Equoterapia é o uso do cavalo como instrumento terapêutico em saúde, educação e inclusão — e em Dracena, no interior de São Paulo, duas fisioterapeutas construíram um centro que atende crianças com TEA, paralisia cerebral, TDAH, ansiedade e outras condições, com uma pista a céu aberto e uma equipe multidisciplinar. Neste episódio do AdamiCast, Gabriela Manrique e Renata Amador contam a história do projeto (que começou com uma faixa de “equoterapia” pregada num sítio perto do aeroporto), explicam como cada cavalo tem uma função específica no tratamento, e por que o atendimento ao ar livre — longe das quatro paredes de uma clínica convencional — faz tanta diferença no resultado.
Como duas fisioterapeutas montaram um centro de equoterapia em Dracena
A história começa em 2005, quando a família da Gabriela se mudou pra Dracena. O pai tinha um sítio perto do aeroporto com uma égua — égua essa que era do avô e foi passada de geração. “A gente colocou uma faixa de equoterapia lá na pista. Um conhecido da Adriana passou na frente e falou: ‘a Adriana tá uma doida aí que tal equoterapia?’. A Adriana já tinha feito faculdade e gostava da área. A gente começou a se falar dali e nunca mais parou”. As primeiras sessões foram todas voluntárias — o que pra quem está começando faz toda a diferença, porque dá tempo de mostrar resultado antes de precisar cobrar.
A Renata entrou pela porta dos cavalos. Ela cresceu numa família com cavalo, sabia montar e competir (dois tambores), e desde adolescente puxava cavalo em pe direito pra ajudar o primo. Quando foi fazer faculdade de fisioterapia, já tinha o foco claro: queria trabalhar com criança e com cavalo. “Quando eu tava na faculdade, eu já pensava em trabalhar com isso. Casou perfeito. Quando eu me formei, voltei pra lá como estagiária, e nunca mais saí”. A Aline (fonoaudióloga) entrou como voluntária antes de se formar, depois virou sócia. A psicóloga Lais entrou depois. A equipe multidisciplinar foi se montando organicamente, sem pressa, mas com a convicção de que equoterapia só funciona bem quando tem mais gente do que só o cavalo e o paciente.
O cavalo como instrumento terapêutico — e por que não é “passeio a cavalo”
Equoterapia não é passeio, nem aula de equitação adaptada. É uma prática terapêutica que usa o cavalo como mediador. O movimento tridimensional do cavalo (que acontece nos três eixos do corpo — frente-trás, lado-lado, cima-baixo) obriga o cavaleiro a se ajustar em tempo real, ativando musculatura profunda, ajustes posturais e estímulos sensoriais que a gente não consegue reproduzir em uma sala. “A pessoa em cadeira de roda tem aquela visão limitada. Quando ela tá montada no cavalo, a visão dela muda. Tem um poema que fala exatamente isso: a visão do cavaleiro, a visão de mundo diferente”. O cavalo é literalmente o “motor” da terapia, e o terapêuta orquestra o que vai ser trabalhado em cada momento.
E nem todo cavalo serve pra qualquer paciente. A equipe explica que cada animal tem um temperamento, e a escolha é técnica: “Pra um paciente hipotônico, a gente precisa de um cavalo que dê mais estímulo. Pra um paciente mais agitado, a gente precisa de um cavalo mais calmo. A gente já sabe, na hora, qual cavalo é pra qual paciente — a gente lê o cavalo, sabe quando ele vai aprontar, quando vai cansar”. Os cavalos são treinados pra isso, mas não é fácil: exige leitura constante, respeito ao animal, e um conhecimento que só se adquire com anos de manejo diário. Os cavalos da equipe de Dracena não são “de esporte” nem “de competição” — são cavalos de terapia, e a relação deles com os humanos é construída diariamente.
