Quando Gilvan Lemos era bebê, em Dracena, ele era alérgico ao leite de vaca, vivia doente, e era o mais fraquinho da rua. A mãe dele acha que, por isso, ele se mexeu desde sempre, e quando o Karate Kid passou na televisão, o menino quis aprender artes marciais, e não parou mais. Hoje, com 6 anos morando em Auckland, na Nova Zelândia, ele é personal trainer, sensei de karatê e atleta nacional, com a vida toda montada a 5 minutos do trabalho, e o hábito de acordar às 4 da manhã. A história, contada no episódio #183 do AdamiCast, em janeiro de 2023, é a de um cara de Dracena, da primeira turma de Educação Física de Adamantina, que desistiu dos Estados Unidos, do Canadá e da Austrália, e foi parar do outro lado do mundo, no país que apareceu por acaso, no banco do irmão, em uma conversa com um amigo.
Ao longo de quase três horas de conversa, Gilvan mostrou que a diferença entre quem sonha em morar fora e quem vai, de fato, é menos sorte e mais uma combinação de preparação, paciência e coragem para usar a oportunidade quando ela aparece. Ele conta, sem romantizar, o que é chegar a um país em que você não conhece ninguém, não sabe o que vai comer, e não fala a língua direito. Foi o que aconteceu quando ele desembarcou em Auckland, e o que ele transformou em carreira, em rotina, e em vida nos anos seguintes. Foi também o que ele contou, com uma ponta de orgulho, sobre o bairro em que mora, Takapuna, na North Shore, a um quarteirão da praia, e a academia em que trabalha, que abre às 5h e já tem gente na porta esperando.
Do Karate Kid em Dracena à primeira turma de Educação Física em Adamantina
Gilvan cresceu em Dracena, e a história dele começa com uma alergia de bebê que a mãe atribui ao fato de ele ter se mexido tanto. Era o mais fraco da rua até comerem do jeito certo, e a partir daí não parou. Corria, jogava bola, fazia tudo o que criança fazia, e mais um pouco. Foi a geração que cresceu vendo o Karate Kid e o Sr. Miyagi, e ele conta que, na época, tentou aulas, mas não era o que ele queria. Continuou treinando sozinho, chutando, pulando, até que apareceu uma academia de karatê em Dracena, e ele foi. “Desde o início da primeira aula, gostei muito.” A escola fechou anos depois, ele passou por outra academia com o Beto, e quando chegou a hora da faculdade, prestou Educação Física em Adamantina, e entrou na primeira turma do curso.
A faculdade quase mudou o rumo. No último ano, uma professora o indicou para trabalhar em um cruzeiro internacional, com salário atrativo, e ele acelerou o TCC, formou antes da turma, e ficou pronto para embarcar. Não deu certo. A empresa tinha problemas administrativos que só vieram à tona depois. “Graças a Deus deu errado.” Foi o que ele diz no episódio, com a clareza de quem olha para trás e entende que a frustração fazia parte. Quando o cruzeiro não aconteceu, ele voltou para a academia, deu aula, deu treino, e construiu a base do que seria, dali para frente, a própria carreira. Foi também o período em que o sonho de morar fora começou a ganhar forma, até virar um projeto de anos.
A Nova Zelândia que apareceu do banco do irmão
Gilvan sempre quis morar em um país de língua inglesa. Ele conta que, ainda jovem, o irmão, a cunhada e ele foram aos Estados Unidos de férias, e no momento em que pisou lá decidiu que queria voltar para ficar. Mas o dólar disparou, o visto ficou difícil, e a opção EUA foi descartada. O Canadá, segundo ele, tinha proposta boa em dólar, mas o frio era um impeditivo. A Austrália, na época, estava fechando as portas para imigrantes, depois de um boom que saturou o mercado. Foi quando um amigo do irmão, em uma conversa casual no banco, citou a Nova Zelândia: “Por que vocês não vão para a Nova Zelândia? Faz bom dinheiro, tem uma brasileira que mora lá há tantos anos.” Gilvan pegou o contato, conversou, pesquisou, e em menos de seis meses já estava morando em Auckland.
