Luciano Silva cresceu no sítio, filho caçula, apegado à mãe e ao mundo pequeno da roça, com galinhas, porquinhos e primos mais velhos como única companhia. A escola foi um choque, o ônibus cheio de estranhos era quase insuportável para um menino que raramente saía de casa. O que salvou tudo foi uma bola de futebol, uma chuteirinha vermelha do Palmeiras que o pai trouxe um dia, e a certeza de que existia um lugar para ele em alguma quadra ou campo.
Hoje, Luciano é personal trainer em Dracena com agenda lotada, fila de espera e alunos espalhados de Portugal à Suécia. A trajetória entre esses dois pontos tem desmaios na academia, anos treinando categorias de base de graça, um cargo de diretor de esportes na prefeitura que ensinou mais sobre burocracia do que sobre esporte, uma pandemia que quase fez tudo desmoronar e uma conversa com cervejas na calçada que mudou o rumo de tudo.
Do sítio à escolinha: o esporte como porta de entrada para o mundo
Nascido em 1994, Luciano passou os primeiros anos de vida entre a plantação de batata-doce e o bicho-da-seda, num ritmo onde o máximo de movimento social eram os primos adolescentes que mal o incluíam nas brincadeiras. Quando foi para a escola com seis anos, não queria ir, não queria ficar e não queria conhecer ninguém. Sua irmã, cinco anos mais velha, foi quem fez o papel de segunda mãe fora de casa, ajudando nas tarefas, defendendo o irmão caçula e garantindo que ele não desmoronasse naquele universo novo.
A virada veio aos oito ou nove anos, quando a família mudou para a cidade. Perto de casa havia um campo onde adultos jogavam futebol aos sábados. Luciano foi sozinho, ficou olhando, voltou para casa falando do pai, e três sábados depois era o filho quem tinha levado o pai para um clube, o Sabatista, que existe há mais de 60 anos e onde o pai joga até hoje. O menino que foi apresentado ao esporte pelo pai acabou apresentando o pai ao clube.
Futsal, tiro de guerra e a escolha pela Educação Física
O futebol virou futsal, e o futsal virou paixão maior do que o campo. Luciano gostava da dinâmica, da participação constante, do fato de que ninguém ficava quinze minutos sem tocar na bola. Jogou escolinhas de base com treinadores que marcaram sua formação, como o Marquinho César, que lhe ensinou a ser rigoroso dentro da quadra e próximo das pessoas fora dela. Em 2013, foi convocado para o tiro de guerra, serviu, fez amigos, não faltou nenhum dia, e entrou no mesmo ano na faculdade de Educação Física.
Nesse período, surgiu a oportunidade de dar aulas de futsal para crianças no Anglí, como bolsista. Cinquenta crianças de oito anos, pais observando do lado de fora, e Luciano sem nenhuma experiência de ensino. O primeiro mês foi um sufoco, o plano de aula rasgado pela realidade de quem quer chutar o cone em vez de driblar em volta dele. Mas foi ali que aprendeu a diferença entre saber fazer e saber ensinar, e foi também onde criou os primeiros vínculos profundos com alunos, os apelidos ridículos e as coca-colas na cantina que valem até hoje.
Prefeitura, pandemia e a conversa que mudou o rumo
Formado em 2016, Luciano trabalhou com futsal nas categorias de base da prefeitura, chegou a treinar uma equipe sub-18 de graça durante meses quando a licitação travou, porque acreditava no potencial dos meninos e não queria ver o último ano deles desperdiçado. Em 2018 veio o convite para ser diretor de esportes da gestão do professor Juliano, com a secretária Zoraide, que ele descreve como rígida e fundamental para sua formação profissional. Foi na prefeitura que aprendeu que cargo público é papel, burocracia e política, não o cheiro de grama e o apito no pescoço.
Em 2019, paralelo à direção de esportes, entrou como instrutor na Aquafit. Quando veio a pandemia em 2020 e a eleição mudou o governo municipal, Luciano se viu desempregado, morando sozinho, com um único aluno de personal. A virada veio numa noite de final de ano, sentado na calçada com Gustavo Xavier, três garrafas de cerveja e uma conversa franca sobre medo e plano B. Gustavo lhe deu horas na academia, o ajudou a engatar, e o resto veio.
Personal, gestantes e o público feminino
De 2021 em diante, a agenda foi crescendo. Luciano construiu uma especialidade discreta mas consistente com gestantes, acompanhando de perto três alunas que tiveram bebês em sequência no início de 2022 e sendo em muitos casos a primeira pessoa fora da família a saber da gravidez. Desenvolveu também uma atuação forte com atletas de performance, incluindo trabalho com esportistas de futsal, ciclismo e corrida, e expandiu para a consultoria online, hoje com alunos em Portugal, Espanha, Suécia, Rio de Janeiro e Florianópolis.