Os pacientes: crianças com TEA, paralisia cerebral, TDAH, ansiedade — e a explosão de demanda pós-pandemia
O público principal são crianças — na faixa etária padrão de 2 a 10 anos, segundo o que a equipe observa na prática — com alguma condição de saúde, mediante laudo médico de encaminhamento. Os diagnósticos mais comuns: Transtorno do Espectro Autista (TEA), Paralisia Cerebral, TDAH, Síndrome de Down, e quadros de hipotonia (crianças com tônus muscular mais baixo). Mas a pandemia mudou o perfil de quem procura. “A procura explodiu depois da pandemia. As crianças ficaram muito dentro de casa, dois anos sem socializar. Quando chegaram na escola, não conseguiam brincar com outras crianças, tinham medo de pessoas, ansiedade, depressão. Aqui é diferente: ar livre, natureza, contato com o animal. Pra criança que nasceu na pandemia, a equoterapia virou uma porta de entrada pro mundo”.
Esse fenômeno pós-pandemia não é exclusividade da equoterapia de Dracena — é nacional, e vem sendo discutido por pediatras, psicólogos e fonoaudiólogos. Crianças que não tiveram os marcos de socialização típicos (creche, praça, visitas, festinhas) estão chegando na escola com atraso importante na regulação emocional, na linguagem, na relação com o outro. A equoterapia entra como um espaço terapêutico que é também espaço social: o paciente convive com a equipe, com outros pacientes, com o cavalo, e vai ganhando repertório aos poucos.
A sessão: terapia de solo, montaria e o princípio de “qualidade, não quantidade”
A sessão de equoterapia não começa com o paciente em cima do cavalo. Começa com a terapia de solo: o paciente chega, conhece o cavalo, oferece cenoura, faz trânça na crina, dá água. “Não é só montaria. Tem a parte de aproximação com o cavalo, de ganhar confiança. Tem criança que chega e leva um mês pra querer montar. A gente fala pra mãe: confia na gente, dá tempo. O tempo de cada paciente é respeitado”. Depois da terapia de solo, vem a montaria em si — geralmente de 30 minutos a 1 hora, mas sempre com o tempo regulado pelo estado do paciente naquele dia.
E aqui vem um princípio importante da equipe: “Às vezes o paciente só fica 5 ou 10 minutos no cavalo, mas ele ganhou muito ali. Não é o tempo de cavalo que importa, é a qualidade do estímulo. A gente tem que respeitar o tempo da criança, senão ela não volta no outro dia. Melhor ela ir feliz, voltar feliz, e construir uma relação de confiança com o cavalo e com a equipe, do que forçar uma hora inteira e gerar uma associação negativa”. Também é comum que o paciente não tenha evolução linear — dá passos pra trás em alguns dias, especialmente pacientes com TEA sensório. A equipe trabalha com isso: ajusta, recalcula, e não trata o tempo da terapia como cronômetro.
A equipe multidisciplinar e o diferencial de tratar ao ar livre
Hoje, a equipe da Equoterapia Dracena é multidisciplinar: fisioterapeutas (Gabriela, Renata, Adriana), fonoaudióloga (Aline), psicóloga (Lais), auxiliares-guia (que puxam os cavalos durante a montaria), e profissionais de apoio. A presença de mais de uma área é fundamental, porque cada paciente chega com um conjunto único de desafios. “O paciente não é só o diagnóstico dele. Tem TEA com comorbidade, paralisia cerebral com atraso de linguagem. A gente precisa ouvir fono, ouvir psico, ouvir a família, e construir o plano junto”.
O outro diferencial é o espaço ao ar livre. A pista fica no sítio, com área coberta pra dia de chuva, mas o tratamento de verdade acontece ao ar livre: “Numa clínica normal, o paciente é atendido numas quatro paredes, com jaleco branco. Aqui não. Aqui tem natureza, tem pássaro, tem folha pra pegar, tem o cavalo. A gente usa tudo isso como estímulo sensorial. Pra criança com TEA, especialmente, ter essa exposição controlada a estímulos diferentes é uma parte enorme da terapia. Não é só o cavalo — é o ambiente inteiro”. Ao final da sessão, a equipe ainda faz uma exploração do ambiente antes de encerrar — pega folha, observa pássaros, exercita a percepção do mundo fora do cavalo. É uma sessão de 30-60 minutos que trabalha muito mais do que o paciente imagina.
