#322

Da fuga ao talento: a historia de Arthur Tura | #322

05 de julho de 2024 • 6 min de leitura

Este texto vem do episódio #322 do AdamiCast

O convidado do episodio é Arthur Tura, cabeleireiro e maquiador que construiu, em poucos anos, uma trajetória marcada por tentativas de fugir do próprio talento até finalmente abraçá-lo. Natural da região de Dracena e Junqueirópolis, Arthur contou como um caminho cheio de idas e vindas, entre o comércio e a maquiagem, terminou virando um salão próprio, hoje mantido junto com o marido, Daniel.

O medo de ser um clichê

Arthur começou a trabalhar profissionalmente em 2019, mas antes disso passou anos resistindo à área da beleza. Ele contou que sempre teve talento para maquiagem, maquiando amigas para festas, mas evitava assumir isso como profissão. “Eu não queria ser um clichê, vamos dizer assim. Eu queria outro rumo”, disse, explicando que fez o primeiro ano da faculdade de Direito em Dracena justamente para seguir por outro caminho, longe do que ele associava ao estereótipo do “gay que faz maquiagem”. Ainda assim, era um aluno abaixo da média, sem qualquer brilho nos olhos para o curso. “Você não ia ser o primeiro”, brincaram os apresentadores, lembrando que a vocação insiste até ser aceita.

A virada começou numa festa junina em Dracena, quando um maquiador já conhecido na cidade elogiou o trabalho que Arthur tinha feito no rosto de uma amiga, sem saber quem tinha feito. Aquele reconhecimento funcionou como uma validação: “Se ele que tá na área tá dizendo pra ela que tá bom, eu posso, pelo menos, ganhar dinheiro com isso.” Foi esse empurrão que o fez alugar, no final de 2019, uma pequena sala ao lado da academia Aquafit, com apenas uma cadeira de cozinha e uma bancada de estudos improvisada como bancada de maquiagem.

Pandemia, comércio e a escola com Ana Maria

Assim que o pequeno negócio começou a engatinhar, a pandemia chegou e fechou tudo. A dona do espaço que ele sublocava não conseguiu manter o aluguel e encerrou as atividades. Foi nesse momento de desespero que Arthur conheceu a maquiadora Ana Maria Oliveira, que o convidou para ajudá-la nos atendimentos de noivas. “Foi aí que a escola começou pra mim”, contou, destacando que foi ali que teve acesso a produtos profissionais de verdade, depois de um período em que comprava itens de farmácia “baseado em stalkear o Instagram da cliente” para adivinhar tom de pele e cor de batom.

Durante a pandemia, sem eventos e festas, Arthur voltou a trabalhar no comércio, numa loja de roupas femininas, tentando conciliar os dois lados. Foi um período de rotina puxada, entre atender na loja até tarde da noite e correr para o salão nos fins de semana. Ele lembra do momento simbólico em que decidiu morar sozinho com o dinheiro do comércio, e não da maquiagem, como forma de buscar independência, ainda sem confiar totalmente na carreira de beleza como sustento.

A virada de chave e a saída do comércio

O verdadeiro divisor de águas aconteceu quando Arthur começou a fazer progressiva e botox, expandindo do universo da maquiagem para o dos cabelos, aprendendo tudo na prática, observando Ana Maria trabalhar. Foi essa nova frente que trouxe clientes fiéis de forma constante durante a semana, já que a progressiva exige retorno periódico. Em um mês de férias do emprego formal, tradicionalmente fraco para a área da beleza, ele decidiu se dedicar só ao salão e descobriu, ao final do mês, que tinha ganhado mais do que no comércio. “Eu consegui fazer mais e me desgastando menos”, contou. Foi esse teste que o convenceu a pedir demissão em março, decisão que hoje sustenta financeiramente sua casa.

Arthur também relatou sua relação de respeito e cautela com as técnicas químicas mais agressivas, como a progressiva com formol, que ele evitava por ser tóxica tanto para clientes quanto para profissionais. Migrou para técnicas sem formol numa época em que isso ainda era tratado como tabu entre cabeleireiros da região, que acreditavam que a técnica não funcionava em cabelos mais cacheados. Hoje, os vídeos de transformação capilar são os que mais repercutem em seu perfil.

O salão como um filho e a parceria com Daniel

Depois de passar por diferentes espaços sublocados, incluindo uma sala ao lado da antiga Coafit e depois perto do Isaac, Arthur abriu, em abril do ano anterior, o salão que considera “de verdade”, motivado pela necessidade de um ambiente maior e mais privado para atender noivas. Segundo ele, cada mudança aconteceu por crescimento, nunca por fracasso: “Tava dando tão certo que se tornou pequeno.”

Desde agosto, o marido Daniel trabalha com ele no salão, depois de deixar o emprego no comércio, onde já era muito querido e trouxe consigo boa parte da clientela. Arthur descreveu a parceria como um encontro de personalidades complementares: “Eu falo que o Daniel é a mãe que dá amor e carinho, e eu sou o pai que passa respeito.” A decisão de trazer o marido para dentro do negócio veio do medo de contratar alguém de fora e não conseguir estabelecer a mesma confiança, já que o salão é tratado por ele “como se fosse um filho”.

