#451

Saúde mental em tempos de excesso: a historia de Marcelo Froi | #451

04 de março de 2026 • 6 min de leitura

Este texto vem do episódio #451 do AdamiCast

O convidado do episódio 451 do AdamiCast foi o médico psiquiatra Marcelo Froi, que há vinte anos atua na área e hoje clinica em Dracena, cidade que escolheu por acaso, mas onde encontrou raízes e felicidade. Na conversa, ele trouxe um raio-x de como a saúde mental da sociedade tem se transformado nas últimas décadas, discutiu o papel das redes sociais e da inteligência artificial nesse cenário, e compartilhou histórias marcantes de sua trajetória profissional.

Uma sociedade cada vez mais ansiosa

Ao ser perguntado se a sociedade está mais doente emocionalmente, Marcelo foi direto: “muito”. Segundo ele, o período da pandemia intensificou um processo que já vinha se desenhando, e de lá para cá as coisas têm piorado. “A gente tem um nível de ansiedade, parece que um pouco mais alto. Mais casos de depressão”, afirmou, destacando que muitos desses quadros, quando não tratados a tempo, evoluem para transtornos mais graves, incluindo sociopatias e transtornos de humor mais difíceis de tratar.

Sobre as redes sociais, o psiquiatra reconheceu que elas influenciam tanto para o bem quanto para o mal, mas apontou um problema recorrente: a quantidade de soluções milagrosas que circulam por aí, muitas vezes vendidas por pessoas com boa oratória, mas sem o conteúdo correto. “A pessoa que tem uma oratória melhor, ela vende mais do que, necessariamente, aquela que tem mais informação”, observou. Ele também comentou como as redes criam narrativas de vidas perfeitas que servem de gatilho para o adoecimento de quem consome esse conteúdo, já que “ninguém posta boleto”.

Do desejo de infância à psiquiatria por acaso

A vontade de ser médico surgiu ainda na infância de Marcelo, quando ele tinha cinco anos e viu o sofrimento da mãe durante a cesárea do irmão caçula. Aquela cena o marcou e despertou o desejo de, de alguma forma, trabalhar ajudando pessoas. Mais tarde, a facilidade com biologia e ciências confirmou o caminho, embora a especialização em psiquiatria não estivesse nos planos iniciais. “Eu pensava em ser ortopedista quando eu saí da faculdade”, contou.

Foi a reprovação no primeiro ano de prova de residência que mudou seu rumo. Precisando trabalhar, fez uma pós-graduação em saúde mental por influência de uma amiga e, a partir daí, conseguiu um estágio e depois um contrato em um hospital psiquiátrico, onde diz ter aprendido mais intensamente. “Eu tinha facilidade de entender o que estava lendo. Tinha facilidade de conversar, de entender o paciente, de medicar de maneira correta. E as coisas foram encaixando, foi dando certo”, relembrou. Sobre vir para Dracena, também foi um caminho não planejado: a intenção era se estabelecer em Andradina, mas uma separação e a vontade de ficar perto do filho o trouxeram para a cidade, onde hoje se diz muito mais feliz.

Telas, crianças e o preço da pressa

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi sobre o uso de telas por crianças. Marcelo foi categórico ao afirmar que, tecnicamente, uma criança só está preparada para usar celular com segurança depois dos 10 anos de idade, e que o tempo de tela antes disso, incluindo televisão, deveria ficar limitado a poucos minutos por dia para não afetar o desenvolvimento cognitivo. “A culpa não é da criança, a culpa é de quem dá o celular”, disse, reconhecendo que a maioria dos pais não faz isso por mal, mas pela rotina exaustiva do dia a dia que leva a entregar a tela como forma de aliviar a demanda momentânea.

Ele relacionou esse cenário ao aumento de diagnósticos de TDAH, explicando que, embora hoje exista mais técnica para diagnosticar, os estímulos também são muito maiores, dificultando a concentração das pessoas de forma geral. “Eu ficava 16 horas sentado estudando quando eu estava na faculdade. Hoje não consegue”, comparou, apontando o excesso de notificações e informações como um fator que rouba constantemente a atenção.

Inteligência artificial, vícios e o peso da comparação

Sobre o uso crescente de inteligência artificial para consultas informais sobre saúde mental, Marcelo se mostrou cauteloso. Ele reconheceu que a ferramenta tem bastante técnica psicológica e sabe conduzir entrevistas de forma pertinente, mas alertou para uma limitação importante: a IA tende a concordar sempre com quem está falando, o que pode reforçar comportamentos que precisariam ser confrontados. “Ela é sempre enviesada a concordar com você”, pontuou.

Também comentou sobre o crescimento alarmante de casos ligados ao vício em jogos de apostas online, comparando o efeito no cérebro ao da cocaína. “O jogo desperta no cérebro a mesma sensação da cocaína. Ele tá ligado com o receptor de dopamina, então causa dependência muito rápido e o prazer é imediato”, explicou, destacando como pacientes chegam a perder valores altos sem conseguir parar. Ele estendeu a reflexão para o vício em pornografia, cujo acesso facilitado pelo celular tornou o consumo muito mais frequente do que em gerações anteriores.

Casos que marcaram uma trajetória

Ao ser perguntado sobre situações que o marcaram nesses vinte anos de profissão, Marcelo relembrou a perda de uma paciente adolescente por suicídio, ainda no início de sua atuação em consultório. Ela sofria com depressão grave e impulsos suicidas recorrentes, e apesar do acompanhamento, acabou tirando a própria vida. “Foi a minha primeira experiência assim, com esse tipo de situação”, contou, emocionado ao lembrar da jovem cheia de planos para o futuro.

