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Neuropsicologia e autismo adulto: a história de José Luís Fuzer | #390

22 de abril de 2025 • 6 min de leitura

Este texto vem do episódio #390 do AdamiCast

José Luís Fuzer cresceu sabendo que gostava de cérebros, de pessoas, de entender o que acontece por dentro. Não era medicina o que o movia, não era a mesa de cirurgia. Era aquela zona fronteiça entre o comportamento humano e a neurociência que o atraía, sem que ele soubesse ainda nomear isso. Foi uma assistente social chamada Iracci, no primeiro PSF do Jardim Jussara em Dracena, quem enxergou nele o caminho antes mesmo de ele mesmo ver.

A partir dessa virada, José Luís iniciou o curso de Psicologia na Unifadra, em Dracena, antes de migrar para a FAEF em Garça, onde mergulhou de vez na área e se formou. Foi lá, entre professoras marcantes como a Dra. Janete, uma das primeiras alunas da primeira turma de Psicologia do Brasil, e colegas que se tornaram amigos de vida, que ele também descobriu algo sobre si mesmo: estava dentro do espectro autista.

O diagnóstico que ele não queria

A revelação veio durante a faculdade, por volta de 2015, no meio de um processo de psicoterapia que seus professores incentivavam para todos os alunos. José Luís negou. Saíu de um projeto de pesquisa sobre autismo na hora em que soube que havia pessoas autistas envolvidas. Levou quase oito anos sem contar para ninguém. O medo era o da rejeição, de ser tratado de forma diferente, de que os pacientes olhassem torto para um psicólogo que era ele mesmo autista.

A virada da aceitação veio quando ele voltou a Dracena, durante a pandemia. Seu pai adoeceu gravemente do coração. O estresse acumulado, as responsabilidades, o luto antecipado e a incerteza do que fazer após a formatura convergiram numa crise que ele conseguiu conter, mas que deixou claro que era hora de buscar o diagnóstico formal. Procurou uma psiquiatra, a Dra. Luísa Maltempo, e uma neuropsicóloga, a Dra. Marielle Guerra, ambas em Dracena. O laudo chegou, e com ele uma clareza que mudou tudo.

O espectro que ninguém via

Uma das grandes contribuições do episódio foi desmistificar o que é o Transtorno do Espectro Autista. José Luís explica que 85% das pessoas dentro do espectro passam completamente despercebidas no cotidiano. A imagem do autista em filmes antigos, cabeça baixa, rodando e batendo os pés, representa uma minoria. A maioria são pessoas que você encontra no supermercado, no trabalho, na família, sem saber.

O espectro, ele explica com cuidado, é exatamente isso: uma linha contínua. A antiga Síndrome de Asperger, por exemplo, foi absorvida pelo diagnóstico de autismo nível 1 no DSM, mas não deixou de existir na vida real. O cérebro atípico faz o mesmo trajeto que qualquer outro, mas costura um caminho diferente e gasta muito mais energia. Por isso vêm os colapsos, o burnout, a hipersensibilidade sensorial. Não é fraqueza. É neurologia.

Diagnóstico tardio e o adulto invisível

José Luís é contundente: o mercado do autismo foi construído para crianças. O adulto autista é invisibilizado, esperado para produzir e se virar. Faltam profissionais capazes de diagnosticar e acompanhar pessoas acima dos 18 anos. Ele decidiu fazer exatamente esse trabalho, focado em adultos, e já realizou mais de 40 diagnósticos entre atendimentos presenciais e online na região.

O diagnóstico mais recente que ele menciona foi de uma pessoa entre 71 e 73 anos, encaminhada com suspeita de demência. O que José Luís encontrou foi TDAH. Adultos chegam à clínica com queixas que parecem outros problemas, como dificuldade em se relacionar, em namorar, em manter vínculos, quando na verdade estão carregando uma neurodivergência não reconhecida a vida toda.

TDAH, bipolaridade e as comorbidades

O episódio aprofundou a diferença entre transtornos que frequentemente coexistem com o autismo. O TDAH, por exemplo, se manifesta de formas diferentes entre homens e mulheres: nos homens, mais física e motora; nas mulheres, predominantemente mental e ansiosa. Já a bipolaridade tem gradações, da ciclotimia, com oscilações breves mas persistentes de humor, ao transtorno tipo 1, com fases de mania intensa e depressão severa que podem gerar risco de suicídio.

