Amauri Silva Costa nasceu em Panorama, cresceu dentro de um centro de recuperação de dependentes químicos e hoje, com 12 anos de formado, vive de clínica em Dracena. É psicólogo, mestre em análise do comportamento e atende crianças, adolescentes e adultos da região.
No episódio #498 do AdamiCast, ele senta com Pedro e Mariana para passar a psicologia a limpo. A ideia que atravessa a conversa inteira é simples e incomoda: todo comportamento, da ansiedade ao grito, passando pela bebida, já teve uma função na vida de quem o repete.
Do centro de recuperação à piscina
Amauri cresceu no Crisec, um centro de recuperação entre Panorama e Ouro Verde. Ali conviveu desde criança com dependentes químicos, e resume a vocação numa frase: “enquanto as pessoas viam como um andarilho, eu aprendi a ouvir essas pessoas desde cedo”. Na oitava série, antes do primeiro colegial, já sabia que queria psicologia.
Antes de virar psicólogo, foi nadador. Começou na travessia de Panorama, foi aos 14 anos para Andradina, no Andradina Tênis Clube, e depois para o alojamento de atletas em Presidente Prudente, em 2013 e 2014. A rotina era acordar às 4h e cumprir cerca de 20 km de água por dia. Aos 17 anos veio a escolha entre o treino e a faculdade, e a faculdade ganhou.
De volta a Dracena e o primeiro trabalho
A volta para Dracena teve motivo prático: a mãe dele é professora de Libras e Educação Especial na Fundec, e foi na Unifadra que ele cursou psicologia. Depois vieram a especialização em terapia cognitivo-comportamental, em 2015, e o mestrado em análise do comportamento, em São Paulo.
O primeiro emprego foi num serviço de acolhimento, o abrigo. Mais tarde, como secretário de Assistência Social em Panorama, abriu um abrigo regional em parceria com os municípios vizinhos, que segue funcionando até hoje. Hoje ele não faz mais nada fora da clínica: “eu vivo de clínica, só faço isso”.
Da escuta à evidência, e da evidência ao processo
Amauri descreve a psicologia como um guarda-chuva de abordagens. Contou o experimento da fila de espera, em que pacientes que aguardavam atendimento melhoravam tanto quanto os que já estavam em tratamento, o que levou a cobrar das terapias prova de que funcionam. Dali surgiram os protocolos baseados em evidência.
Depois de 2018, Stephen Hayes passou a questionar o próprio modelo: o ser humano não pode ser protocolado. Mandar respirar fundo vira paliativo se o contexto não muda. Na terapia baseada em processo, “a gente não olha mais pra um problema como um problema, a gente olha pro problema como uma função”. A cliente que grita com o marido, por exemplo, pode ter sido ouvida no passado só quando gritava. O mesmo vale para o álcool: tirar a bebida não basta se a pessoa não aprende a falar com o patrão.
Telas, ansiedade e a diferença entre depressão e tristeza
Para o psicólogo, o celular é uma busca constante de dopamina e, na prática, uma bomba de frustração. O cortisol que sobra aparece como insônia, miopia e postura ruim. Ele relata adolescentes que passam 14 horas por dia na tela e sofrem quando se fala em reduzir. Dica de insônia: o quarto é para dormir.
Sobre saúde mental, ele desmonta uma confusão comum: “depressão não se relaciona diretamente com a tristeza, depressão é apatia”. Tristeza faz parte dos sentimentos básicos, e oscilar entre sentimentos é normal. Depois da pandemia, o que mais atendeu foi TOC. Para explicar a ansiedade, recorre ao ratinho de Skinner, que rói a unha quando não sabe quando vem o reforçador, e conclui que o mundo moderno é ansiogênico.
Criar filhos: esforço, pergunta aberta e acordo de celular
Entre as orientações aos pais, Amauri recomenda corrigir com tristeza e não com raiva, para não entrar na culpa e amenizar a correção depois. Pede para elogiar o esforço e não a inteligência, citando a pesquisa dos anos 80 do quebra-cabeça com dois grupos de crianças. E sugere trocar o “como foi a escola?” por perguntas abertas, que não têm resposta objetiva.
Sobre o celular, o conselho é fazer um acordo antes de entregar o aparelho, para que a retirada não dependa de um pai “bruxo”. E sobre a criança de 3 anos que já sabe ler, que muitos pais contam com orgulho, a resposta dele é direta: “isso é péssimo”. O tempo de leitura precoce sai do tempo de brincar, onde se aprende habilidade social e resolução de problemas.
