Quando o professor Guilherme Pedrini Bortolatto entrou na ABD de Dracena, em 1993, para a primeira aula de tênis da vida dele, o irmão mais velho, Vinícius, já era uma referência local. Vinícius foi 480 do ranking da ATP, viajou para 21 países jogando profissionalmente e, aos 21 anos, largou a carreira para fazer faculdade nos Estados Unidos, onde ficou onze anos. Guilherme podia ter seguido o mesmo caminho, mas fez a escolha oposta: aos 17 anos, pediu ao pai para apostar no irmão e disse que ele, Guilherme, iria estudar. Trinta anos depois do primeiro saque, ele é professor de tênis, professor de beach tennis, mestre em Ciência Animal pela UNESP, proprietário da Sunset Beach Club, em Dracena, e mantém um projeto social que já transformou meninos de baixa renda em professores de tênis. A história foi contada por ele no episódio #169 do AdamiCast, em novembro de 2022.
Ao longo de mais de duas horas de conversa, o Gui mostrou que o tênis, para ele, sempre foi menos sobre ganhar torneios e mais sobre abrir portas. E que a porta que ele mais gosta de abrir, hoje, é a dos meninos do projeto Govers, parte deles pela primeira vez no mar em outubro do mesmo ano, em uma viagem para os Jogos Abertos em São Sebastião. A Sunset Beach Club, o negócio mais recente, é uma espécie de síntese desse percurso, a tentativa de transformar o que ele aprendeu em trinta anos de quadras em um espaço de beach tennis que cabe família inteira.
Do tênis na ABD ao mestrado em Ciência Animal
Gui entrou na ABD de Dracena aos sete anos, com o professor Baiano e, depois, com o professor Leite, que se tornaria sócio e parceiro de carreira. A geração dele era forte: o irmão Vinícius era primeiro ou segundo do Brasil, ele próprio ficava sempre entre os dez do país, e junto com Fábio Silva, Ricardinho e outros a turma de Dracena fazia os adversários de Marília, Bauru e Rio Preto tremerem quando viam que havia tenista da cidade em campo. A escolha pela carreira acadêmica veio aos 17 anos, como uma espécie de pacto familiar. “Pai, aposta no Vinícius, deixa comigo que eu vou estudar.” Em 2002, entrou na faculdade de Educação Física da Unoeste, em Presidente Prudente, e passou a dar aulas em Dracena enquanto terminava a graduação.
A virada internacional aconteceu em 2008, quando ele foi para os Estados Unidos acompanhar a formatura do irmão na Winthrop University, na Carolina do Sul. O técnico da equipe de tênis da universidade, o brasileiro Cid Carvalho, viu os dois batendo bola e convidou Gui para ser assistente técnico do time feminino. Ele ficou quase um ano lá, em uma experiência que descreve como definitiva. A intenção era fazer o mestrado nos EUA em 2009, mas o falecimento do cunhado mudou os planos. Veio o mestrado no Brasil, em parceria com o professor Fábio Mingato da UNESP de Dracena, e o tema, contra todas as expectativas, foi Ciência Animal, com pesquisa em fisiopatologia, testando carnosina e beta-alanina em ratos que corriam em esteira. “Os meninos do laboratório me ensinaram tudo. Eu chegava nas reuniões e falava: Fábio, eu não tenho tempo de estudar. Ele perguntava: o que você faz da meia-noite às seis? Eu dormia, Fábio.” O mestrado virou retrato do método: cabeça nas costas, o tempo curto, e uma teimosia em terminar.
Projeto Govers: tênis como ferramenta social
O que Gui mais gosta de contar, e o que apareceu com mais força no episódio, é o projeto Govers, o programa social que ele coordena com o professor Leite e que já transformou a vida de pelo menos uma dúzia de meninos em Dracena. O projeto começou em 2018 com oito alunos, selecionados sem filtro de renda, e a função era dupla, dar formação competitiva para meninos que talvez não chegassem ao tênis de elite, e oferecer uma rotina de disciplina que eles não teriam em casa. Três dos oito primeiros viraram professores de tênis. Cauê foi para Araçatuba, Michael está em Sinop, Dudu dá aula na própria academia. “Se você sentar com eles e conversar, eles vão te dizer que se não fosse o tênis, eles nem sabem o que seriam.”
O projeto Govers também funciona como uma porta de saída para os Estados Unidos, modalidade que o tênis brasileiro conhece há décadas e que continua rendendo frutos em Dracena. Dos 14 tenistas da cidade que já foram para universidades americanas com bolsa integral, Gui acompanhou pessoalmente a maior parte. A rede começa com o irmão Vinícius, segue com Cid Carvalho, técnico na Winthrop, e chega ao técnico do time do Brasil de tênis, Jaime Oncins, com quem Gui fez quatro clínicas anuais em Orlando. Quando o técnico Jaime, que já foi oitavas de final de Roland Garros, liga para Gui perguntando do moleque novo, a porta está aberta. “O esporte abre portas. O cara vê o mundo, tira a família dele de um lugar e leva para um lugar que ninguém imaginava.”
A viagem a São Sebastião: a primeira vez no mar
O pico emocional do episódio foi a viagem que Gui organizou em outubro de 2022, com os meninos do projeto, para os Jogos Abertos em São Sebastião. A molecada se classificou nos Jogos Regionais de Dracena, na categoria até 21 anos, e o Gui conseguiu encaixar a ida ao litoral no mesmo roteiro. O detalhe é que, para os quatro meninos, Rafa, Pablo, João Paulo e Stefan, aquela era a primeira vez na praia. Nunca tinham visto o mar. “Os meninos ficaram doidos. Chegaram na água, o Stefan veio com um copinho plástico, ofereceu pro Rafinha, e era água do mar. O moleque tomou. O Ron, professor de futevôlei que foi com a gente, também nunca tinha visto o mar. Nós íamos pra Maresias, ondas altas, e os moleques tomando caldo de onda.”