Onde encontrar
A Equoterapia Dracena funciona no sítio da família da Gabriela, em Dracena, SP (zona rural, perto do aeroporto), com pista coberta e atendimento ao ar livre. A equipe atende crianças (e eventualmente adultos) com laudo médico, e o agendamento é feito diretamente pelo perfil do centro. Os canais oficiais são: @equoterapiadracena (perfil do centro), @gabi_manrique (Gabriela Manrique), @renata.amador.fisio (Renata Amador), @adrianabrazil (Adriana, sócia fundadora) e @s.saccheto (Aline, fonoaudióloga da equipe). Para agendar avaliação ou tirar dúvidas sobre o tratamento, o caminho é o direct do perfil do centro.
Resumo do episódio
Equoterapia é o uso do cavalo como instrumento terapêutico em saúde, educação e inclusão. Em Dracena, duas fisioterapeutas construíram um centro que atende crianças com TEA, paralisia cerebral, TDAH, ansiedade e outras condições através de sessões ao ar livre com uma equipe multidisciplinar. A procura explodiu após a pandemia, quando crianças que passaram isoladas começaram a buscar espaços de socialização e contato com natureza.
Principais aprendizados
- O movimento tridimensional do cavalo ativa musculatura profunda e estímulos sensoriais que não podem ser reproduzidos em uma sala de clínica convencional.
- Cada cavalo tem temperamento específico e é escolhido tecnicamente conforme o paciente: hipotônicos recebem cavalos mais estimulantes e pacientes agitados recebem cavalos mais calmos.
- A sessão começa com terapia de solo (aproximação, confiança, conhecer o cavalo) antes da montaria, respeitando o tempo individual de cada criança.
- Qualidade do estímulo importa mais que quantidade de tempo: uma criança pode ganhar muito em 5 ou 10 minutos se a sessão for bem conduzida e gerar associação positiva.
- O ambiente ao ar livre com natureza, pássaros e folhas funciona como estímulo sensorial complementar, especialmente importante para crianças com TEA em exposição controlada.
Perguntas respondidas neste episódio
O que é equoterapia e como funciona?
Equoterapia é uma prática terapêutica que usa o cavalo como mediador. O movimento tridimensional do cavalo obriga o cavaleiro a se ajustar em tempo real, ativando musculatura profunda, ajustes posturais e estímulos sensoriais. Não é passeio nem aula de equitação adaptada, mas um tratamento orquestrado pelo terapeuta.
Como é estruturada uma sessão de equoterapia?
A sessão começa com terapia de solo, onde o paciente conhece o cavalo, oferece cenoura e faz trança na crina para ganhar confiança. Depois vem a montaria, geralmente de 30 minutos a 1 hora, regulada pelo estado do paciente naquele dia. O tempo varia: algumas crianças levam um mês para querer montar.
Por que a demanda de equoterapia aumentou após a pandemia?
A procura explodiu porque as crianças ficaram dois anos sem socializar dentro de casa. Quando chegaram na escola, não conseguiam brincar com outras crianças, tinham medo de pessoas, ansiedade e depressão. A equoterapia oferece ar livre, natureza e contato com animal como porta de entrada para o mundo.
Qual é o papel da equipe multidisciplinar na equoterapia?
A equipe inclui fisioterapeutas, fonoaudióloga, psicóloga e auxiliares-guia. Cada paciente chega com desafios únicos: TEA com comorbidade, paralisia cerebral com atraso de linguagem. A presença de múltiplas áreas é fundamental para ouvir diferentes perspectivas e construir o plano terapêutico junto.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.