Quando a soldado PM Amanda P. Murer entrou na piscina, em São Paulo, para a primeira prova do concurso de bombeiro, ela não sabia nadar, tinha medo de altura, e o bebê mais novo ainda mamava. Quando o 1º Tenente Tiago Caetano Poli prestou o mesmo concurso, anos antes, ele imaginava que passaria a vida na capital, e que a carreira militar seria uma entre as várias opções que conhecia desde a infância. Os dois são bombeiros do 14º Grupamento, com sede em Dracena, e juntos atenderam, em 2022, uma região que vai de Panorama a Santo Expedito, com postos em Oswaldo Cruz, Adamantina, Dracena e mais três cidades. A história, contada no episódio #182 do AdamiCast, em janeiro de 2023, é a de como se entra, se forma e se trabalha como bombeiro no interior de São Paulo, com 20 mil candidatos por vaga, prova de 100 metros na piscina, pórtico sobre dois prédios, e a frase que o capitão repete na formação: “se você não nasceu para servir, você não serve para ser bombeiro.”
Ao longo de mais de duas horas de conversa, Poli e Murer mostraram que a profissão de bombeiro, no Brasil, é menos sobre o heroísmo que aparece no cinema e mais sobre uma rotina de preparação, hierarquia e serviço. Eles descreveram o que acontece antes do alarme tocar, o que se faz em um dia sem ocorrência, e o que muda quando a ocorrência é em uma região de quase 100 km de extensão. Também contaram, sem rodeio, o que é ser mulher em um quartel que, até pouco tempo atrás, não tinha referência feminina, e como o trabalho de prevenção, que vai de análise de alvará a programa em escola, é o que evita, na maior parte do tempo, que a sirene toque. É a história de uma profissão que a molecada sonha, e que poucos chegam a viver.
Os dois caminhos até o quartel de Dracena
Poli cresceu em São Paulo, com a cabeça em ser empresário, até o pai, quando ele tinha 12 ou 13 anos, perguntar se ele já pensava em alguma faculdade, e sugerir, meio de passagem, a Academia do Barro Branco. “Você vai lá, vai fazer uma faculdade, vai ter o seu emprego, vai fazer uma coisa que você gosta, vai receber.” Poli topou. Tentou primeiro a Polícia Federal aos 17, mas não tinha o segundo grau completo na documentação. Entrou para a Polícia Militar, foi para a zona norte de São Paulo, passou por São Bernardo do Campo, Ipiranga, Franco da Rocha, e depois de quase 25 anos na capital, com a perspectiva de mais 15 pelo menos pela frente, fez uma conta de qualidade de vida. Olhou o mapa do estado, falou com a mãe e a irmã, topou com a mudança, e foi para Presidente Prudente. De lá, foi para Osvaldo Cruz, e desde dezembro de 2019 está em Dracena, onde o 14º Grupamento atende 12 municípios, e ele responde, em rodízio, por Oswaldo Cruz, Adamantina e a sede.
Murer veio de outro lugar. Cresceu sem nenhuma referência militar na família, sem nenhuma bombeira conhecida, e não tinha o sonho de infância. A cabeça virou quando uma amiga da adolescência, a Luana, começou a falar em prestar para o Barro Branco. A partir daí, ela passou a observar as mulheres da Polícia Militar que via na rua, e decidiu prestar. Fez faculdade antes, jornalismo e secretariado executivo, trabalhou em área administrativa, juntou dinheiro para o processo, e entrou para a Polícia Militar em 2014, com um filho de quatro anos e grávida do segundo. Ficou grávida no meio da formação, não tinha como ficar em São Paulo com dois bebês pequenos, e um colega já na corporação deu o empurrão: “Vai para o bombeiro, que tem vaga aqui na região, você vai, come e volta.” O detalhe que ela conta sem esconder é que ela não sabia nadar e tinha medo de altura.