A viagem teve todos os perrengues esperados de se levar moleque de interior para a praia pela primeira vez. Alojamento sem energia, sem cama, sem água quente. As quadras do torneio eram ruins e ficavam a 56 km da casa que eles alugaram, pela Rio Santos, com curvas cegas. A molecada perdeu de cara e foi eliminada, mas, como o Gui brinca no episódio, “pelo menos fomos pra praia”. O celular do professor Ron quebrou em uma noite, e a solução foi achar um vídeo no YouTube para desbloquear, feito com o professor de ténis que, na práctica, virou técnico de informática. São cenas de uma história que Gui trata como parte do mesmo projeto, porque a viagem, ele diz, muda a cabeça dos meninos mais do que o treino de qualquer semana.
Sunset Beach Club: o beach tennis como negócio de família
A Sunset Beach Club nasceu em 2022 em Dracena, a partir de uma conversa de praia com o irmão, o Vinícius, em que os dois viram, de longe, uma roda de beach tennis e ficaram curiosos. O beach tennis é um fenômeno mundial com berço na Itália e no Brasil, e a cidade de Dracena já tinha a cultura de areia, com futevôlei bem estruturado. Gui resolveu montar cinco quadras de areia, com a espinha de peixe, a brita, a manta geotêxtil e todo o trabalho de drenagem que a maioria das pessoas não vê, mas que, se não for feito, a primeira chuva estraga tudo. “Não é só chegar e colocar areia. O pessoal acha que é só chegar, e não é.”
A academia abriu com a ótica de ser um negócio familiar, com a gerente Valéria e o marido Douglas, o professor Dudu (que veio do projeto Govers), e os professores de futevôlei Léo e Ron. O beach tennis tem o appeal que o tênis tradicional perdeu nas novas gerações: jogo de 30 minutos, sem vantagem, um saque por ponto, raquete de baixo custo, e a predominância feminina, a academia Sunset já tem cerca de 70% de mulheres no público. “O cara vai pro clube jogar tênis e vai só o homem. No beach não. A mulher vai junto, o filho vai junto, vira família.” O torneio semanal, às sextas à noite, virou ponto de encontro da cidade e arredores, com times de Dracena, Junqueirópolis, Presidente Prudente, Andradina, Presidente Venceslau e Adamantina.
Onde encontrar
A Sunset Beach Club fica em Dracena, SP, com cinco quadras de areia e funcionamento de domingo a domingo, com aulas e aluguel de quadras. Gui Bortolatto também dá aula de tênis na ABD de Dracena e no Sítio Helena, em Junqueirópolis. O projeto Govers, voluntário, é mantido com doações e aceita novos alunos a partir dos seis anos. Para acompanhar a agenda, os torneios e a rotina da academia, siga o Instagram @sunsetbeachclubdracena_ e o pessoal do Gui em @guilherme.bortolatto.
Resumo do episódio
Guilherme Pedrini Bortolatto é professor de tênis e proprietário da Sunset Beach Club em Dracena, especialista em transformar o esporte em ferramenta de mobilidade social. Ao longo de trinta anos nas quadras, ele deixou a carreira competitiva para abrir portas para outros, especialmente meninos de baixa renda pelo projeto Govers, que já formou professores de tênis e enviou tenistas para universidades americanas com bolsa integral. A história inclui desde sua formação acadêmica com mestrado em Ciência Animal até a criação do negócio mais recente, um clube de beach tennis que se tornou ponto de encontro familiar na região.
Principais aprendizados
- O projeto Govers transformou meninos de baixa renda em professores de tênis, com três dos oito primeiros alunos seguindo carreira como docentes.
- Uma viagem aos Jogos Abertos em São Sebastião foi a primeira vez que quatro meninos do projeto viram o mar, mudando suas perspectivas mais do que semanas de treinamento.
- O beach tennis atrai público feminino predominante porque permite que famílias inteiras participem juntas, diferente do tênis tradicional.
- A construção de quadras de areia exige drenagem adequada com brita, manta geotêxtil e espinha de peixe, caso contrário a primeira chuva estraga tudo.
- O esporte abre portas para o mundo, permitindo que atletas saiam de cidades pequenas e levem suas famílias para lugares inimagináveis.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o projeto Govers?
O projeto começou em 2018 com oito alunos selecionados sem filtro de renda, oferecendo formação competitiva para meninos que talvez não chegassem ao tênis de elite e fornecendo rotina de disciplina. Três dos oito primeiros viraram professores de tênis, e o projeto também funciona como porta de saída para universidades americanas com bolsa integral.
Qual a diferença do beach tennis em relação ao tênis tradicional?
O beach tennis tem jogo de 30 minutos sem vantagem, um saque por ponto, raquete de baixo custo e predominância feminina. Diferente do tênis tradicional onde apenas o homem costuma ir ao clube, no beach tennis a mulher, o filho e toda a família participam juntos.
O que precisa ser feito para construir uma quadra de areia corretamente?
Uma quadra de areia requer espinha de peixe, brita, manta geotêxtil e todo o trabalho de drenagem necessário. Se a drenagem não for feita adequadamente, a primeira chuva estraga a quadra, portanto não é apenas questão de chegar e colocar areia.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.