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Karatê, dança e força interior: a história de Silvana Garcia | #475

23 de junho de 2026 • 7 min de leitura

Este texto vem do episódio #475 do AdamiCast

Silvana Garcia chegou ao karatê pela porta de trás. Antes de vestir o kimono pela primeira vez, ela passou anos numa academia de dança, competindo em jazz e conquistando títulos no Mapa Cultural Paulista ao lado da professora Regina. O corpo sabia se mover, a disciplina estava plantada, mas faltava ainda o encontro com o esporte que mudaria tudo. Quando esse encontro finalmente aconteceu, foi num momento de baixa-estima e de recomeço, quase por acidente, numa tarde em que ela foi duas vezes até a porta da academia e voltou para casa sem entrar.

Hoje, aos 47 anos, Silvana é sensei de karatê, massoterapeuta e uma das atletas master mais respeitadas do estado do Mato Grosso do Sul. Ela já se classificou três vezes entre as três melhores do Brasil no kata, competiu no Campeonato Brasileiro em Fortaleza com o cotovelo machucado e nunca foi desclassificada por erro em toda a sua carreira. No AdamiCast #475, ela contou essa história com a calma que as artes marciais ensinam, mas com a intensidade de quem sabe o que custou cada faixa.

Da dança ao tatame

Silvana começou com a dança porque as costas doíam de tanto estudar. Tinha 15 anos, entrou numa turma de jazz e ficou por décadas. A última apresentação foi com 40 anos, quando percebeu que o corpo já não acompanhava o ritmo das meninas mais novas. Ela saía do treino de karatê ainda de kimono, trocava pelo collant e entrava atrasada na aula de dança, dois quarteirões adiante. Foram anos assim: kimono pela manhã, sapatilha à noite.

O karatê entrou na vida dela por indicação de uma psicóloga, durante um momento difícil. Ela foi até a academia duas vezes e voltou sem entrar, com vergonha de reiniciar na frente do sensei. Na terceira vez, o professor a viu antes que ela pudesse fugir. Entrou, fez uma aula, demorou quase dois anos para competir pela primeira vez.

O caminho das faixas e a zona de conforto

Silvana ficou três anos na faixa verde porque estava ganhando tudo nas competições internas. O sensei precisou ultimá-la: ou ela ia para o estadual, ou voltava para a faixa branca. Ela cedeu com medo, foi, tremeu, e o campeonato estadual virou o começo de uma nova fase. Ganhou as três etapas do estadual pelo Mato Grosso do Sul e se tornou campeã do estado.

A partir daí, o sensei disse que era hora do Campeonato Brasileiro. Ela disse que não ia. Um colega de treino, o Mateus, já havia pago a inscrição antes de ela responder. Em Joinville, onde funciona a escola de ballet Bolshoi, ela aqueceu segurando as barras de dança do ginasío e sentiu as mãos formigarem de tanto nervoso. Não conseguia segurar nem um copo d'agua. Mas foi. E se classificou entre as três melhores do Brasil.

Fortaleza: o último brasileiro com o braço machucado

O Campeonato Brasileiro de 2022, em Fortaleza, foi o mais difícil e também o mais marcante. Silvana chegou com o cotovelo lesionado, sem conseguir fazer a rotação do soco. Não pôde trazer técnico nem torciça, as regras da pandemia proibiam público no ginasío. Ela competiu apenas no kata, já que o shiai estava fora de cogitação com a lesão.

No dia primeiro de janeiro daquele ano, ela havia escrito na agenda: queria se classificar entre as três do Brasil. Subiu ao pódio mais uma vez. A primeira ligação foi para o sensei, chorando. A dor no cotovelo tinha desaparecido no momento em que o placar saíu.

Sensei, massoterapeuta e a geração nova

Além de competidora, Silvana é professora. Ela conta que percebeu cedo que a nova geração de crianças não consegue ficar uma hora inteira repetindo movimentos do kata sem se dispersar. A internet acelerou o ritmo de atenção deles. A solução que ela e o sensei encontraram foi adaptar: quinze minutos de brincadeira no meio da aula para segurar o interesse. A filosofia da arte marcial não muda, mas a embalagem precisa conversar com o tempo.

A massoterapia entrou como extensão natural do cuidado com o corpo. Depois de anos convivendo com lesões e recuperações, entender a musculatura virou parte do caminho. Ela atende em Tupi Paulista e convidou, ao final do episódio, Pedro e Mariana para uma sessão de drenagem. Afinal, como ela lembrou, dor tem cura e ela é das duas coisas: sensei e massoterapeuta.

