oferece hoje?
A sobrancelha que custava R$ 20 nos primeiros atendimentos custa cinco vezes mais atualmente. O aumento foi gradual e acompanhado de comunicação sobre investimento em cursos, técnica e construção do salão do zero através de trabalho próprio.
Por que Carol criou o Brow Up e o fixador como produtos próprios?
Carol desenvolveu o Brow Up, um produto de crescimento para reconstruir sobrancelhas em protocolo de três meses, após perceber demanda além de nanopigmentação. O fixador surgiu da obsessão em manter sobrancelha penteada diariamente. Ambos os produtos reforçam a marca e complementam o protocolo de design oferecido no salão.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.