#374

De vendedor de geladinho a dono de duas lojas: a história de Ricardo Coelho | #374

11 de fevereiro de 2025 • 7 min de leitura

Este texto vem do episódio #374 do AdamiCast

Ricardo Coelho cresceu filho de mãe solteira em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, numa infância marcada pela escâssez e pela necessidade de se virar cedo. Com uma mãe semianalfábeta que trabalhava como empregada doméstica, ele e os irmãos moraram de favor em garagens, no fundo de uma fábrica de manequins e em casas sem porta nem janela. Foi nesse contexto que Ricardo aprendeu, antes mesmo de entrar na escola, que trabalho e dinheiro eram coisas para levar a sério.

Depois de anos em São Paulo, trabalhando como office boy numa empresa jurídica, passando por crises de ansiedade e pânico e perdendo o emprego, Ricardo chegou a Junqueiroópolis num feriado prolongado, atrás de uma namorada conhecida numa festa em Panorama. O que parecia uma visita virou vida. Acolhido pelo sogro, sem dinheiro nem bicicleta, ele trocou o asfalto e o metrô lotado pelo calor do interior e foi em busca de um recomeço.

Da padaria às pedras: uma infância de trabalho

Antes de completar dez anos, Ricardo já sabia o que era trocar horas de sono por dinheiro. Como ajudante de padeiro, carregava sacos de 50 kg de farinha de trigo, dormia em grades de caixas usando garrafa de Coca-Cola como travesseiro e acordava com a chegada do leiteiro às quatro da manhã. O salário era de dois reais e cinquenta centavos por noite, mas compensava em pão, leite e salgados da estufa, que eram riqueza real para uma família que vivia de doações.

Antes ainda da padaria, com apenas seis anos, Ricardo carregou tijolinhos um a um para um pedreiro que construía no bairro. Três meses depois, entregou os 998 tijolos restantes e recebeu três notas de um real. Com aquele dinheiro comprou um Kinder Ovo, quatro canetas Bic e ainda deu um real para a mãe. Guardou três centavos como se fossem ouro, e por muito tempo ficou namorando aquelas moedinhas. O gosto pelo trabalho e pela recompensa tinha sido plantado ali.

A virada de chave em São Paulo

Com a adolescência veio o emprego numa empresa jurídica no Vale do Anhangabaú, onde Ricardo entrou como office boy e foi crescendo. Aprendeu a escrever e-mails, a se comunicar profissionalmente, a circular por uma empresa de 1.500 funcionários. Era o garoto da favela, filho de empregada doméstica, que agora tinha acesso aos donos de uma empresa multimilionária. Mas a rotina de trens lotados, faculdade noturna e crises de ansiedade foram desgastando tudo, até que ele pediu as contas e resolveu mudar de vida.

Foi numa festa em Panorama que conheceu Érica, que morava em Junqueiroópolis. O namoro a distância durou um bom tempo, com revezamento quinzenal entre as cidades. Quando perdeu o emprego em São Paulo, Ricardo foi de mochila e coragem para o interior. O sogro, seu Marcolino, abriu a casa sem hesitar. Ricardo não tinha dinheiro nem para comprar uma bicicleta, mas tinha vontade de ficar.

Do geladinho ao Mercado Livre: o começo da Ricardo Peças

Em Junqueiroópolis, Ricardo trabalhou como frentista, depois foi ajudar o sogro na Marcolino Refrigeração. Não tinha jeito para consertar nada, mas o sogro logo percebeu que ele tinha talento para administrar, negociar e vender. A loja foi se organizando, crescendo. Enquanto isso, Ricardo ficou de olho nos fornecedores de peças de refrigeração e viu uma oportunidade: vender aquelas peças na internet.

Com R$ 782,60 do FGTS de um emprego anterior, dinheiro que a esposa esperava para comprar um guarda-roupa, Ricardo fez o primeiro pedido a um distribuidor de peças. Convenceu o fornecedor a fechar em R$ 1.200 com frete incluído, montou uma prateleirinha de aço no canto da sala e criou um anúncio no Mercado Livre. A primeira venda saiu em 16 de janeiro de 2013: uma eletrobomba para um comprador de São Paulo. Ele quase enlouqueceu de felicidade.

Crescimento acelerado e os perrengues do empreendedor

O que começou como renda extra logo pediu mais espaço. Ricardo atendia os clientes fingindo que havia descido ao estoque para verificar o produto, quando na verdade só virava para a prateleirinha ao lado. Embalava pedidos à noite, corria ao correio de manhã, fez amizade com os funcionários de lá. Em 2018 montou a loja física em Junqueiroópolis, e em menos de três anos teve que contratar várias pessoas de uma vez porque a mercadoria não cabia mais no espaço.