O filho Paulo e a realidade do esporte no Brasil

Silvana tem um filho, Paulo, que escolheu o karatê como profissão. Quando ela fala dele, muda o tom de voz. Ele compete em alto nível, viaja constantemente e estava de passagem antes de seguir para Portugal e depois para Berlim. O kimono de um lado, o filho pro outro, como ela disse com uma risada.

Mas a realidade financeira do esporte olímpico no Brasil pesa. Um kimono homologado para competição custa mais de dois mil reais, o equipamento completo beira dez mil, e a bolsa atleta nacional paga pouco mais de mil reais por mês. Uma passagem para Fortaleza em janeiro de alta temporada já consome meses dessa bolsa. Silvana fala com conhecimento de causa: ela foi campeã e pagou tudo do próprio bolso.

Arte marcial como caminho, não como destino

Uma das falas mais fortes do episódio veio quando Silvana falou sobre o que a arte marcial ensina de verdade. Não é a chave de imobilização nem a velocidade do chute. É treinar a mente primeiro. Ela passou por uma fase de baixa-estima, por um relacionamento difícil, pelo susto do câncer de mama da mãe. Em todos esses momentos, foi para o tatame. O Sensei Zanon, de Monte Castelo, árbitro pan-americano e referência nacional, dizia: se você tiver qualquer mágoa, joga em cima dessa tatame.

Silvana vai continuar enquanto o quadril deixar. Ela não sabe até quando. A resposta que ela deu foi a mais honesta possível: até a hora que o quadril estiver sustentando, ela está indo.

Onde encontrar

Silvana Garcia está em Dracena, SP, e pode ser encontrada nas redes sociais pelo karatê e pela massoterapia: @silvana.garcia_karate e @silvana.garcia_massoterapeuta.

Resumo do episódio

Silvana Garcia transitou da dança competitiva para o karatê aos 15 anos e se tornou uma das atletas master mais respeitadas do Mato Grosso do Sul, com três classificações entre as três melhores do Brasil no kata. O episódio revela como ela superou a baixa-estima inicial, enfrentou desafios financeiros extremos para competir no Campeonato Brasileiro com lesão, e hoje atua como sensei, massoterapeuta e referência em como adaptar a filosofia das artes marciais para novas gerações sem perder a essência do treinamento.

Principais aprendizados

  • A transição da zona de conforto para competição estadual foi impulsionada pelo sensei quando Silvana era invencível nas disputas internas, exigindo que ela saísse da faixa verde ou voltasse à branca.
  • O equipamento de karatê para competição custa valores altos: kimono homologado acima de dois mil reais e equipamento completo próximo a dez mil reais.
  • As artes marciais ensinam a treinar a mente primeiro, não apenas técnicas físicas, funcionando como ferramenta para lidar com baixa-estima e momentos difíceis da vida.
  • A bolsa atleta nacional paga pouco mais de mil reais por mês, tornando as viagens para competições um desafio financeiro mesmo para atletas de alto rendimento.
  • A nova geração de crianças tem ritmo de atenção acelerado pela internet, exigindo adaptação das aulas com intervalos de brincadeira mantendo a filosofia das artes marciais.

Perguntas respondidas neste episódio

Como começar no karatê se você tem receio de reiniciar como iniciante?

O receio de reiniciar diante do sensei é comum, mas não deve impedir a entrada. Na primeira aula, você já participa normalmente. O caminho até a primeira competição pode levar quase dois anos, e o importante é manter a consistência no treinamento sem pressa para progredir nas faixas.

Qual é o custo real para competir em karatê no Campeonato Brasileiro?

O equipamento homologado para competição custa valores significativos: kimono acima de dois mil reais e equipamento completo próximo a dez mil reais. A bolsa atleta nacional oferece pouco mais de mil reais mensais, e uma passagem aérea para Fortaleza em alta temporada pode consumir vários meses dessa bolsa.

O que as artes marciais ensinam além das técnicas de luta?

As artes marciais ensinam a treinar a mente em primeiro lugar, oferecendo um caminho para lidar com desafios pessoais como baixa-estima e relacionamentos difíceis. O tatame funciona como espaço para processar mágoas e trabalhar a força interior necessária para superar obstáculos da vida.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.