Renata Devoglio cresceu na cozinha da pousada do pai em Pauliceia, no interior paulista, indo ao mercado sozinha e cozinhando pra família antes de aprender a dirigir. Hoje, aos 28 anos, ela é a confeiteira por trás da Rê Cakes e assina bolos e aulas na região de Adamantina e Dracena.
A história veio tão enrolada que ela própria reconhece: passou por Direito, Nutção, virou a primeira nutricionista da Usina Caeté em Panorama e voltou pra casa pra tocar a pousada quando o pai fez cirurgia de coração. O atalho do bolo começou depois, com um curso em São Paulo, uma enchente inesquecível e muita paciência com brigadeiro borrachudo.
Pauliceia, cozinha da pousada e o sonho de gastronomia
Filha única de uma mãe que nunca curtiu fogão, Renata tomou conta da cozinha da pousada da família ainda criança. “Até hoje eu acho que eu sou adulta quando tó dentro do mercado”, brincou na conversa. Foi esse mesmo apego que fez ela recusar o sonho antigo de fazer faculdade de gastronomia: na época, em cidades como Campos do Jordão, era quase tão caro quanto medicina e exigia mudar pra capital.
O gosto por doces, porém, não veio de herança. Renata lembra que aos 16 anos estragou 12 latas de leite condensado tentando fazer brigadeiro com a amiga Carol; a própria avó desistiu de ensinar crochê e mandou: “você é tão burra pro crochê, vai fazer bolo mesmo”. O diagnóstico virou destino.
Direito, Nutrição e a Usina Caeté: o que cada lugar ensinou
Renata tentou Direito a pedido do pai, passou em tudo e fechou o primeiro ano com dignidade — mas voltou pra casa e avisou que não era aquilo. Em março seguinte ingressou em Nutrição, achou que ia desistir depois da primeira aula e acabou se formando. O diploma abriu a porta pra o primeiro emprego de carteira assinada, na Usina Caeté, em Panorama, que estava inaugurando.
Foi responsável pela cozinha 24 horas que servia marmitex pra cidade, pra usina e pra uma indústria. Aprendeu a gerenciar estoque, controlar higienização e rodar sistema sozinha, com 21, 22 anos. Durou seis meses no cargo e quase enlouqueceu — as cozinheiras ligavam às 3h da manhã avisando que a cebola tinha acabado. “Cozinha sem cebola, põe alho”, respondia. Mas não tinha pra onde correr comprar.
A volta pra casa, a cirurgia do pai e a virada para a confeitaria
Quando o pai, que era quem segurava a pousada, precisou fazer cirurgia de safena, Renata largou o emprego bem pago na usina pra voltar a Pauliceia. “Tá tudo pronto lá pra você”, disseram os irmãos. Ela confessa que achava que ia voar sozinha, mas o coração falou mais alto.
De volta, viveu um período em que cozinhar se confundia com o trabalho na pousada, até olhar pra carreira e decidir: “vou estudar uma coisa que eu não sei”. Não era carreira nova, era complemento. Veio a assinatura do primeiro curso em São Paulo e a certeza de que o caminho da confeitaria cabia dentro da vida que ela já tinha.
O curso de pasta americana em São Paulo (e a enchente)
A primeira viagem pra fazer curso técnico foi em 2012, até a região da Vila Mariana, pra um atelier de pasta americana. Renata, que nunca tinha andado de metrô, desceu numa estação em meio a uma enchente. Achou que fosse uma cena de filme, o marido gritava de um lado da rua, ela do outro, sem boto, sem jet ski de salvamento, só a esperança de a água baixar.
Voltou de São Paulo realizada e decidida: “agora eu vou ser boleira, vou fazer bolo em Pauliceia, vou acabar com tudo”. A pasta americana era pouca coisa no interior na época, foi o que a fez mudar de tática e ir pra chantilly. Fez cursos em Florida Paulista, em Presidente Prudente, testou em casa, e é onde mora a Rê Cakes hoje.
Rê Cakes: técnica prática pra quem mora no interior
Renata é confeiteira e professora. Antes da pandemia, mantinha turma e dava aula presencial, mas uma parte da rotina que ela destaca é didática: “eu ensino uma técnica prática, nada de enrolação ou como eu tô acostumada a tirar leite de pedra aqui no interior”. A frase é o resumo da marca.
A lógica é simples: se a aluna mora em cidade pequena, não acha caixinha de morango fácil, precisa pedir de viajante ou esperar chegar pela internet. Aula de uma semana com muita informação atolada não serve pra esse público. Renata prefere uma aula de um ou dois dias, com técnica clara, e promete que a aluna vai sair de lá sabendo fazer bolo. Profissionalizar é outra história e leva os dez anos que ela mesma leva construindo.
Hoje, ela está com 10 anos de confeitaria, admite que erra todo dia, refaz, atende aluna por WhatsApp no mesmo dia. A ciranda do brigadeiro borrachudo aos 16 anos virou aula, virou marca, virou a Rê Cakes.
Onde encontrar
A conversa foi gravada em Dracena, SP. Para acompanhar os bolos, as aulas e a agenda da Rê Cakes, siga a Renata no Instagram:
Resumo do episódio
Renata Devoglio cresceu na cozinha da pousada da família em Pauliceia e hoje, aos 28 anos, é confeiteira e professora pela marca Rê Cakes. Passou por Direito e Nutrição antes de retornar à cidade natal para cuidar da pousada durante a cirurgia do pai, quando decidiu se dedicar à confeitaria com cursos em São Paulo. Sua abordagem ensina técnicas práticas e acessíveis para quem vive em cidades pequenas, transformando brigadeiro borrachudo em negócio e conhecimento.
Principais aprendizados
- Recusar oportunidades caras longe de casa pode levar a caminhos alternativos igualmente viáveis, como aprender confeitaria em cursos regionais.
- Experiências fracassadas em outras carreiras fornecem habilidades transferíveis: a gestão de estoque e higiene da usina serve para qualquer cozinha.
- Mudanças de vida motivadas por responsabilidade familiar podem revelar vocações inesperadas e criar oportunidades de empreendimento.
- Ensinar técnica prática adaptada ao contexto local, sem complexidades desnecessárias, cria diferencial competitivo em mercados pequenos.
- Dez anos de prática contínua, com erros diários e ajustes, é o tempo real necessário para profissionalizar um ofício artesanal.
Perguntas respondidas neste episódio
Como começar na confeitaria sem ter feito gastronomia formal?
Um curso técnico em confeitaria, como pasta americana ou chantilly, pode ser o ponto de partida. Renata fez seu primeiro curso em São Paulo, depois buscou aprender em cidades próximas como Florida Paulista e Presidente Prudente. O importante é testar em casa e adaptar o aprendizado ao contexto onde você vai trabalhar.
Como oferecer aulas de confeitaria para quem mora em cidades pequenas?
O foco deve ser em técnica prática e clara, com duração curta de um ou dois dias, em vez de semanas cheias de informação. A estratégia reconhece que pessoas em cidades pequenas enfrentam dificuldades para conseguir ingredientes e precisam de conhecimento imediato aplicável, não de enrolação teórica.
Quanto tempo leva para profissionalizar a confeitaria como ofício?
Renata reconhece que profissionalizar é uma história diferente de aprender a fazer bolos. Ela própria levou dez anos construindo o conhecimento e admite que erra todo dia, refaz e continua aprendendo. O tempo inclui prática constante e ajustes contínuos.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.