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Juliano Tubiba, o tatuador de Dracena que aos 13 anos montou a própria máquina com motor de rádio e hoje tem 25 anos de carreira | AdamiCast #151

01 de setembro de 2022 • 9 min de leitura

Este texto vem do episódio #151 do AdamiCast

Aos treze anos, com um motor de toca-fitas velho, uma caneta Bic, durapox e muita coragem, ele construiu a própria máquina de tatuar dentro do quarto. Não tinha internet, não tinha curso, não tinha como aprender com outro tatuador: o único jeito era ver alguém trabalhar uma vez, voltar pra casa, e improvisar. Juliano Tubiba é o tatuador de Dracena, SP que começou assim, escondido da mãe, e que conta no AdamiCast #151 a história dos vinte e cinco anos entre o fundo do quintal, a sala que a avó cedeu, a ligação que o recusou, e o estúdio que hoje tem dez máquinas Corum invertidas pra canhoto.

Aos treze anos, o motor de rádio que virou máquina de tatuagem

Juliano desenhava desde pequeno, e em 1996, 1997, o caderno da escola virou mais rascunho do que conteúdo. Colecionava revistas de rock, olhava tatuagens artísticas em fotos de bandas, e sonhava com dragões, magos e punhais desenhados na pele. Vizinhos do bairro, em Dracena, já tinham tatuagens caseiras, feitas em cadeira, e ele descobriu a referência que precisava: o Didi, instrutor de autoescola que morava no Jardim Brasilândia, e que todo mundo na cidade sabia que tatuava. Foi até o banco onde Didi ia pagar taxa, perguntou se podia observar, e levou uma primeira resposta seca: “Isso aqui não é pra você não.” Voltou outras vezes, encheu o saco, e o Didi acabou aceitando. Em um sábado de manhã, ligou, e o Juliano foi de bicicleta, com medo, ver a primeira tatuagem ao vivo.

A primeira observação rendeu uma série de decisões de inventar. A máquina do Didi era uma gambiarra épica: motorzinho de toca-fitas amarrado em tubo de pincel atômico, tinta em tampinha de garrafa, agulha única. O Juliano foi pra casa e começou a montar a dele, do zero. Comprou o motor de um tio que estava desmanchando uma Belina, pegou canetas Bic, retirou a carga até sobrarem só as pontinhas de cor cobre, descobriu que existia batoque pra vender em farmácia de manipulação, e usou raio de bicicleta pra prender a agulha. A máquina não era profissional, era caseira, mas era dele. A tinta Nankin ele comprava na livraria Globo e fervia em panelinha, depois de ouvir que “evaporava” um solvente que reduzia reação. Tinha treze anos.

A primeira tatuagem em carne viva, no fundo do quintal

Com a máquina montada, o próximo passo foi achar cobaia. Avisou os amigos do bairro do Tunicó André, e quatro moleques tiraram no palitinho quem seria o primeiro. Sorteado o André, que também cedeu a casa pra fazer o serviço. O pedido foi uma águia tribal, e a primeira dificuldade técnica foi boba e decisiva: o Juliano não sabia como passar o desenho do papel pra pele, e a solução foi copiar com caneta direto no braço, depois apagar com álcool e refazer na posição que o cliente queria. O traço demorou quatro horas, e quando ele tentou aprofundar um pouco, o André deu um berro e caiu do sofá. No dia seguinte, o próximo voluntário, Marcelo, pediu uma aranha na perna, e dessa vez o trabalho fluiu: uma hora e meia, sem grito, sem berro, e o Juliano olhou o resultado e decidiu. “Agora eu já sei o que eu quero ser quando crescer.”

A mãe e a tia só ficaram sabendo quando a mãe do André, desconfiada da movimentação, ficou de tocaia e flagrou o Juliano tatuando o primo. O sermão foi clássico dos anos 90: “isso é coisa de bandido, de marginal, de maloqueiro”. A mãe ainda tentou caçar o material e não achou, porque o André já tinha resgatado tudo e passado por baixo dos panos. A avó foi a primeira a apoiar, e ofereceu a própria sala da casa pra ele trabalhar. O próximo passo foi começar a cobrar, depois de uns quatro meses tatuando de graça, e a guardar tudo pra comprar a máquina profissional de bobina que ele via em fotos e sonhava. A primeira máquina de verdade só chegou meses depois, mas o nome que o André tatuou, na águia tribal, ele jurou que nunca vai deixar retocar. “É a primeira de todas. Relíquia.”

A carreira construída sem internet, sem curso, sem master

Sem referência local, e com a internet ainda em dial-up, a saída foi ligar pra quem sabia mais. Juliano ligou pra um tatuador de uma cidade vizinha pedindo uma dica de como regular a máquina de bobina, e levou uma resposta que define uma geração: “Vai se virar, você é doido. Vou te ajudar pra quê? Você vai virar meu concorrente.” A ligação seguinte foi pra São Paulo, pro Tuca, que regulou a máquina por telefone, com o Juliano pondo o motor perto do micro pro barulho servir de referência. A frase final do Tuca virou mantra: “Na hora de tatuar, senta essa na pele, não tem dó não. Enfia esse troço aí no fundo. Se a pessoa gritar, você dá um soco nela.” A amizade ficou, e a formação veio da prática, de convenções, e do aprendizado com quem aceitasse dividir a informação.