A sobreposição de transtornos é a regra, não a exceção. José Luís menciona um caso em acompanhamento há mais de um mês onde ainda investiga se, além do autismo já confirmado, a pessoa tem bipolaridade ou borderline. O diagnóstico precisa de tempo, de vínculo, de método. Não é uma checklist.

Mulheres, mascaramento e os diagnósticos que nunca chegaram

As mulheres dentro do espectro são diagnosticadas muito mais tarde, e José Luís tem uma explicação bem fundamentada para isso. O comportamento social feminino é adaptativo por natureza, construído culturalmente para se encaixar, agradar, sustentar vínculos. Isso cria o que ele chama de masking: a criação de uma persona que esconde as características autistas de forma tão eficiente que até profissionais deixam passar.

Sua própria irmã, Gisele, é um exemplo. Ele, que conviveu com ela a vida toda, não percebeu. Foi uma psicóloga de fora, sem o viés da convivência, quem identificou. A família de José Luís carrega o espectro em várias gerações: o pai, metódico e com alta sensibilidade sensorial, encaixava no perfil Asperger; a tia Rosa, que começou a falar só aos 6 anos e que médicos da época chamavam de “atraso mental”, é autista. Hoje, com mais de 70 anos, ela recebe o reconhecimento que nunca teve.

Onde encontrar

José Luís Fuzer atende em Dracena, SP. Ele também lançou um e-book chamado “Como é ser um adulto no espectro”, disponível com preço simbólico. Você pode acompanhar o trabalho dele e acessar o material pelo Instagram: @joseluisfuzer.neuropsic.

Resumo do episódio

José Luís Fuzer, neuropsicólogo de Dracena, descobriu sua própria condição dentro do espectro autista durante a faculdade e transformou essa vivência em prática profissional focada em diagnósticos de adultos. O episódio desmistifica o autismo adulto, explicando como 85% das pessoas no espectro passam despercebidas, aborda as diferenças entre autismo, TDAH e bipolaridade, e revela por que mulheres são diagnosticadas muito mais tarde devido ao mascaramento social.

Principais aprendizados

  • 85% das pessoas autistas passam completamente despercebidas no cotidiano porque o espectro é uma linha contínua, não a imagem estereotipada de filmes antigos.
  • O cérebro atípico segue um trajeto diferente dos outros e gasta muito mais energia, causando colapsos, burnout e hipersensibilidade sensorial, que são manifestações neurológicas e não fraqueza.
  • O mercado do autismo foi construído para crianças, deixando adultos autistas invisibilizados e sem profissionais preparados para diagnóstico e acompanhamento acima dos 18 anos.
  • O TDAH se manifesta de formas diferentes entre gêneros: nos homens de forma mais física e motora, enquanto nas mulheres predomina o aspecto mental e ansioso.
  • Mulheres autistas são diagnosticadas muito mais tarde porque o comportamento social feminino adaptativo e culturalmente construído cria mascaramento que esconde características autistas de forma eficiente.

Perguntas respondidas neste episódio

O que é o Transtorno do Espectro Autista segundo a neuropsicologia?

O espectro autista é uma linha contínua de características neurológicas onde o cérebro atípico segue trajetos diferentes do padrão, gastando muito mais energia. Isso resulta em colapsos, burnout e hipersensibilidade sensorial como manifestações neurológicas, não comportamentais. A antiga Síndrome de Asperger foi absorvida pelo diagnóstico de autismo nível 1 no DSM.

Por que mulheres autistas são diagnosticadas mais tarde que homens?

O comportamento social feminino é construído culturalmente para se encaixar e agradar, criando um mascaramento eficiente que esconde características autistas. Isso faz até profissionais deixarem passar o diagnóstico, diferente de homens cuja apresentação é menos adaptativa socialmente.

Como o TDAH se apresenta diferente em homens e mulheres?

Nos homens, o TDAH se manifesta predominantemente de forma física e motora, enquanto nas mulheres predomina o aspecto mental e ansioso, causando diferentes percepções do mesmo transtorno.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.