Tem profissões que começam por escolha e outras que começam por necessidade. A de Bel Valverde foi a segunda. Com 12 anos, depois de perder o pai, ela precisou trabalhar. Foi para um salão de cabeleireiro lavar cabelos. E ali, olhando para as manicures, sem cursos, sem internet, sem nada, foi aprendendo. Quarenta e dois anos depois, ela está estudando para se formar em podologia.
Bel foi convidada do episódio #473 do AdamiCast e contou uma história de resiliência, vínculos profundos com clientes e uma paixão que começou nas mãos dos outros antes de qualquer escolha consciente.
O começo que ninguém escolhe
Com a morte do pai, a família de Bel precisou se reorganizar. Ela tinha 12 anos e foi trabalhar num salão como ajudante, lavando cabelo. Caprichava em cada lavagem e logo as clientes pediam por ela especificamente. Daí surgiu a curiosidade: as manicures ganhavam mais, tinham suas próprias clientes. Bel começou a observar Azira, a manicure que mais admirava no salão. Aprendeu olhando, pedindo para lixar, para tirar esmalte. Não havia curso para isso naquela época. A Azira ainda amola os alicates dela até hoje.
Trabalhou 8 anos naquele salão. Depois foi ajudar no estabelecimento do então namorado. As clientes foram atrás. “Elas iam atrás de mim”, contou. Daí veio mais 8 anos ao lado da amiga Eliete, que montou um salão depois de uma conversa que Bel teve com ela enquanto fazia a sua unha. O número 8, brincou Bel, sempre aparece nos seus ciclos de mudança.
A virada: trabalhar de casa para ficar perto da filha
Quando a Maria Eduarda nasceu, Bel não teve coragem de voltar ao salão. Não era falta de trabalho, era falta de coragem de ficar longe da filha. Começou a atender no fundo de casa. A mãe sugeriu adaptar um quarto: tirar a janela, colocar uma porta. E foi ali, na Alameda Bélgica, que ela trabalhou por 13 anos seguidos.
Não cancelou nenhuma cliente por causa da bebê. Com 15 dias de nascida, Maria Eduarda já convivia com as visitas do ateliê. A filha cresceu rodeada de mães postiças: clientes que acompanharam cada fase. “Não posso dar bronca nela”, riu Bel. Todo mundo viu tudo.
O que 42 anos ensinam sobre o ofício
Bel foi autodidata por necessidade: não havia cursos quando começou. O primeiro que fez foi em 2018, em São Paulo, sobre esmaltação em gel. Não se adaptou. Em 2019, foi até Maringá fazer um curso de manicure tradicional, o que já sabia fazer. A professora perguntou o que ela havia ido fazer lá. Bel respondeu que queria saber se estava errando alguma coisa. Virou amizade que dura até hoje.
Sobre tendências, ela fala com tranquilidade. Já viu o nail art na água, o ímã, os alongamentos em gel, as cores virais que chegam com nomes impossíveis de lembrar. Ela cuida do natural, gosta de misturar esmaltes no meio do atendimento para criar tons novos. Conhece o nome de todos os esmaltes. E mantém clientes há 40 anos, algumas fazendo a mão duas vezes por semana.
Podologia: um novo mundo aos 54
Depois que Maria Eduarda terminou a faculdade, Bel se matriculou em podologia. Está cursando a graduação e já fez cerca de 12 especializações na área. O que a encantou não foi só a técnica: foi o impacto direto na vida das pessoas. Ela atendeu uma paciente que estava há 13 meses com unha encravada e inflamada, tinha ido ao médico várias vezes sem resultado. Em seis dias de tratamento correto, a dor sumiu.
Para ela, manicure cuida da autoestima. Podologia cuida da dor. São territórios diferentes, mas o cuidado com o outro é o mesmo. A formação vai até o final de 2027. Ela já tem uma amiga de Santa Catarina, enfermeira, com quem troca informações quase todo dia: uma ajuda com curativo, a outra ajuda com cutícula.
Empreender sem perceber que empreende
Bel falou de algo que pouca gente enxerga quando olha para uma manicure: a complexidade de gerir um negócio dentro de quatro paredes. Estoque de esmalte com giro, porque um pode secar antes de ser usado. Preço que precisa cobrir produto, tempo, energia física e mental. Clientes que chegam tensas e saem aliviadas. Vínculo que vai além do serviço. “A gente tá doando o nosso corpo, a nossa mente, o nosso tempo”, disse.
Ela passou por alergia a esmalte, a detergente, a acetona. Descobriu uma doença autoimune. Precisou trocar de removedor várias vezes. Ficou um ano sem usar esmalte para o corpo se recuperar. E voltou. Porque não sabe ficar sem fazer unhas de outras pessoas. A própria dela, curiosamente, ela nunca fez.
O desafio mais honesto em 42 anos
Quando perguntaram qual foi o maior desafio nesses 42 anos, Bel foi direta: saber se era isso mesmo que ela queria para a vida. Porque começou por necessidade, não por escolha. Mas o universo foi abrindo portas, as pessoas foram procurando, e ela foi dando o melhor que tinha. “O maior desafio diário é ter foco e persistência”, disse. E renovar. Porque quem não acompanha fica para trás.
Hoje ela ri quando lembra que estava fazendo anotações às 17h30 para não esquecer nada antes de vir ao podcast. Na hora, nem olhou o papelzinho.
Onde encontrar
Bel Valverde atua em Dracena (SP). Para agendamentos ou mais informações, siga o Instagram: @belcristin.
Resumo do episódio
Bel Valverde começou aos 12 anos a trabalhar em um salão após a morte do pai, aprendendo manicure observando outras profissionais sem qualquer formação estruturada. Depois de 42 anos na profissão, entre salões, atendimento em casa e construção de relacionamentos duradouros com clientes, ela se matriculou em podologia aos 54 anos, descobrindo como a técnica impacta diretamente a vida das pessoas. Sua trajetória revela a complexidade de empreender como manicure, as transformações pessoais do ofício e o desafio contínuo de manter foco e persistência numa carreira que começou por necessidade e virou vocação.
Principais aprendizados
- Observação prática foi o método de aprendizado na ausência de cursos e internet, permitindo domínio profundo do ofício sem formação acadêmica inicial.
- Vínculo emocional com clientes sustenta negócios de longa duração, com algumas mantendo relacionamento há 40 anos.
- Manicure é atividade que demanda gestão complexa de estoque, precificação e recuperação de problemas de saúde causados pela profissão.
- Mudanças de carreira podem ser motivadas por responsabilidades com filhos, como o trabalho de casa para acompanhar a maternidade.
- Formação contínua e acompanhamento de tendências são essenciais para não ficar obsoleto em profissões técnicas.
Perguntas respondidas neste episódio
Como começar na profissão de manicure sem experiência?
A observação prática é uma forma válida de aprendizado, acompanhando profissionais experientes, pedindo para participar de atividades como lixar unhas e remover esmalte. Esse método foi como a profissional iniciou, aprendendo sem cursos formais disponíveis na época.
Quanto tempo leva para construir clientela na manicure?
Clientes podem ser conquistados através de qualidade consistente e recomendação. Uma manicure dedicada que capricha no trabalho pode ganhar clientes específicos que a procuram novamente, e esse vínculo pode durar décadas, com pessoas visitando semanalmente.
É possível trabalhar como manicure em casa?
Sim, é viável adaptar um espaço doméstico com estrutura básica. Uma manicure pode trabalhar 13 anos de forma contínua em um quarto adaptado de casa, atendendo clientes regulares e construindo relacionamentos profissionais próximos à família.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.