O público majoritário, porém, é feminino, e é sobre isso que Luciano fala com mais profundidade. Ele descreve as particularidades do ciclo menstrual no rendimento, a diferença entre o ego masculino que briga com o peso da barra e a insegurança feminina que subestima a própria força, e a necessidade de criar vínculos reais para que o treino funcione. Carrega na mochila uma lixa e uma xuxinha de cabelo, elogia esmalte toda semana para não perder o ritmo, e já aprendeu que de terça para quinta o estado emocional de uma aluna pode mudar completamente.
O básico bem feito: musculação, lesão e o búlgaro que ninguém gosta
Uma das convicções que Luciano repete ao longo da conversa é que a musculação é o esporte essencial, o que complementa todos os outros. Quem corre, joga futebol ou faz CrossFit precisa fortalecer, e quem acha que o corpo aguenta sem revisão está cometendo o mesmo erro de quem viaja toda semana sem ver o óleo do carro. A busca por estética é legítima, mas a estética deveria ser o troféu, a consequência de um trabalho feito com consistência.
O agachamento búlgaro, o exercício que seus alunos mais odeiam e que ele passa uma vez por semana sem negociação, é a metáfora perfeita para essa filosofia. Ninguém gosta, todo mundo reclama, e é exatamente por isso que faz diferença. A academia não é o lugar do diferente e do surpreendente, é o lugar onde o básico repetido com qualidade produz resultados que não existem de outro jeito. A dificuldade, conclui Luciano, nunca é começar. É voltar depois de parar. E depois manter o que se conquistou.
Onde encontrar
Luciano Silva atende em Dracena, SP, e também via consultoria online. Siga no Instagram: @luucianosilvaa
Resumo do episódio
Luciano Silva cresceu no sítio, tímido e arredio, mas encontrou no futebol a porta de entrada para o mundo. De personal trainer com agenda lotada em Dracena, atende alunos de Portugal à Suécia, tendo passado por futsal competitivo, direção de esportes na prefeitura e uma pandemia que quase o fez desistir. Sua trajetória revela como o esporte, a persistência após fracassos e conversas sinceras transformam vidas, especialmente ao trabalhar com gestantes e o público feminino, onde construiu especialidade discreta mas consistente.
Principais aprendizados
- O esporte funciona como ferramenta de integração social para pessoas tímidas ou isoladas, abrindo portas para novos mundos e vínculos profundos.
- A diferença entre saber fazer algo e saber ensinar se aprende na prática, com alunos reais que desafiam qualquer plano teórico.
- Trabalho público em cargo administrativo ensina mais sobre burocracia e política do que sobre a execução prática da profissão.
- O treino com mulheres exige compreensão do ciclo menstrual, construção de vínculos reais e reconhecimento de que insegurança feminina funciona diferente do ego masculino.
- A musculação é esporte complementar essencial para quem pratica qualquer outra atividade física, e consistência no básico bem feito produz resultados que não existem de outro jeito.
Perguntas respondidas neste episódio
Como o futsal diferencia-se do futebol como formação esportiva?
O futsal oferece dinâmica diferente porque a participação é constante, ninguém fica quinze minutos sem tocar na bola. Essa característica o torna mais atrativo para alguns e justifica por que virou paixão maior do que o campo para muitos praticantes.
Qual é a diferença entre saber fazer e saber ensinar um esporte?
Saber fazer não garante capacidade de ensinar. Ao trabalhar com cinquenta crianças de oito anos, o instrutor descobre que a realidade do aprendizado infantil rasgaria qualquer plano teórico, exigindo ajuste contínuo entre intenção pedagógica e comportamento dos alunos.
Como a musculação se relaciona com outras modalidades esportivas?
Musculação é esporte essencial que complementa todos os outros, incluindo corrida, futebol e CrossFit. Quem corre, joga ou pratica qualquer outra modalidade precisa fortalecer como quem viaja toda semana revisa o óleo do carro.
Qual é a importância de vínculos reais no treino com mulheres?
Para que o treino com mulheres funcione é necessário criar vínculos reais porque a insegurança feminina que subestima a própria força opera diferente do ego masculino. Esse vínculo permite compreensão das particularidades do ciclo menstrual no rendimento e melhor condução do processo.
Por que a consistência é mais importante que começar um treino?
A dificuldade real não está em começar, mas em voltar depois de parar e, depois, em manter o que se conquistou. O básico repetido com qualidade produz resultados que não existem de outro jeito, o que exige consistência contínua.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.