O episodio 323 do AdamiCast recebeu dois fotografos da regiao, Flavio Sampaio e Igor Takahashi, para uma conversa que comecou com uma pergunta simples e foi longe: comprar uma foto significa ser dono dela? A resposta, construida ao longo do papo, revelou os bastidores de uma profissao que muita gente acha que se resume a apertar um botao, mas que envolve leis, contratos, negociacao e, acima de tudo, valorizacao do trabalho criativo.
Comprei a foto, mas a foto nao e minha
Flavio abriu o assunto comparando a fotografia a outros bens de consumo. “O livro continua sendo do autor, o carro continua sendo… voce tem o direito de propriedade, e a mesma coisa que acontece com a foto”, explicou. Segundo ele e Igor, o fotografo cede o direito de uso da imagem, mas nao o direito de comercializacao. A base legal para tudo isso, disseram os dois, e a lei 9610/98, que rege o oficio no Brasil. “A unica lei que rege o nosso oficio e 9610 barra 98”, resumiu Flavio, arrancando risadas dos anfitrioes.
Os fotografos usaram o exemplo da fotografia de arquitetura para destrinchar a questao. Um arquiteto contrata a foto de uma obra e pode usa-la para divulgar seu proprio trabalho, em redes sociais ou anuarios. O problema comeca quando terceiros, como uma fabrica de porcelanato ou uma empresa de tintas que aparece na foto, resolvem usar a mesma imagem como portfolio sem pagar por isso. “Nao pode, mas acontece. Muito”, admitiu Igor. Para eles, a solucao passa por educar todos os envolvidos, do fotografo ao cliente final, sobre como funciona esse “acordo de cavalheiros” que, na pratica, e regido por lei.
Quando a imagem vira mercadoria e quem deve ser pago por isso
Um dos pontos mais didaticos da entrevista foi sobre como a remuneracao varia de acordo com o alcance da publicacao. Flavio explicou que uma foto usada apenas no feed do Instagram tem um valor, mas se ela for parar em um anuario ou em uma revista internacional com centenas de milhares de exemplares, o cachê sobe. “Quao maior for o publico alcance, mais a gente deve ser remunerado com isso”, disse, contando que ja teve contratos triplicados de valor quando uma foto saiu do uso nacional para uso na America Latina.
Ele tambem contou um caso concreto: fotografou para dois clientes que depois apareceram em uma revista, com duas paginas duplas e tres simples usando o material sem autorizacao nem pagamento. Fazendo as contas do valor de publicidade de cada pagina, Flavio calculou entre 25 e 35 mil reais em veiculacao feita sem nenhum custo para a revista. Ele ligou, cobrou e recebeu, sem precisar de advogado. “Faz um negocio bom” foi a frase que ficou marcada no papo, questionando por que o fotografo deveria sempre ceder e nunca cobrar o que e justo.
Os dois tambem falaram sobre o direito de imagem da pessoa fotografada, que e inalienavel. Mesmo depois de assinar um termo de cessao, quem aparece na foto pode pedir a retirada da imagem em qualquer momento, sem precisar justificar. “Ele tem o dever de retirar essa imagem, eu nao posso questionar”, explicou Flavio, lembrando que isso ja aconteceu no proprio AdamiCast, quando episodios precisaram ser retirados do ar a pedido de quem participou.
O erro comum e a falta de credito
Uma parte sensivel da conversa foi sobre veiculos de comunicacao que usam fotos e videos de terceiros sem dar credito. Pedro Adami relembrou um caso em que um corte de entrevista feita pelo AdamiCast, com uma declaracao do prefeito de Dracena, foi replicado por varios jornais sem mencionar a origem. “Liguei pra um deles e falei, bicho, voce usou o corte la, cara, da os creditos”, contou, revelando que um argumento comum de quem copia e dizer que “essa lei nao pegou”. Para Flavio, a resposta e direta: “quem faz a lei pegar e a gente”.
Mariana tambem assumiu um episodio em que o casal usou a foto de um fotografo sem credito-lo corretamente e precisou se retratar. O caso terminou em acordo, mas serviu de gancho para reforcar que o erro acontece dos dois lados: de quem nao avisa que a foto tem autor e de quem simplesmente pega o material sem se preocupar com isso.
Inteligencia artificial, negocios e o valor do humano
A conversa passou tambem pelo tema da inteligencia artificial na fotografia. Os convidados defenderam que, mesmo quando uma IA e usada para complementar uma imagem, a criacao continua sendo do fotografo, porque foi ele quem direcionou a ferramenta. Citando uma entrevista do humorista Marco Luque, Flavio destacou a frase que resume bem o momento: “a inteligencia artificial, ela e logica. E o nosso trabalho nao tem logica alguma.”
Segundo Igor, o mercado de fotografia comercial esta cada vez mais em busca de imagens humanizadas, mesmo em projetos que já contam com renderizacoes em 3D. “Eles tem o 3D, mas querem a foto, pra tornar aquilo real”, disse. Flavio reforcou que negocio se faz “olho no olho” e que comecar uma negociacao com uma imagem artificial seria, na visao dele, uma mentira dentro da mentira.
