Algumas histórias de empreendedorismo começam com um plano elaborado, capital de giro e consultoria especializada. A história de Tânia Regina Ortega Scardovelli e Elaine Rosi Ortega Regiani começou de um jeito diferente: com uma prima que plantou uma ideia numa conversa, duas jovens que se olharam e disseram “é verdade”, e coragem suficiente para alugar uma casa na Rua Presidente Vargas com dinheiro suficiente para pagar, no máximo, uns meses de aluguel. Era 1991. A escola se chamaria Bela Infância, nome herdado da fábrica de brinquedos do pai das irmãs.
Hoje, mais de trinta anos depois, a Escola Bela Infância tem 31 funcionárias, sete turmas, dois prédios interligados e duas gerações de famílias que passaram por suas salas. Mas o que ficou no episódio #363 do AdamiCast não foi só a trajetória de crescimento, foi a conversa honesta sobre o que custou cada degrau dessa história.
Do nada ao pré com cinco alunos
Tânia e Elaine não tinham formação em pedagogia quando abriram a escola. Tinham experiência com roupas infantis vendidas de porta em porta, gosto por crianças e a memória de Tânia substituindo professores nas séries do ensino fundamental quando sobrava tempo. A prima enxergou nelas o que elas ainda não viam em si mesmas. O nome veio pronto da fábrica do pai, que doou também móveis e brinquedos para o primeiro espaço.
A primeira sala tinha cinco alunos do pré. Não havia funcionária de limpeza nos primeiros seis meses: elas limpavam, almoçavam, voltavam para receber a turma da tarde. Tânia ainda cursava a faculdade à noite, pegava o ônibus às cinco da tarde e chegava a dormir no banco de tanto cansaço. Elaine copiava as atividades da manhã para usar à tarde. O mimeógrafo era a única tecnologia disponível, e as atividades eram recortadas à mão nas férias, em casa, à noite.
Crescimento, construção e uma moto vendida
Após dois anos e quatro meses na Vargas, o espaço ficou pequeno. Em 1994 mudaram para uma casa maior, quatro vezes o tamanho anterior, com terra, árvores e espaço para crescer. Ficaram lá onze anos. Durante esse período a escola foi ampliando, contratando, e os maridos entravam na equipe de pintura e montagem toda vez que era preciso reformar. A professora Nancy foi a primeira contratada; depois chegou Teresa Murier, que ficou onze anos e faleceu recentemente. São figuras que as duas citam com emoção genuína.
O sonho do prédio próprio veio devagar: nove anos construindo enquanto funcionavam num aluguel. Elaine conhecia cada cano da obra. Tânia sonhava. Em determinado momento, para juntar dinheiro para a construção, Elaine vendeu a única moto que tinha. Mudaram para o prédio próprio em 16 de novembro de 2005, num feriado, e saíram de 85 para mais de 120 alunos quase que imediatamente.
O ensino fundamental que não deu certo, e o que ficou
Com o prédio novo, vieram novas ambições. Entre 2005 e 2006 compraram um lote ao lado e construíram uma segunda ala para abrigar o ensino fundamental. Juntaram documentação, percorreram a regional de ensino em Adamantina várias vezes. Mas a realidade chegou antes do sonho: cinco alunos, estrutura cara, e uma das cinco nem pagava, era sobrinha da família. Elaine foi a primeira a verbalizar o que o número dizia: não dava.
Tomaram a decisão antes que ficasse insustentável. Ligaram para a diretora de outra escola, explicaram a situação com transparência, transferiram as cinco crianças garantindo o mesmo método e o mesmo valor já pago pelas famílias. E voltaram para o que sabiam fazer bem: a educação infantil. Ampliaram para a casa da mãe das irmãs, que já estava desocupada, e ali instalaram as turmas dos menores, de um e dois anos.
O dia a dia com crianças pequenas
Uma das partes mais ricas do episódio foi justamente a que menos tem a ver com gestão: a conversa sobre o que é, de fato, cuidar de crianças de um a seis anos todos os dias. Tânia e Elaine falaram sobre alergias alimentares, sobre as famílias que viraram amigas, sobre os avós que vão à escola em julho fazer dobraduras ou escrever os nomes dos colegas em braille, sobre o momento da formatura que chega como um luto.
Há na escola uma funcionária, a Tia Grá, que entrou para fazer limpeza sem ter completado o ensino fundamental. As duas a incentivaram a estudar, promessa por promessa. Hoje ela tem sala própria. É uma das histórias que Tânia e Elaine contam com mais orgulho, como prova de que bom ambiente de trabalho não é slogan.
Sociedade entre irmãs: o que funciona e por quê
Pergunta obrigatória para quem trabalha em família. A resposta delas foi direta: funciona porque cada uma entendeu o que a outra faz bem, e não interfere. Elaine cuida do financeiro, da construção, da parte operacional. Tânia cuida do relacionamento com pais, professores e alunos, da parte pedagógica e das ideias novas. Elaine freeia, Tânia sonha. Tânia gasta, Elaine calcula.
Brigam, como irmãs brigam. Mas nenhuma mágoa dura. E os trinta e tantos anos de sociedade mostram que a divisão de papéis, quando respeitada, é mais forte do que qualquer contrato.
Onde encontrar
A Escola Bela Infância fica em Dracena, SP. Siga no Instagram: @belainfanciadracena, @tania_vanderlei.scardovelli e @elaine_ort.
Resumo do episódio
Tânia e Elaine iniciaram a Escola Bela Infância em 1991 com cinco alunos do pré, sem formação em pedagogia, e construíram o empreendimento ao longo de três décadas através de trabalho manual, reinvenção estratégica e divisão clara de responsabilidades. O episódio revela como duas irmãs transformaram coragem e persistência em uma instituição com 31 funcionárias, sete turmas e dois prédios, incluindo decisões difíceis como encerrar o ensino fundamental para focar no que faziam bem na educação infantil.
Principais aprendizados
- Empreendedorismo começa às vezes sem plano formal, apenas com coragem e um nome que funciona como identidade visual do negócio.
- Crescimento sustentável exige reconhecer quando uma expansão não dá certo e ter transparência para transferir clientes a concorrentes em vez de deixar ficar insustentável.
- Divisão clara de papéis entre sócios que são irmãs funciona quando cada uma respeita as forças da outra sem interferir nas decisões.
- Investimento em desenvolvimento dos funcionários, mesmo aqueles que entram sem qualificação inicial, cria ambiente de trabalho que é mais que slogan.
- A permanência de funcionários por longos períodos e o impacto emocional dos ciclos naturais da educação infantil são parte real do custo psicológico do negócio.
Perguntas respondidas neste episódio
Como começar uma escola infantil sem ter formação em pedagogia?
É possível começar com experiência prática com crianças, gosto genuíno e disposição para aprender. A primeira escola pode ter poucos alunos enquanto se constrói estrutura e conhecimento. Parcerias e ajuda de pessoas experientes são essenciais nos primeiros passos.
Como saber quando um serviço não está dando resultado e é hora de parar?
Observe os números: cinco alunos com estrutura cara e custos altos apontam insustentabilidade. O passo seguinte é ser transparente com os clientes sobre a situação, transferindo-os para outras instituições se necessário, em vez de deixar o negócio deteriorar.
Como dividir responsabilidades entre sócios que são irmãos?
A divisão funciona quando cada um entende as forças do outro e não interfere nas decisões. Um pode cuidar de financeiro e operação enquanto o outro cuida de relacionamento e pedagogia. Brigas acontecem, mas sem mágoa durável, e respeito aos papéis gera força para o negócio.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.