Autismo, interior e a geração que não precisa se esforçar
Amauri conta que foi o primeiro a aplicar ABA na região de Presidente Prudente e que a demanda era enorme. Cita uma estatística de 1 em cada 38 crianças com autismo, sem apontar fonte, e discute se há mais casos ou mais diagnóstico. Também afirma receber no consultório crianças que chegam com diagnóstico errado, em que o déficit social vem do excesso de tela, e por isso defende avaliação com profissional qualificado. Trabalhar no interior, diz, é difícil pela falta de estrutura multidisciplinar.
No fim, a conversa vai para a geração “mais frágil” e para o bullying, com Pedro defendendo o revide e Amauri ponderando entre resiliência e respeito. Ele fecha com o desafio do pai que tem condição: ensinar o filho a se esforçar pelo que ele não precisa.
Onde encontrar
Amauri Silva Costa atende em Dracena, SP, onde o episódio foi gravado. Para acompanhar o trabalho dele, o perfil é @amauriscosta no Instagram.
Resumo do episódio
Amauri Silva Costa é psicólogo clínico em Dracena, nascido em Panorama, mestre em análise do comportamento e com 12 anos de formado. Ele cresceu num centro de recuperação de dependentes químicos, foi nadador até os 17 anos e escolheu a psicologia ainda na oitava série. No episódio #498 do AdamiCast, explica como a psicologia saiu da escuta pura para a terapia baseada em evidência e agora para a terapia baseada em processo, em que todo comportamento problemático é entendido pela função que cumpre. A partir daí, trata de telas, ansiedade, diferença entre depressão e tristeza, autismo, criação de filhos e do desafio de ensinar esforço a quem não precisa.
Principais aprendizados
- Depressão não é tristeza, é apatia: sentir tristeza por um mês faz parte dos sentimentos básicos, e o quadro depressivo é a incapacidade de sentir até a alegria.
- O celular é uma busca constante de dopamina que acaba virando bomba de frustração, e a compensação do cérebro vem em forma de cortisol, insônia e miopia.
- Uma crise de ansiedade pode ter sido a saída de um trabalho insuportável: antes de atacar o sintoma, vale perguntar que função ele cumpriu na vida da pessoa.
- Elogiar o esforço e não a inteligência do filho, como no experimento do quebra-cabeça com dois grupos de crianças, é o caminho que o psicólogo recomenda.
- Antes de entregar o celular ao adolescente, faça um acordo: assim a retirada vem de um combinado e não de um pai que "toma o aparelho".
Perguntas respondidas neste episódio
Qual a diferença entre depressão e tristeza?
Segundo o psicólogo Amauri Silva Costa, depressão não se relaciona diretamente com tristeza: ela é apatia, a dificuldade de sentir prazer, inclusive de sentir alegria. A tristeza é um dos sentimentos básicos do ser humano e pode durar semanas depois de uma perda sem que isso seja, por si só, depressão. Ele defende que oscilar entre sentimentos é normal e que ficar triste por um tempo está dentro do esperado.
O que é terapia baseada em processos?
É uma abordagem em que o psicólogo deixa de aplicar o mesmo protocolo a todos e passa a investigar, na vida de cada pessoa, os fatores que mantêm o problema. Ela ganhou força depois de 2018, quando Stephen Hayes questionou o modelo de protocolos, e parte da ideia de que todo comportamento tem uma função. Por isso, técnicas como respirar fundo funcionam como paliativo quando o contexto que gera a ansiedade não muda.
Excesso de tela pode ser confundido com autismo?
Segundo o psicólogo Amauri Silva Costa, é comum receber no consultório crianças com diagnóstico errado, em que a dificuldade social vem do uso excessivo de telas. Ele cita adolescentes com 14 horas de tela por dia e explica que o celular cria uma busca constante de dopamina. Isso não substitui avaliação: a orientação é procurar um profissional qualificado para investigar cada caso.
Como Amauri Silva Costa escolheu a psicologia?
Amauri cresceu no Crisec, centro de recuperação de dependentes químicos entre Panorama e Ouro Verde, criado pela mãe e por um tio. Ouvindo aquelas pessoas desde cedo, decidiu na oitava série que seria psicólogo. Foi nadador até os 17 anos, quando precisou escolher entre o treino e a faculdade, e voltou a Dracena para cursar psicologia na Unifadra.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.