Modelo profissional, influencer e a diferenca que poucos percebem
Outro assunto que gerou boas risadas foi a diferenca entre modelos profissionais e influenciadores digitais no dia a dia de um estudio fotografico. Flavio contou que, com uma modelo experiente, consegue fotografar um look a cada seis minutos, entregando ate dez looks por hora, enquanto alguem sem pratica pode travar a producao inteira. Ele tambem relembrou o caso de um modelo contratado para fazer fotos e videos ao mesmo tempo, que era rapido nas fotos mas demorava vinte minutos para gravar um video simples, o que encareceu a diaria toda.
Mariana e Pedro contaram uma experiencia pessoal parecida: em um evento, perceberam a diferenca entre eles, amadores diante da camera, e uma modelo profissional que “so fazia certo”, mudando de pose sem precisar de direcao. “A profissional, ela nao fala nada. Ela so fica aqui, ja muda”, resumiu Mariana, impressionada com a diferenca de fluidez.
Fotografia documental e o poder de registrar o mundo
Para encerrar o papo, a conversa foi para um territorio mais denso: a fotografia documental. Flavio citou o caso do fotografo Kevin Carter, premiado por uma imagem de um abutre observando uma crianca na Africa, e o peso psicologico que esse tipo de trabalho carrega. Tambem lembrou a historia do brasileiro Sebastiao Salgado, que fotografou a tentativa de assassinato do presidente americano Ronald Reagan driblando as barreiras de seguranca para conseguir a imagem.
Para os dois convidados, a fotografia documental tem, sim, o poder de mudar o mundo, servindo como registro para que situacoes de violencia, guerra ou injustica nao sejam esquecidas. “Uma foto impacta. Uma imagem impacta”, resumiu Igor, encerrando um papo que passou por leis, bastidores de producao, negociacoes e o valor, muitas vezes invisivel, de um clique que carrega horas de trabalho por tras.
Onde encontrar
Você encontra quem participou deste episódio no Instagram: @igortakahashi e @sampaio_foto.
Resumo do episódio
O episódio recebe os fotógrafos Flávio Sampaio e Igor Takahashi para explicar como funciona o direito de uso de imagem no Brasil, regido pela lei 9610/98. Eles detalham a diferença entre ceder uma foto e vender seus direitos de comercialização, mostram casos reais de uso indevido por empresas e veículos de imprensa, e discutem como a remuneração varia conforme o alcance da publicidade. Também comentam sobre o uso de inteligência artificial na fotografia, a diferença entre modelos profissionais e influenciadores na produtividade de um ensaio, e relatam bastidores de trabalhos com figuras como Hermeto Pascoal e Boris Casoy.
Principais aprendizados
- Ceder o direito de uso de uma foto não dá à pessoa ou empresa o direito de comercializá-la ou distribuí-la para terceiros sem pagamento ao fotógrafo.
- Quando uma mesma foto é usada por múltiplos profissionais ligados a um projeto, como arquitetura, o valor costuma ser dividido entre eles, reduzindo o custo individual e aumentando o ganho total do fotógrafo.
- O valor de uma licença de imagem varia conforme o alcance da publicação, sendo mais caro para veiculação nacional ou internacional do que para uso local ou redes sociais.
- O direito de uso de imagem de uma pessoa fotografada é inalienável, podendo ela solicitar a retirada da própria imagem mesmo após ter assinado autorização de uso.
- Modelos profissionais entregam looks e poses com muito mais agilidade que pessoas sem experiência, o que reduz custos de produção em sessões comerciais como lookbooks.
Perguntas respondidas neste episódio
Posso usar uma foto que uma empresa me forneceu para divulgar meu próprio trabalho?
Não necessariamente. O direito de uso concedido é específico para a finalidade acordada, geralmente a divulgação da empresa contratante. Se outro profissional ou empresa quiser usar a mesma imagem, como portfólio ou material próprio, precisa negociar e pagar pelo direito de uso diretamente com o fotógrafo, mesmo que a foto já tenha circulado publicamente em outro contexto.
Uma pessoa fotografada pode pedir para retirar sua imagem depois de autorizada?
Sim. Mesmo que a pessoa tenha assinado um termo de cessão de uso de imagem, ela pode a qualquer momento solicitar a remoção dessa imagem de qualquer lugar em que esteja publicada, e quem a publicou tem o dever de atender ao pedido sem questionar, pois esse direito é considerado inalienável.
Vale a pena usar inteligência artificial para substituir fotos reais em negócios e projetos?
Não é recomendado para contextos que exigem credibilidade, como negócios ou apresentações de projetos de arquitetura. A percepção compartilhada é que a IA ainda traz uma perfeição artificial que não transmite a emoção e a essência reais das pessoas, e que fechar negócios exige contato humano genuíno, não imagens geradas artificialmente.
Por que modelos profissionais custam mais caro que influenciadores em um ensaio comercial?
Modelos profissionais têm repertório de poses, conhecimento do próprio corpo e agilidade para trocar de roupa e se posicionar, o que aumenta a produtividade de uma sessão. Isso significa mais fotos entregues em menos tempo, reduzindo custos totais de produção, enquanto pessoas sem essa prática podem atrasar o trabalho e comprometer o aproveitamento da diária contratada.
Uma foto tirada em local público pode ser usada livremente pela imprensa?
Depende do contexto da publicação. Se a imagem ilustra uma notícia genuína, como uma reportagem sobre o clima, geralmente é aceitável. Porém, se a mesma foto for usada em um contexto que associe a pessoa a algo negativo, como doenças ou críticas, sem relação com a situação real, isso pode ser considerado uso indevido da imagem, sujeito a processo judicial.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.