Tem gente que cresce dizendo que quer ser médica, professora ou astronauta. Lia Junqueira Marçal, quando pequena, dizia que queria ser “examera”. Era a palavra que ela inventou para descrever o que o pai fazia: análises clínicas, exames, aquele mundo de vidrinhos e resultados que ela acompanhava de perto ainda criança. Hoje, farmacêutica bioquímica e à frente do Laboratório Trianon, ela transformou aquela palavra inventada em profissão e em história de família.
Neste episódio do AdamiCast, Lia conta como a curiosidade de infância virou uma carreira construída entre a formação de excelência em grandes centros e o desejo de voltar para o interior. É uma conversa sobre vontade de estudar, sobre o que aprendemos quando enfrentamos casos raros de perto e sobre como a vida, às vezes, nos traz de volta exatamente para onde dizemos que não queremos voltar.
De Tupã Paulista para o mundo, e de volta
Lia é de Tupã Paulista, mas a família tem raízes em Igarapava. Os pais se conheceram por lá, e o pai, farmacêutico bioquímico, veio para a região atrás de uma oportunidade no laboratório da Santa Casa de Tupã Paulista. Foi assim, no escuro, sem garantias, que a família se fixou no interior paulista e, mais tarde, fundou o Trianon, em 1996.
A casa sempre estimulou o estudo. A mãe é engenheira e se formou em São Paulo; o pai estudou em Juiz de Fora. Como na cidade não havia faculdade por perto, os pais incentivaram os filhos a sair, ver outros lugares, buscar formação longe de casa. Lia abraçou esse caminho: fez o terceiro ano em Ribeirão Preto e depois passou para a faculdade de farmácia, onde ficou cinco anos. A vontade, naquela época, era justamente fugir do interior.
O encontro com a bioquímica
Na faculdade, Lia descobriu que a química que tanto amava na escola cabia toda na primeira aula. Depois disso, era tudo novo e difícil. Foi quando, ao escolher uma habilitação entre indústria, alimentos e bioquímica, ela finalmente se encontrou. A parte de medicamento e venda nunca foi confortável para ela: dizia se sentir mal, como se estivesse vendendo algo a um paciente com dor. O laboratório era diferente. Ali ela fazia a análise, dava todas as indicações, e o diagnóstico ficava com o médico, que interpretava cada resultado.
Essa divisão de responsabilidades, para Lia, é o coração do trabalho. O médico pede os exames, o laboratório entrega resultados precisos, e o paciente recebe o cuidado de quem entende de cada etapa. Não é venda, é necessidade. Foi nessa lógica que ela construiu sua identidade profissional, longe do balcão e perto da bancada.
Aprimoramento no maior hospital da América Latina
Antes de assumir o laboratório da família, Lia sabia que precisava de bagagem. Passou em um aprimoramento, a chamada residência para não médicos, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Foram dois anos: no primeiro, passou por todas as áreas do laboratório; no segundo, escolheu se aprofundar em Hematologia.
Em um complexo hospitalar daquele porte, ela viu casos que dificilmente apareceriam em uma cidade do interior. Pacientes em quimioterapia, suspeitas de meningite, análises de líquor de todos os tipos. Foi lá também que conheceu quem viria a ser sua orientadora de doutorado. Para Lia, a riqueza não estava só na quantidade de casos, mas na diversidade: era a chance de aprender a reconhecer o que, fora dali, talvez aparecesse uma única vez na vida inteira.
A pandemia e o trabalho no escuro
Lia terminou o doutorado no fim de 2019 e planejava emendar com um pós doutorado. Veio a pandemia, e os planos mudaram. Ela ficou na região e não voltou mais para a rotina de ir e vir. Em casa, ironicamente, ela tinha voltado na hora certa: o mundo parou, e não havia lugar melhor para parar do que junto da família.