Anos depois, Juliano tatuava em um evento em Ilha Solteira quando o tatuador da cidade vizinha parou do lado dele. “Cara, já vi seu trabalho, é da hora. Sou de Dracena.” Era o mesmo cara da ligação recusada. O reencontro virou almoço, e a fila de pedidos da época foi virada: “Aquele coice que você me deu me serviu pra eu evoluir. Obrigado. Se não fosse aquele teu pé na bunda, eu estaria estagnado até hoje.” A frase virou lema do estúdio: o pé na bunda coloca pra frente, desde que você use como combustível. E o gesto de dividir o que aprendeu virou prática: ajudou o José Marcos a começar, ensinou o Igor Grande a montar a primeira máquina, e abriu a porta pra Cainara e Cristian. “Eu não tive ninguém pra fazer isso por mim, só tive o dia que eu observei. Quando aparece alguém querendo começar, eu ajudo.”

Vinte e cinco anos depois, canhoto, e a clínica de máquinas

Hoje o estúdio do Tubiba, em Dracena, parece um laboratório de máquinas. São dez máquinas de bobina da Corum, marca de Pindamonhangaba que personaliza o chassi pra canhoto (invertido, porque “esteticamente fica mais bonitinho na mão, e o canhoto não fica apagando o que acabou de desenhar”), cada uma regulada pra um tipo específico de agulha: a abelhinha pra 3 e 5 (fineline), a catana pra 7, 9 e 13 Magnum, e outra catana pra 15 e 19. A manutenção da bobina começou a cobrar o preço dos vinte e cinco anos, e o Juliano está migrando pra rotativa sem fio, mais leve e mais precisa, depois de começar a sentir dor no punho. “A máquina de bobina é pesada, barulhenta, e exige experiência. Mas pra quem gosta, não troca.”

A rotina de atendimento combina técnica com a disciplina do ofício. Tatuagem começada tem que terminar antes de tatuar de novo na mesma área, porque a pele precisa de recuperação. A agulha certa pra cada tipo de traço, o pigmento certo pra cada tom, a pressão certa pra cada pele, e a consciência de que o resultado final é permanente. Além do trabalho de tatuagem, o Juliano também acompanha uma clientela antiga que já virou amizade, e tem uma filha pequena que quer seguir o ofício. Quando pergunta qual o conselho pra quem quer começar, a resposta é curta: “Pega o lápis e desenha. Se você não desenha, você não tatua. Se você tatua sem saber desenhar, você tatua mal.” A frase parece dura, mas é a mesma lógica que levou o moleque do motor de rádio a construir, devagar, o que é hoje o estúdio mais antigo da cidade em atividade.

Onde encontrar Juliano Tubiba

O estúdio do Juliano Tubiba atende em Dracena, SP, com agendamento por mensagem e atendimento pra todos os estilos. Para acompanhar os trabalhos, bastidores e a próxima agenda, siga @tubibatattoo. A conversa com o AdamiCast é o tipo de história que mostra o que acontece quando uma criança de treze anos leva a sério uma obsessão, e quando o mundo se nega a ensinar, ela ensina a si mesma, e depois abre a porta pros outros que vão vir.

Resumo do episódio

Juliano Tubiba é o tatuador de Dracena que aos 13 anos construiu sua primeira máquina usando motor de rádio, caneta Bic e durapox, sem internet, sem curso e sem mentor que aceitasse ensinar. A história mostra como ele transformou uma observação única em vinte e cinco anos de carreira, evoluiu de tatuagens no quintal para um estúdio com dez máquinas especializadas, e hoje passa adiante o conhecimento que ninguém lhe deu.

Principais aprendizados

  • A primeira máquina profissional foi improviso com motor de toca-fitas, ponta de caneta Bic como agulha e raio de bicicleta como prendedor.
  • Observar uma única tatuagem ao vivo, mesmo recusado várias vezes, foi o gatilho para começar a praticar de forma autodidata.
  • A recusa de um tatuador vizinho em ensinar funcionou como combustível para evolução, não como barreira.
  • Desempenho em desenho é pré-requisito não negociável: quem não desenha bem não tatua bem.
  • Máquinas especializadas por tipo de agulha e peso do punho determinam qualidade e longevidade da carreira.

Perguntas respondidas neste episódio

Como montar uma máquina de tatuar caseira do zero?

Com motor de toca-fitas amarrado em tubo de pincel atômico, agulha única, ponta de caneta Bic como carga, raio de bicicleta pra prender a agulha e tinta Nankin ferida em panelinha. A solução exigia improvisação com materiais comuns e observação prévia de como funcionava.

Qual a importância de desenhar bem para tatuar?

Desenho é a base obrigatória da profissão. Quem não desenha não tatua bem, porque a qualidade final depende de capacidade técnica prévia em composição e traço, não apenas em manusear a máquina.

Como começar a tatuar quando ninguém quer ensinar?

Observar uma tatuagem ao vivo uma única vez é suficiente para começar a praticar. Depois vem a prática com voluntários dispostos, convenções na área e busca por profissionais em outras cidades que aceitem dividir informação.

Qual a diferença entre máquina de bobina e rotativa para tatuador?

Máquina de bobina é pesada, barulhenta e exige experiência, mas é preferida por quem gosta. Rotativa é mais leve e precisa, e passa a ser necessária quando a bobina começa a causar dor no punho após vinte e cinco anos de uso.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.