Também recordou o caso de um amigo de infância que, aos 17 ou 18 anos, durante a faculdade, apresentou um quadro grave de esquizofrenia hebefrênica, sem que a família soubesse identificar os sinais a tempo. O reencontro entre os dois, anos depois, revelou um amigo que já não reconhecia mais ninguém, mergulhado em delírios e sem qualquer possibilidade de retorno ao convívio social. Sobre sinais de risco de suicídio, Marcelo foi enfático ao afirmar que, muitas vezes, a única forma de identificar é perguntar diretamente à pessoa, sem medo e sem julgamento, já que a dor de quem pensa em se matar costuma ser extremamente íntima e difícil de perceber de fora.

Encerrando a conversa, o psiquiatra destacou a importância de campanhas de conscientização como o Setembro Amarelo, que segundo ele evoluíram de abordagens superficiais para conteúdos mais fundamentados e realmente preventivos. Reconheceu ainda os limites de sua própria rotina, afirmando que não teria problema em buscar ajuda terapêutica caso sentisse necessidade, e valorizou hábitos simples, como a leitura e uma rotina bem estabelecida, como formas de cuidar da própria saúde mental em meio a uma profissão que exige escuta constante do sofrimento alheio.

Onde encontrar

Você encontra quem participou deste episódio no Instagram: @froio_marcelo.

Resumo do episódio

O episodio recebe o medico psiquiatra Marcelo Froio, que atua ha 20 anos na area e discute como a sociedade tem adoecido emocionalmente apos a pandemia, com aumento de ansiedade, depressao, burnout e vicios como jogo e pornografia. Ele explica como as redes sociais e o excesso de estimulos digitais afetam criancas, adolescentes e adultos, aborda o preconceito ainda existente em relacao a tratamento psiquiatrico, o papel do psicologo como primeiro passo antes do psiquiatra, e relata casos marcantes de sua carreira, incluindo perda de paciente por suicidio e um caso de esquizofrenia ebefrenica. O convidado tambem comenta sobre uso de inteligencia artificial em saude mental e diferencas entre geracoes.

Principais aprendizados

  • A ansiedade e a depressao aumentaram significativamente apos a pandemia de Covid e continuam em declinio emocional na sociedade.
  • Criancas so estao tecnicamente preparadas para usar celular com seguranca depois dos 10 anos de idade, com tempo de tela limitado a 1h40 por dia antes disso.
  • O vicio em jogos de aposta online ativa o mesmo sistema de dopamina que a cocaina, sendo considerado pelo entrevistado ainda mais grave que o vicio em alcool.
  • A inteligencia artificial usada para consultas de saude mental tende a ser enviesada a concordar com o usuario, o que pode nao ajudar em situacoes que exigem confronto.
  • Perguntar diretamente a uma pessoa se ela pensa em suicidio nao aumenta o risco e pode abrir caminho para buscar ajuda, sendo essa considerada a unica urgencia psiquiatrica real.

Perguntas respondidas neste episódio

Antes dos 10 anos, quanto tempo de tela uma crianca deveria ter por dia?

Segundo orientacoes citadas na conversa, o tempo de tela para criancas antes dos 10 anos, incluindo televisao, deveria ficar limitado a 1 hora e 40 minutos por dia. Esse limite existe para nao afetar o desenvolvimento cognitivo infantil. Passar desse tempo pode comprometer a formacao da crianca, e o problema nao esta na crianca em si, mas em quem disponibiliza o aparelho sem controle do conteudo e do tempo de uso.

Vale a pena consultar inteligencia artificial para questoes de saude mental?

A inteligencia artificial tem acesso a um conteudo vasto e consegue direcionar entrevistas com perguntas pertinentes, aproximando-se mais de uma abordagem psicologica do que psiquiatrica. Porem, ela apresenta um problema importante: tende a ser enviesada a concordar com quem esta conversando, nao contestando comportamentos ou decisoes erradas da pessoa. Por isso ela nao substitui o acompanhamento profissional, especialmente em casos que exigem confronto ou correcao de padroes repetitivos.

Como saber se alguem esta em risco de suicidio?

Nao ha sinais claros e facilmente identificaveis, principalmente para familiares, que tendem a idealizar quem amam e por isso tem dificuldade de perceber sinais de sofrimento profundo. A recomendacao e perguntar diretamente a pessoa se ela tem pensamentos ou intencao de tirar a propria vida. Se a pessoa tiver esses pensamentos, ela tende a responder com sinceridade quando questionada diretamente, permitindo buscar ajuda a tempo.

Qual e a demanda mais comum em consultas de psiquiatria atualmente?

Um dos casos mais frequentes atualmente e burnout, relacionado a sobrecarga das pessoas no dia a dia. Porem, o motivo mais comum de procura ainda e a ansiedade, que as pessoas nao conseguem controlar adequadamente. Muitos pacientes chegam ao psiquiatra depois de terem tentado tratamentos com clinico geral, cardiologista e gastroenterologista sem sucesso, percebendo posteriormente que o problema tinha origem emocional e nao fisica.

Existe ainda preconceito contra tratamento psiquiatrico?

Sim, o preconceito persiste, embora tenha diminuido apos a pandemia, quando as pessoas passaram a dar mais valor a saude mental. Muitos pacientes chegam ao consultorio contrariados, com resistencia ao tratamento, achando que vao ser considerados loucos, que a medicacao vai prejudicar sua vida ou capacidade sexual. Essa resistencia dificulta a melhora e pode aumentar efeitos colaterais da medicacao, sendo os homens apontados como mais preconceituosos que as mulheres em relacao a buscar ajuda.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.