Vladimir Ferreira passou 19 anos como funcionário antes de abrir a Temper Box. Entrou na Vidroçul de Dracena como vidraceiro, cortando vidro na mão, e saiu como gerente de produção, depois de ter ajudado a instalar máquinas, treinar equipes e acompanhar as certificações do Inmetro em São Paulo. Quando finalmente tomou a decisão de empreender, em 2016, tinha R$ 15 mil de acerto, uma Saveiro Surf preta de 2004 e a esposa Renata como sócia. No episódio 437 do AdamiCast, Vladimir contou tudo: o medo de sair do CLT, as primeiras obras batidas de moto com panfleto na garupa, a virada para esquadrias de alumínio, os quatro prédios estourando ao mesmo tempo e os 32 quilos que perdeu no meio do caminho.
19 anos aprendendo tudo antes de arriscar
Vladimir entrou na Vidroçul de Dracena ainda jovem, vindo de Junqueirópolis, onde já trabalhava com vidro desde os 12 anos. Na empresa, começou cortando vidro manualmente, ia para obras instalar vidros comuns com massa e passava madrugadas trabalhando. Com o tempo, o dono foi comprando máquinas automatizadas e dando a Vladimir a oportunidade de aprender a operar cada uma delas. “Você errou o osso até aqui, agora vai comer o filé”, lembra ele das palavras do patrão na época da primeira mesa de corte automatizada.
Ao longo dos anos, passou de vidraceiro a encarregado, de encarregado a gerente. Acompanhou as certificações do Inmetro no Instituto Falcão Bauer em São Paulo, aprendeu sobre laudos técnicos, viu a empresa crescer e sempre guardou o desejo de ter o seu próprio negócio. Mas o salário fixo, a carteira assinada e o medo de não saber administrar seguraram a decisão por muito tempo. “Trabalhar eu sabia. Mas administrar uma empresa é totalmente diferente do que a gente pensa. Você só sabe se tem o dom fazendo.”
A decisão, o prédio grande e a sogra providencial
Antes de avisar o patrão, Vladimir já tinha alugado o galpão, aberto a empresa e acertado a fachada com o nome Temper Box. Só então foi conversar com o Amarildo. “Ele falou: você é doido, tá uma crise feia. Aí eu mostrei o local e ele disse: mas o barracão é muito grande para você começar.” Vladimir tinha uma resposta na cabeça: sonhar pequeno ou grande tem o mesmo preço. Com R$ 15 mil de acerto, aluguel de R$ 2 mil por mês e zero de cliente, os cálculos eram simples e assustadores. A conta que fez com a esposa: se vender um box de banheiro por dia, a R$ 450, paga o aluguel e sobrevive.
A ideia original era morar no fundo do galpão para economizar no aluguel da casa. A mãe de Renata, porém, não deixou. Ofereceu um quarto vazio na casa dela e o casal foi. A inauguração foi em janeiro de 2016, com a presença de colegas da Vidroçul, e na semana seguinte Vladimir já saía de moto pelas obras de Dracena se apresentando para pedreiros e mestres de obra, deixando panfleto em tijolo furado e esperando o telefone tocar.
A Saveiro Surf e o marketing que não foi planejado
O único bem que Vladimir tinha para colocar para trabalhar era a Saveiro Surf preta 2004, com rodão 17. Quando contratou o primeiro funcionário e precisou ceder o carro para as instalações, ficou sem transporte e passou a visitar obras de moto. O que ele não esperava era o efeito que o carro causava nas obras. Os pedreiros viam a Saveiro Surf brilhando e comentavam: “Rapaz, o patrão desse cara tá bem”. Vladimir estava lá na obra, ouvindo tudo em silêncio. “Se ele soubesse da minha situação, me ajudava mais.” Anos depois, entendeu: a Saveiro foi o seu maior marketing. Gerava credibilidade onde não havia histórico.
De sábado e domingo, Vladimir e Renata saíam de moto pelos municípios da região, ela na garupa, para deixar panfletos nas obras. Dracena, Junqueirópolis, Irapuru, Flórida Paulista. Onde via uma caçamba ou andaime, parava, colocava o material no tijolinho furado e seguia. Na semana seguinte, um ou dois ligavam pedindo orçamento. O segundo mês já foi melhor que o primeiro.
A virada para o alumínio e a briga com Presidente Prudente
O vidro temperado tem margens pequenas e você depende de terceiros para fabricar. Vladimir via os carros de empresas de Presidente Prudente chegando em Dracena cheios de esquadrias de alumínio, fechando as obras grandes que ele queria mas não conseguia atender. “Eu falava: vou furar esses pneus aí. Fazendo meu temperadinho e as casas grandes que eu ia, falavam: o projeto é alumínio, você faz? Não faço.”