Autoaceitação e o peso do julgamento

Arthur também abriu espaço para falar sobre a relação com a própria identidade. Contou que, desde criança, sentia vergonha quando alguém descobria que era ele quem penteava o cabelo da irmã antes da igreja, por medo do julgamento associado a tudo que remetesse ao universo feminino. Para ele, a autoaceitação foi mais difícil do que se assumir para a família, que sempre foi tranquila em relação à sua sexualidade. A virada aconteceu na faculdade, quando percebeu que as pessoas em geral não estavam tão preocupadas com sua vida quanto ele imaginava.

Sobre preconceito no trabalho, Arthur afirmou não guardar nenhuma história marcante de discriminação, mesmo notando olhares diferentes por seu estilo mais expressivo, unhas pintadas, tatuagens, piercings e roupas que misturam moda masculina e feminina. Para ele, o momento de aceitação pessoal foi o que mudou a forma como encarava a opinião dos outros: “Depois que eu me assumi, as pessoas cagaram pra isso. Tô nem aí.”

Ao longo da conversa, Arthur também comentou sobre a dificuldade inicial de se comparar com profissionais mais experientes, como a própria Ana Maria, e sobre como aprendeu a produzir conteúdo pensando nas clientes, e não em validação de outros profissionais da área. Encerrando a entrevista, falou sobre a expansão da demanda do salão, hoje com agenda cheia até domingo, e mencionou, sem detalhar, que novos projetos estão a caminho.

Onde encontrar

Você encontra quem participou deste episódio no Instagram: @tura_salao.

Resumo do episódio

O episódio traz Arthur Tura, cabeleireiro e maquiador de Dracena, contando como saiu de empregos no comércio para se dedicar profissionalmente à beleza a partir de 2019. Ele relata o medo inicial de ser reduzido a um clichê por ser homem gay atuando com maquiagem, os desafios financeiros dos primeiros anos, a decisão de abandonar o CLT depois de comparar rendimentos em um mês de férias, e o crescimento do salão até incluir o marido, Daniel, como parceiro de trabalho. Também aborda a escolha por trabalhar apenas com progressiva sem formol, o medo de mexer com coloração e loiro, e reflexões sobre cópia de conteúdo e comparação profissional.

Principais aprendizados

  • Comparar o ganho de um mês de férias parado com o salário do comércio foi o que deu segurança para Arthur Tura sair do emprego CLT e viver só do salão.
  • A fidelização de clientes por meio de serviços de manutenção, como a progressiva, gera uma agenda sempre cheia ao longo do ano.
  • Tentar atuar em muitas frentes ao mesmo tempo, como maquiagem, progressiva, botox e coloração, pode impedir alcançar excelência em todas elas, por isso focar no que se tem mais afinidade traz melhores resultados.
  • Trabalhar com um familiar, como o marido, pode funcionar bem quando há separação clara entre os papéis de casa e de trabalho durante o expediente.
  • Buscar validação de outros profissionais em vez de focar nas próprias clientes pode fazer a pessoa se perder; o foco deve estar em quem realmente consome o serviço.

Perguntas respondidas neste episódio

Como saber se vale a pena sair de um emprego CLT para empreender na área da beleza?

Uma forma de decidir é comparar o quanto se ganha no negócio próprio com o salário fixo, mesmo em um mês considerado fraco. Ao tirar férias do comércio e se dedicar ao salão em janeiro, um mês parado para o setor de beleza, foi possível perceber que o rendimento superou o salário do comércio, mesmo este sendo bom e com comissão. Essa constatação prática foi o que deu segurança para deixar o emprego fixo.

Progressiva sem formol funciona em cabelo cacheado ou é só mito?

Existia um tabu local de que a progressiva sem formol não funcionaria em cabelos mais cacheados e que o efeito voltaria com o tempo, alegação feita até por outros cabeleireiros da região. Apesar disso, o profissional migrou da progressiva com formol, considerada torturante tanto para cliente quanto para quem aplica, para a versão sem formol, e conseguiu resultados nos vídeos que mais têm repercussão, justamente com clientes de cabelo bem cacheado.

Por que alguns cabeleireiros preferem não fazer coloração ou descoloração para loiro?

O receio está relacionado à responsabilidade de alterar a estrutura do cabelo e à dificuldade de controlar o resultado final, que não segue uma lógica exata como uma fórmula matemática. Existe ainda o peso da expectativa da cliente, que pode imaginar um resultado e não se sentir satisfeita mesmo quando o trabalho técnico foi bem executado. Por esses motivos, alguns profissionais preferem não atuar com esse serviço e focar em outras especialidades.

Vale a pena um cabeleireiro contratar um familiar para ajudar no salão?

Pode funcionar bem quando existe confiança e comprometimento, especialmente pelo medo de contratar alguém de fora que não tenha o mesmo empenho ou que possa abandonar o negócio depois de ganhar experiência. A convivência constante inicialmente parecia arriscada para a relação do casal, mas a separação entre os papéis de trabalho e de casa fez com que a parceria funcionasse bem, com a intimidade entre os dois beneficiando também o atendimento às clientes.

O que fazer quando alguém copia o conteúdo ou identidade visual do seu negócio?

Uma forma de lidar com isso é entender que ninguém copia ou se inspira em algo que considera ruim, o que pode ser visto como um sinal de que o trabalho está indo bem. Embora o incômodo inicial seja natural, especialmente quando a cópia é muito parecida, focar energia em melhorar o próprio trabalho em vez de confrontar quem copia tende a ser mais produtivo, já que o público que realmente acompanha percebe a diferença entre original e cópia.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.