Provas que testam o corpo, a cabeça e o espírito de corpo
Murer aprendeu a nadar em dois meses, treinando todos os dias, com o Gustavo da academia, e apoio de policiais que já estavam no curso. Quando chegou na data da prova, ela tinha que fazer 100 metros em 2 minutos e 30 segundos. Terminou em 2 minutos e 25, parou na borda, e não conseguia nem levantar os braços para sair da água. Um rapaz do quartel, que estava lá para auxiliar, puxou ela para fora, e ainda brincou: “E ainda quer ser bombeiro?” Ela continuou. Passou a prova da piscina, fez a subida na corda, a corrida, e chegou na prova de altura, o Pórtico, em que o candidato atravessa uma prancha sobre dois prédios, em fila indiana, sem poder parar. Foi em pé, arrastando o pé, devagar, e ela mesma diz que foi uma das mais lentas. Terminou. Entrou para o bombeiro, e voltou para a região, onde é uma das poucas mulheres a ocupar a função.
A formação é tão dura quanto a entrada. No curso do Barro Branco, o primeiro ano é interno, com saída só na sexta depois do almoço. O regulamento é em notas, todo mundo começa com 10, e qualquer atraso, falta leve, ou desatenção vai sendo anotado, até o aluno perder as saídas. O princípio que rege isso é o que eles chamam de espírito de corpo: se um aluno faz algo errado, todo mundo paga junto, porque em ocorrência, o time depende de cada um. “Você já percebeu como funciona, e aí tem uma semana de adaptação.” Poli explica que, para oficial, o curso hoje é de quatro anos, com mais de 40 disciplinas, e rotina de 8 a 10 horas por dia, com avaliação de desempenho a cada etapa. A frase do capitão, que ele repete várias vezes no episódio, é o resumo de tudo: “Se você não nasceu para servir, você não serve para ser bombeiro.”
O dia a dia: da passagem de serviço ao combate no Parque do Pei
Quando não há ocorrência, o dia começa às 7:30 da manhã, com a passagem de serviço, conferência de material, definição de quem fica em qual viatura, e o check-up dos veículos. Depois, é treinamento, atualização de lição, e preparação para qualquer chamada. Quando a ocorrência vem, a região é grande, de quase 100 km entre a ponte com o Mato Grosso do Sul e a divisa com Santo Expedito, e a central, em Dracena, atende 12 municípios. Murer explica que, no interior, o bombeiro faz muito mais do que apagar incêndio: atende emergência clínica, dá apoio a ambulâncias, faz trabalho de prevenção, e ainda corre contra o tempo, porque o tempo de chegada é o que vale. A pandemia, segundo ela, mudou a natureza das chamadas: “As pessoas ficaram mais confinadas em casa, então aumentou de aumentou o número de acidentes domésticos.”
Uma das marcas do episódio é o combate ao incêndio no Parque do Pei, com 9.000 hectares de vegetação, em pleno verão, com 41 graus na sombra. A farda, segundo Poli, funciona como um agasalho térmico, e o trabalho de combate ao fogo, com apoio de aviões que sobrevoavam a região, é o tipo de ocorrência que mistura risco, calor e improvisação. A equipe também citou o caso recente de uma loja de móveis na cidade, em que o proprietário, Amauri, disponibilizou a rede de hidrante própria para apoiar o combate ao incêndio em uma edificação vizinha, e evitou que o fogo se espalhasse. “O trabalho de prevenção está de uma maneira, ajudou no combate.” A operação, segundo Poli, é mais eficiente do que parece, e a maioria dos prédios não pega fogo justamente por causa da prevenção feita antes.
Mulheres no quartel, prevenção como missão e a frase que define
Murer lembra que, em Dracena, a primeira mulher a pisar no quartel foi a Sargento Trevisan, que chegou como soldado nos anos 1990, e que, no episódio, está prestes a ser a primeira Sargento feminina da cidade. Quando ela chegou, era um ponto turístico: as pessoas iam ao quartel só para ver a bombeira. Hoje, segundo ela, o número de mulheres no Estado de São Paulo ainda é muito menor que o de homens, e a relação é de igualdade, sem distinção em vagas ou tipo de prova, com pequenas diferenças operacionais, como o uso da perna na subida de corda, e o apoio de joelho na flexão. No resto do país, há estados com reserva de 10% das vagas para mulheres, mas, em São Paulo, a regra é uma só: o mesmo teste físico para todos. “Eu não sinto uma exclusão ou um preconceito dentro do meu ambiente de trabalho.”