O que ele conta, e que define a pegada da história, é que a Nova Zelândia não era o destino original, era o que estava disponível quando o resto fechou. “Apareceu a porta, abriu, e eu andei certo.” Foi também o que ele repetiu, e que vale como princípio: “Você tem que estar preparado, mas, quando aparece, você vai.” No caso dele, a preparação tinha sido de anos, com estudo, inglês, finanças, e a cabeça pronta para ir embora. A cunhada, na última semana antes da viagem, disse a ele uma frase que ele guarda até hoje: “Depois dessa semana, tudo que você fizer vai ser a primeira vez na sua vida.” Foi o que aconteceu. A chegada, sem conhecer ninguém, com home stay por dois meses e meio, e com a língua ainda travada, foi o começo de uma vida que ele descreve, sem medo, como nova.
A vida em Auckland: 4h da manhã, fila na porta da academia e Takapuna
Gilvan mora em Takapuna, bairro nobre da North Shore, em Auckland, a um quarteirão da praia em uma direção, e a cinco minutos do trabalho em outra. A academia onde ele trabalha, conta ele, abre às 5h da manhã, e já tem gente na porta esperando para entrar. Sair de casa às 4:30, ele diz, é parte do hábito da cidade, e ele se acostumou a ver as ruas iluminadas cedo, gente passeando com cão, gente já entrando para treinar. É uma rotina que ele descreve com a tranquilidade de quem não conta isso como sacrifício, e sim como parte do ritmo local. Auckland, ele explica, é a maior cidade da Nova Zelândia, do tamanho de Campinas, gigante, mas com a qualidade de vida da North Shore, que é mais calma e tem gente que prefere a região mesmo com o trabalho no centro.
Foi em Auckland que ele passou a se virar de verdade no inglês. No começo, ele passava 45 a 50 minutos de ônibus para estudar, e usava o tempo para ler, ouvir, e captar como os nativos conversavam. “O pessoal fala rápido, muita gíria, e tem como voltar.” Foi em Auckland que ele começou a trabalhar de personal trainer com horário marcado, com clientes que ele descreve como muito mais maduros na relação com o treino do que o brasileiro médio, e onde ele passou a ensinar karatê em uma academia a cinco minutos do trabalho. Foi também em Auckland que ele se acostumou a ver golfinhos e baleias no mar, a receber os tucanos da Dracena por foto, e a descrever a cidade, sem medo, como um lugar em que se sente em proteção de tela de Windows, com a paisagem parecendo sempre cenário de filme. “Parece que você está dentro de uma tela do Windows, é tão lindo.”
Personal trainer e sensei de karatê, com o mesmo ethos de antes
Gilvan tem uma frase que ele repete, e que ele diz ter escutado do Beto, o professor de karatê de Dracena: “Eu não escolhi trabalhar de personal trainer, eu nasci para trabalhar de personal trainer.” É o que ele faz hoje em Auckland, com a diferença de que a profissão se profissionalizou, o inglês virou ferramenta, e a cidade exige um ritmo que ele aceitou sem drama. A rotina, segundo ele, começa às 4h com o personal, segue até a aula de karatê, que é em outro espaço, e continua com os atendimentos de personal que vão até a noite. O karatê continua sendo o mesmo karatê de Dracena, com a diferença de que hoje, além de personal, ele é sensei, e compete como atleta nacional, o que ele define como o melhor dos dois mundos, a cabeça do personal e o corpo do atleta.