Mas o crescimento veio junto com troopeços. Houve um empréstimo que gerou 86 mil reais em juros. Uma fiscalização que quase resultou em multa de R$ 200 mil por duas empresas funcionando no mesmo endereço. Erros de tributação interestaduais. Ricardo aprendeu errando, como ele mesmo diz, e cada susto virou lição. Hoje a Ricardo Peças tem duas unidades, uma em Junqueiroópolis e outra em Marília, aberta há cerca de três anos.

O Coelho Cast e o amor por contar histórias

O podcast nasceu da falta que o SP 294, um programa local que Ricardo acompanhava, fez quando encerrou as atividades. Ele não quis aceitar que Junqueiroópolis ficasse sem esse tipo de conteúdo. Com a ajuda do amigo Fernando Ramos, jornalista que foi seu grande incentivador, o Coelho Cast estreou entrevistando candidatos nas eleições municipais, chegando a quase 50 episódios em poucas semanas de atividade intensa.

Ricardo conta que sempre gostou mais de escutar do que de falar na frente das câmeras, mas o Fernando insistiu que ele tinha jeito para conduzir as conversas. O AdamiCast também é citado como referência e inspiração direta para o projeto. Ele veio ao estúdio em Dracena retribuir a visita que Pedro e Mariana fizeram ao Coelho Cast, e aproveitou para falar sobre a importância de fomentar a cultura de podcast no interior.

Saúde, gratidão e o recado para quem está começando

No final do papo, Ricardo abriu um assunto que considera tão importante quanto o empreendedorismo: a saúde. Chegou a pesar 134 kg, desenvolveu diabetes, hipertensão e ansiedade intensa, tudo em consequência de anos trabalhando das cinco da manhã às dez da noite sem pausas. Só parou quando percebeu que não conseguia mais amarrar o próprio tênis e lembrou que tinha filhos pequenos. Desde então, perdeu cerca de 30 kg e mudou sua relação com o trabalho.

A fala de encerramento foi de gratidão, citando pelo nome patrões, vizinhos, familiares, o sogro, a esposa Érica e Jesus Cristo, a quem atribui muito do que conquistou. O recado para quem está pensando em empreender foi direto: comece pequeno, mantenha o padrão de vida um degrau abaixo do da empresa, não romantize dívida, faça conta e cuide do corpo. Não tem CNPJ que vale um AVC.

Onde encontrar

Ricardo Coelho é de Junqueiroópolis, SP, mas veio até Dracena, SP, para esse bate-papo. Acompanhe ele e seus projetos no Instagram: perfil pessoal @coelhoric, podcast @coelhocastoficial e loja @ricpecas.

Resumo do episódio

Ricardo Coelho começou a trabalhar aos seis anos carregando tijolos, cresceu em favelas de São Paulo, trabalhou como office boy numa empresa multimilionária, mudou-se para Junqueiroópolis e fundou a Ricardo Peças com apenas R$ 782,60 do FGTS, expandindo para duas lojas e um podcast local. O episódio mostra como ele transformou adversidades em oportunidades de negócio e como a saúde se tornou prioridade depois de graves problemas de saúde.

Principais aprendizados

  • Experiências de trabalho infantil moldaram a relação de Ricardo com dinheiro e responsabilidade desde cedo.
  • O reconhecimento das próprias limitações, como não ter jeito para consertar eletrônicos, levou ao redirecionamento para atividades onde tinha talento real.
  • Criar anúncio em plataforma digital com pouco investimento inicial permitiu validar a ideia de negócio antes de abrir loja física.
  • Crescimento acelerado trouxe perrengues incluindo dívidas de 86 mil reais em juros e conflitos de tributação que geraram aprendizado pela prática.
  • Descaso com a saúde durante anos de trabalho intenso resultou em diabetes, hipertensão e ganho de peso, tornando essencial repensar o estilo de vida.

Perguntas respondidas neste episódio

Como começar um negócio com pouco dinheiro?

Com R$ 782,60 do FGTS, Ricardo fez seu primeiro pedido a um distribuidor, convenceu o fornecedor a fechar a compra por R$ 1.200 com frete incluído e criou um anúncio no Mercado Livre. A primeira venda ocorreu em janeiro de 2013.

Quanto tempo levou para abrir a loja física após vender na internet?

Ricardo começou a vender peças de refrigeração no Mercado Livre em janeiro de 2013 e abriu a loja física em Junqueiroópolis em 2018, totalizando cerca de cinco anos.

Qual foi o principal obstáculo financeiro no crescimento da Ricardo Peças?

Um empréstimo gerou 86 mil reais em juros e uma fiscalização quase resultou em multa de R$ 200 mil por duas empresas funcionando no mesmo endereço, além de erros de tributação interestaduais.

Como a saúde de Ricardo foi afetada pelo trabalho intenso?

Trabalhando das cinco da manhã às dez da noite sem pausas, Ricardo chegou a pesar 134 kg, desenvolveu diabetes, hipertensão e ansiedade intensa. Perdeu cerca de 30 kg após perceber que não conseguia amarrar o próprio tênis.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.