Antes de comprar máquinas, fez uma parceria com a Colorado, empresa de Lins referência no setor, para fabricar e ele instalar. Com o negócio engrenando, foi buscar um curso no Rio de Janeiro com o professor Ricardo Câmera e voltou convicto: era hora de comprar as máquinas. Comprou equipamentos de uma empresa que havia investido mas não conseguido tocar, instalou no fundo do galpão atrás de uma divisória e começou a produzir. Ele mesmo admite que entendia pouco do processo. Mas foi aprendendo fazendo.
A estratégia para ganhar mercado foi simples e custosa: entrar com preço mais baixo para aparecer, construir referências e pedir autorização para levar novos clientes nas obras já concluídas. Aos poucos, as placas da Temper Box foram tomando as fachadas de Dracena. “As pessoas só viam placa da Temper Box pra cima e pra baixo. Os caras de Prudente começaram a vir ver as placas.” Algumas sumiam misteriosamente. Vladimir deixava passar.
O primeiro prédio de 25 andares e a loucura de quatro torres ao mesmo tempo
O sonho de atender prédios em Presidente Prudente demorou a se concretizar. Vladimir visitava construtoras repetidamente, não conseguia reunião, voltava pra casa desanimado. A virada veio pelo Amarildo, da Vidroçul, que conhecia os donos e colocou o nome dele em jogo com uma garantia pessoal. Vladimir pediu apenas um pequeno trabalho para se apresentar: a área de lazer de um prédio já vendido, o Onix, perto do shopping de Prudente.
Executou bem. O próximo orçamento foi de um prédio inteiro, 25 andares. “Eu não sabia nem contar os números e mandei o orçamento.” Na reunião com os engenheiros, estava tremendo. Fechou. Quando chegou o material, quatro caminhões truck de alumínio, Vladimir percebeu que o galpão era pequeno demais. Teve que alugar o espaço ao lado. E conciliar o prédio com todas as obras residenciais em andamento. “Eu me vi louco.” Trabalhou de noite, de sábado, contratou funcionários, alugou uma casa em Prudente para a equipe durante a semana. Em 10 anos, a Temper Box entregou 15 torres.
O momento mais pesado foi quando quatro prédios estouraram ao mesmo tempo para produção, junto com a carteira cheia de obras residenciais. Atrasou algumas obras menores, mas entregou os prédios. E saiu do episódio com uma clareza: precisava separar as fábricas. Uma linha para prédios, outra para residências. Para isso, comprou um terreno de 19 mil metros quadrados nos arredores de Dracena e está construindo o novo complexo, com 1.500 metros quadrados de área construída. A reinauguração dos 10 anos está marcada para 2026.
104 kg, uma balancinha e 32 quilos que sumiram
Enquanto a empresa crescia, Vladimir engordava. Chegou a 104 kg sem perceber. Sentava na garagem de casa na Avenida São Cristóvão e via as pessoas correndo. “Eu falava pra minha mulher: esse povo aí é doido.” Renata já treinava crossfit havia dois anos. Quando ela agendou uma consulta com o nutricionista João Neves sem avisar, Vladimir foi sem querer ir e ouviu: “Você está obeso.” Saiu da consulta falando que não ia conseguir seguir a dieta. Seguiu.
Em um ano, perdeu 32 quilos. De 104 foi para 72. Depois, com acompanhamento de nutrólogo para ganhar massa, voltou para 89. Contratou o personal Mateus, que está com eles há seis anos. Hoje acorda às 4h30 para correr, faz treino de força às 11h e não bebe refrigerante, suco nem bebida alcoólica. “Parei de roncar, bicho.” A saúde mudou a postura nas reuniões com clientes, a disposição nas obras e a forma de ver a empresa.
A mobilete, a Twister e o showroom que gera venda
No showroom da Temper Box, no centro de Dracena, tem uma mobilete brilhando em cima de uma plataforma iluminada. Vladimir comprou do Juninho da Madeireira. Aos 15 anos teve três mobiletes, nenhuma com documento, todas apreendidas pela polícia enquanto empinava na rua. A mobilete no showroom é mais que decoração: serve de gatilho para clientes que chegam tensos, lembram da infância, relaxam e o papo muda de tom. “Eu já vi cliente encher o olho na frente dela.” Ele não vende. “Enquanto eu tiver vivo, ela fica aí.”
A Twister preparada para wheeling ainda está guardada no rancho. O Chevete com motor de Astra ainda é um plano não executado, apesar da resistência da esposa. “Se eu vender, vou querer fazer outra. Então deixa guardado, que só de olhar já mata a vontade.”