Ele voltou ao Brasil nesta viagem, depois de seis anos, e contou, no episódio, com o jeito de quem se admira, que foi pegar Dracena e não viu a cidade mudar muito. “Você sai dali e o bairro é o mesmo.” Foi a forma que ele encontrou de dizer, sem ficar piegas, que a diferença é o que você faz com o tempo, e não o lugar em que está. Ele não sabe se volta, e não diz que vai, e o que ele diz é que cada porta que abre, ele entra. Foi assim com o cruzeiro, foi assim com a Nova Zelândia, e foi assim com o karatê que começou a partir de uma alergia de bebê e de um filme dos anos 80. A frase que ele repete, e que ele diz ter aprendido com a experiência, é a mesma que ele aplica em tudo: apareça a porta, você entra, e você faz o melhor possível com o que está ali.
Onde encontrar
Gilvan Lemos trabalha como personal trainer e sensei de karatê em Auckland, Nova Zelândia, e segue competindo como atleta nacional de karatê na categoria dele. Para acompanhar a rotina de treino, as aulas e as passagens por Dracena, siga o @gilvanlemos.
Resumo do episódio
Gilvan Lemos saiu de Dracena para se tornar personal trainer, sensei de karatê e atleta nacional em Auckland, na Nova Zelândia. Seu trajeto começou com uma alergia de infância que o levou ao karatê aos assistir Karate Kid, passou pela primeira turma de Educação Física de Adamantina, e culminou em uma mudança para o exterior que não era planejada, mas que surgiu de uma conversa casual. A história mostra como a preparação constante, paciência e coragem para aproveitar oportunidades transformam sonhos em realidade, tudo isso construído a partir de uma rotina que começa às 4 da manhã em uma cidade que ele descreve como protegida por tela de Windows.
Principais aprendizados
- A alergia de leite de vaca na infância levou Gilvan ao movimento constante, que o direcionou para as artes marciais após ver Karate Kid na televisão.
- A Nova Zelândia não era o destino original, mas surgiu de uma conversa casual de um amigo do irmão em um banco, mudando completamente o rumo da vida.
- O estudo contínuo de inglês durante trajetos de ônibus de 45 a 50 minutos foi essencial para dominar a língua e se virar profissionalmente em Auckland.
- Personal trainers em Auckland trabalham com clientes muito mais maduros na relação com treino do que a média brasileira, exigindo uma abordagem profissional diferente.
- A diferença entre sonhar em morar fora e realmente ir depende menos de sorte e mais de preparação, paciência e coragem para aproveitar a oportunidade quando aparecer.
Perguntas respondidas neste episódio
Como Gilvan Lemos começou a praticar karatê em Dracena?
Gilvan cresceu assistindo Karate Kid e queria aprender artes marciais. Tentou aulas inicialmente, mas não gostava. Continuou treinando sozinho até que apareceu uma academia de karatê em Dracena, onde entrou na primeira aula e soube que tinha encontrado seu lugar.
Por que Gilvan escolheu a Nova Zelândia para morar?
A Nova Zelândia surgiu como oportunidade quando outras opções fecharam. Os EUA ficaram caros com o dólar disparado, o Canadá tinha frio demais, e a Austrália estava fechando portas para imigrantes. Um amigo do irmão mencionou casualmente a Nova Zelândia durante uma conversa no banco, e Gilvan pesquisou e se mudou em menos de seis meses.
Como é a rotina de trabalho de Gilvan em Auckland?
Gilvan acorda às 4 da manhã e sai de casa às 4h30 para a academia, que abre às 5h e já tem pessoas esperando na porta. Trabalha como personal trainer até a aula de karatê em outro espaço, e continua com atendimentos de personal até a noite, combinando a profissão de personal com a de sensei.
Qual foi o papel do professor Beto na carreira de Gilvan?
Beto foi o professor de karatê de Dracena que deixou uma frase marcante em Gilvan: eu não escolhi trabalhar de personal trainer, eu nasci para trabalhar de personal trainer. Essa filosofia guia a abordagem de Gilvan até hoje em Auckland.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.