No laboratório, foram meses de incerteza. Os exames de rotina sumiram, sobraram as urgências e os testes de COVID. Lia lembra que, no começo, os testes rápidos de sangue eram pouco confiáveis, com reação cruzada com dengue e outras viroses, dando positivo para quem não tinha nada. Era trabalhar com as melhores ferramentas disponíveis em uma doença totalmente nova, sabendo que um exame normalmente leva anos para ser validado e aqueles haviam chegado em meses. Era, nas palavras dela, fazer ciência no escuro.
A cultura do cuidar e o futuro do laboratório
Uma das observações mais interessantes de Lia é sobre como a população passou a cuidar mais da própria saúde depois da pandemia. Exames que antes quase ninguém pedia, como a vitamina D, viraram rotina anual. As pessoas passaram a conhecer mais o próprio corpo, a fazer check ups, a se antecipar. Ela explica até por que o valor de referência da vitamina D foi ajustado no Brasil: nossa exposição ao sol é diferente da de um europeu, e a capacidade de absorção também.
Hoje, Lia equilibra a rotina de farmacêutica bioquímica com a maternidade de gêmeos, que nasceram prematuros e a quem ela chama de sua maior jornada. Entre exames, família e o legado de um laboratório fundado pelo pai, ela representa uma geração que saiu para se qualificar e escolheu voltar para construir no interior. A “examera” de infância virou referência regional, e o Trianon segue como parte da história de saúde da região.
Onde encontrar
A gravação aconteceu em Dracena, SP. Você encontra a Lia no Instagram em @liamarcal e o Laboratório Trianon em @laboratoriotrianon.
Resumo do episódio
Lia Junqueira Marçal, farmacêutica bioquímica à frente do Laboratório Trianon, conta como a brincadeira de infância de querer ser "examera" se transformou em carreira. O episódio aborda sua formação em grandes centros, a especialização em hematologia no Hospital das Clínicas da USP, os desafios de desenvolver testes de COVID com ferramentas ainda não validadas e como a pandemia a trouxe de volta para o interior de São Paulo, onde construiu uma referência regional em saúde.
Principais aprendizados
- A divisão de responsabilidades entre laboratório, médico e paciente é essencial para uma prática ética e segura na análise clínica.
- A experiência em centros de excelência com casos raros e complexos é fundamental para reconhecer diagnósticos que raramente aparecem em cidades pequenas.
- Testes validados normalmente levam anos para serem desenvolvidos, o que explica a incerteza ao usar ferramentas novas em tempo recorde durante crises.
- A população brasileira modificou seus hábitos de saúde preventiva após a pandemia, aumentando a demanda por exames de rotina como dosagem de vitamina D.
- O valor de referência da vitamina D foi ajustado no Brasil porque a exposição ao sol e a capacidade de absorção dos brasileiros diferem de populações europeias.
Perguntas respondidas neste episódio
Por que Lia escolheu a bioquímica em vez de outras habilitações em farmácia?
Na faculdade, ela descobriu que a química pura não era confortável para ela, especialmente a venda de medicamentos. A bioquímica se diferenciava porque o laboratório fazia a análise e fornecia resultados precisos, deixando o diagnóstico com o médico. Essa divisão de responsabilidades se tornou o coração de sua identidade profissional.
O que Lia aprendeu durante a residência no Hospital das Clínicas da USP?
Durante dois anos de residência para não médicos, ela passou por todas as áreas do laboratório no primeiro ano e se aprofundou em hematologia no segundo. O valor da experiência estava na diversidade de casos raros, como pacientes em quimioterapia e suspeitas de meningite, que raramente aparecem em cidades do interior.
Como era trabalhar com testes de COVID nos primeiros meses da pandemia?
No início, os testes rápidos de sangue eram pouco confiáveis, apresentando reação cruzada com dengue e outras viroses, resultando em falsos positivos. Lia descreveu a situação como fazer ciência no escuro: usar as melhores ferramentas disponíveis em uma doença totalmente nova, sabendo que exames normalmente levam anos para validação.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.