Casal, empresa e a arte de saber separar
Renata cuida do financeiro com precisão milimétrica. “Uma vírgula, qualquer coisinha, ela pega.” Quando estavam começando e as contas apertavam, ela via os números o dia todo na loja e continuava vendo em casa à noite. Vladimir aprendeu a desligar ao chegar em casa, mas nem sempre funcionava. Com o tempo, e com a empresa organizada em setores e líderes definidos, o assunto de trabalho em casa virou exceção. “Hoje trato pouco em casa porque querendo ou não, casa é casa. Tem que ter o momento, a filha, curtir.”
A principal lição de trabalhar com a esposa: saber ouvir, não precisar ter razão e entender que duas cabeças pensando é difícil mas necessário. “Às vezes a gente briga achando que está falando de coisas diferentes e no fim é a mesma coisa com palavras diferentes.” A Renata estava grávida do segundo filho no dia da gravação e não pôde participar. Vladimir garantiu que ela vai ao próximo.
O conselho para o Vladimir de 10 anos atrás
Quando Mariana fez a pergunta final, Vladimir não hesitou. O conselho que daria para si mesmo ao abrir a empresa em 2016 era o mesmo que sustentou cada decisão ao longo da década: acreditar em si mesmo antes de dar ouvido a quem diz que não vai dar certo. “Família, amigos, todo mundo fala: é mais um que vai quebrar. Quando chego perto de pessoas assim, não fico, não discuto. Vou embora.” A crise, lembra ele, existe no Brasil desde sempre. “O dinheiro não para de girar. A gente tem que saber onde que tá girando e correr atrás.”
A Temper Box completa 10 anos em 2026 com 40 famílias dependendo diretamente, 15 torres entregues em Presidente Prudente, um complexo industrial próprio em construção e um showroom que tem mobilete iluminada, portas de quatro metros de altura em vidro temperado laminado e o casal que dormiu no galpão, bateu obra de moto aos sábados e nunca devolveu a chave da casa da sogra antes de estar pronto.
Resumo do episódio
Vladimir Ferreira passou 19 anos aprendendo tudo na Vidroçul antes de criar a Temper Box em 2016 com R$ 15 mil de acerto, uma Saveiro Surf e a esposa Renata como sócia. O episódio detalha como ele saiu de vidraceiro para gerente, enfrentou o medo do CLT, marcou presença em Dracena com panfletos de moto, transitou para esquadrias de alumínio, conquistou grandes prédios em Presidente Prudente e transformou perdas de peso e organização empresarial em alavancas de crescimento, chegando a 10 anos de operação com 15 torres entregues e complexo industrial próprio em construção.
Principais aprendizados
- Trabalhar como funcionário é diferente de administrar empresa, e só se descobre o dom fazendo na prática.
- O patrimônio visível, como a Saveiro Surf preta, gera credibilidade e marketing involuntário mesmo sem histórico de sucesso.
- Transição de um produto de baixa margem para outro com maior potencial exigiu parceria antes de investimento em máquinas próprias.
- Separação física de operações por tipo de cliente e segmento é necessária quando o crescimento causa conflito de prioridades.
- Disciplina em saúde pessoal impacta diretamente na capacidade de liderar, na disposição para obras e na forma de se relacionar com clientes.
Perguntas respondidas neste episódio
Como Vladimir começou na Temper Box com poucos recursos?
Entrou com R$ 15 mil de acerto, alugou um galpão por R$ 2 mil por mês e calculou a sobrevivência em um box de banheiro vendido por dia. A sogra ofereceu um quarto para reduzir custos. Saía de moto aos sábados e domingos com panfletos nas obras da região até ganhar os primeiros clientes.
Por que Vladimir migrou de vidro temperado para esquadrias de alumínio?
Via empresas de Presidente Prudente fechando as obras grandes que ele queria atender com alumínio. Fez curso no Rio de Janeiro com Ricardo Câmera, começou em parceria com a Colorado de Lins e depois comprou máquinas próprias para produzir esquadrias de alumínio no galpão.
Como a Saveiro Surf funcionou como marketing para a Temper Box?
Os pedreiros nas obras viam o carro brilhando e comentavam que o patrão estava bem, gerando credibilidade. Vladimir percebeu que o veículo transmitia segurança mesmo sem histórico de sucesso, e o mantém no showroom iluminado como gatilho para clientes relaxarem e mudarem o tom da conversa.
Como foi a experiência de trabalhar com a esposa Renata na empresa?
Renata cuidava do financeiro com precisão, enquanto Vladimir se dedicava às operações. A principal lição foi aprender a ouvir, não precisar ter razão e entender que duas cabeças pensando é difícil mas necessário, mesmo quando discordam sobre palavras para a mesma ideia.
Qual foi o maior desafio na gestão quando a Temper Box cresceu?
Quando quatro prédios estouraram ao mesmo tempo para produção junto com obras residenciais, o galpão ficou pequeno, foi preciso alugar espaço ao lado e uma casa em Prudente para a equipe. A solução foi investir em um terreno de 19 mil metros quadrados para separar as fábricas por tipo de cliente.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.