A prevenção é o outro pé da profissão, e talvez o mais importante. Poli explica que, na região, o trabalho preventivo vai da análise técnica de alvará de edificações, com verificação de sistemas de segurança, ao programa Bombeiro Educador, que vai até as escolas da cidade para ensinar crianças a colocar botijão de gás para fora, ou não deixar eletrodoméstico ligado, para que elas conscientizem os pais. É o tipo de trabalho que não aparece no noticiário, mas que, segundo os dois, é o que mais salva. Foi em razão desse tipo de trabalho que a frase do capitão, repetida por Poli no episódio, virou mais do que lema: virou a definição do que se espera de quem escolhe essa profissão. “Se você não nasceu para servir, você não serve para ser bombeiro.” Os dois, com tempos e histórias diferentes, servem.
Onde encontrar
O 1º Tenente Tiago Caetano Poli e a Sd. PM. Amanda P. Murer integram o 14º Grupamento de Bombeiros, com sede em Dracena, e atendem a região que vai de Panorama a Santo Expedito, com postos em Oswaldo Cruz e Adamantina. Para acompanhar a rotina de trabalho, as especializações e a vida fora do quartel, siga o Tenente Poli no @tiagocpoli e a Amanda no @amandapmurer.
Resumo do episódio
O episódio #182 do AdamiCast conta a história de dois bombeiros do 14º Grupamento de Dracena: o 1º Tenente Poli, que veio da capital após quase 25 anos na Polícia Militar, e a Soldado Murer, que entrou para a corporação sem experiência militar prévia e superou medos como altura e falta de natação. Juntos descrevem as provas rigorosas do concurso, a formação dura no Barro Branco, o dia a dia na região de quase 100 km de extensão, e a importância crucial do trabalho de prevenção que evita que a maioria dos incêndios ocorra.
Principais aprendizados
- O concurso de bombeiro em São Paulo tem aproximadamente 20 mil candidatos por vaga e inclui prova de 100 metros na piscina e travessia em pórtico sobre dois prédios.
- A formação no Barro Branco é de quatro anos para oficiais, com mais de 40 disciplinas e rotina de 8 a 10 horas diárias, regida pelo princípio de espírito de corpo em que todos pagam pelos erros de um.
- Em São Paulo, homens e mulheres fazem o mesmo teste físico para entrar na corporação, sem reserva de vagas, com apenas pequenas diferenças operacionais.
- O trabalho de prevenção, que vai desde análise técnica de alvarás até programas educadores em escolas, é mais importante que o combate ao incêndio para evitar sinistros.
- A região de Dracena tem quase 100 km de extensão, abrangendo 12 municípios de Panorama a Santo Expedito, e o tempo de chegada é determinante na resposta a emergências clínicas e incêndios.
Perguntas respondidas neste episódio
Quanto é a prova de natação do concurso de bombeiro?
A prova de natação exige que o candidato percorra 100 metros em no máximo 2 minutos e 30 segundos. É uma das etapas que testam a resistência física dos candidatos.
Qual é a duração do curso de formação para ser bombeiro oficial?
O curso para oficial é de quatro anos, com mais de 40 disciplinas e rotina diária de 8 a 10 horas, incluindo avaliação de desempenho em cada etapa.
Como funciona o trabalho preventivo dos bombeiros no interior?
O trabalho preventivo inclui análise técnica de alvarás de edificações com verificação de sistemas de segurança e o programa Bombeiro Educador que vai às escolas ensinar crianças sobre segurança com gás e eletrodomésticos.
Qual é a exigência física da prova de altura para bombeiro?
O candidato deve atravessar uma prancha sobre dois prédios em fila indiana, sem poder parar, em uma prova chamada Pórtico que testa o medo de altura e o equilíbrio do candidato.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.