#371

De padre e freira a advogados e professores: a história de Valéria e José Leite | #371

29 de janeiro de 2025 • 8 min de leitura

Este texto vem do episódio #371 do AdamiCast

Tem histórias que desafiam qualquer roteiro esperado. Valéria Leite e José Leite chegaram ao AdamiCast como advogados, professores universitários e um casal insepáravel, os “vidinhas”, como são conhecidos entre amigos e alunos. Mas o caminho que os trouxe até aqui começa muito antes do escritório, das salas de aula e das bodas de prata que se aproximam: começa numa paróquia em Tupã, onde um padre e uma freira se encontraram e decidiram mudar tudo.

José viveu dez anos no Pará como seminarista e sacerdote, trabalhando em comunidades ribeirinãas a dezenas de horas de barco de Santarém. Valéria consagrou anos à vida religiosa, com votos já feitos. Quando os dois perceberam que sentiam algo diferente um pelo outro, a decisão de ficar juntos significou abrir mão de tudo que tinham construído, ministério, identidade pública, estabilidade, e começar literalmente do zero. Ele com 34 anos. Ela com 31. Uma havaiana gasta e uma sacola com o que cabia dentro.

Uma vida que cabia numa sacola

José Leite foi ordenado padre da Igreja Católica após dez anos de formação, entre o seminário no Pará e a diocese de Santarém. Era um estudioso dedicado, com meta de 100 páginas de leitura por dia durante o seminário, literatura brasileira, estrangeira, prêmios Nobel, filosofia, psicologia. Quando retornou ao estado de São Paulo, conheceu Valéria em Tupã, onde ela atuava numa paróquia e ele se preparava para se ordenar.

A decisão de deixar o ministério não foi rápida nem fácil. A família de ambos os conhecia como religiosos dedicados. A sociedade de uma cidade pequena notou. Os dois sofreram com o julgamento alheio. Mas o que pesou mais foi a virada prática: José saiu da vida sacerdotal sem patrimônio, sem conta em banco, sem emprego. A vida dele cabia numa sacola, como ele mesmo lembrou no episódio, e ele andava a cidade toda de chinelo havaiana furado, com camiseta de santo gasta, pesando 20 kg a menos. Valéria viu tudo isso e ficou. Isso é o que ela chama de amor.

O outdoor da Univen que mudou tudo

Casaram no civil em 2002. Naquela época, José ganhava meio salário mínimo dando uma aula por semana numa faculdade. Valéria abriu um salão de beleza, a única coisa que ela gostava de fazer naquele momento era mexer com cabelo, e começou a fazer escovas nas amigas enquanto tentavam se estruturar.

Foi um outdoor na entrada de Tupã que abriu o caminho. A Univen anunciava o mestrado em Direito, a primeira turma. José não tinha bacharelado em Direito, não era advogado, concorreu com juízes e advogados experientes da região, apresentou o projeto e passou. Frequentou todas as aulas apoiado na sólida formação filosófica e teológica que acumulara no seminário e foi o segundo da turma a defender a dissertação. A partir daí, oportunidades foram surgindo: aulas em Marília, em Rondônia, depois em Dracena na Faculdade Régis, além da Secretaria de Educação de Tupã. Com a carreira do marido ganhando corpo, Valéria fechou o salão e foi estudar.

Valéria e o direito de família: uma ferida que virou vocação

O percurso de Valéria até o Direito tem um episódio central que a marcou fundo. Ela e José, quando ainda não tinham filhos biológicos e vinham de uma formação voltada ao cuidado com o outro, queriam adotar. Cadastraram-se em cinco estados. Um casal de gêmeos em Bauru não deu certo. Depois, uma menina de Tupã: fizeram todo o processo de aproximação, levaram para casa, montaram quarto, apresentaram a filha para amigos e para a missa. Uma semana depois, o promotor informou que a destituição do poder familiar da mãe biológica não havia sido concluída. Tiveram que devolver.

Essa experiência, a burocracia, a falta de proteção à criança, o despreparo do sistema, foi o gatilho. Valéria entrou no curso de Direito determinada. Passou na OAB ainda no quarto ano. Abriu escritório. Fez mestrado e doutorado em direito de família. Sua monografia, sua dissertação e sua tese giram todas em torno de adoção. A menina que tiveram que devolver ficou mais sete anos abrigada antes de ser adotada por um casal de São Paulo. Valéria quis entender isso a fundo, e foi a fundo de verdade.

Dracena, a Régis e o retorno a Osvaldo Cruz

O casal viveu em Dracena por cerca de nove anos. José foi dirigir a Faculdade Régis e Valéria acompanhou, depois também ingressou na docência. Saíam de Osvaldo Cruz às cinco da manhã nas terças e quintas, passavam o dia dando aula, coordenando, advogando, e chegavam em casa à meia-noite. Fatigante na descrição, mas natural para os dois porque estavam juntos o tempo todo.

Hoje José coordena o curso de Direito na Régis de Osvaldo Cruz e Valéria coordena o Núcleo de Prática Jurídica e integra a Diretoria da OAB de Dracena. Os dois continuam advogando, dando aula manhã, tarde e noite e viajando juntos sempre que podem, incluindo escapadas de madrugada a São Paulo para tomar café no Mercãdo, como fizeram muitas vezes ao longo dos 26 anos juntos.

Disciplina, diálogo e a caixinha do nada

No episódio, José trouxe uma fala que parou a conversa: amor não segura ninguém junto. O que mantém um casal é disciplina e diálogo. Casar por paixão é frágil, a paixão passa. O que fica é a escolha de construir algo junto, de ter projetos comuns, de ceder sem deixar de ser quem se é. Valéria completa com bom humor: ela é do tipo que precisa de cronograma e almoça todo dia às 11h; ele é capaz de passar horas em silêncio absoluto, pensando em nada, o que ela ainda não consegue imitar depois de 26 anos tentando.

A história dos caciques indígenas que José hospedou em Santarém resume bem a filosofia dele: entre amigos, o silêncio é reverência. Só se fala alto diante do inimigo. Valéria ri e confirma que hoje já convive bem com o silêncio do marido. Quase.

Informação, conhecimento e o homem unidimensional

José é filósofo antes de ser advogado, e isso apareceu com força no episódio. Ele traçou a diferença entre informação e conhecimento: informação é saber que o tomate é uma fruta; conhecimento é não fazer salada de fruta com ele. Falou também sobre o perigo do homem unidimensional das redes sociais, aquele que consome sem filtrar, compartilha sem verificar e confunde convicção com argumento.

Foi uma das conversas mais densas já gravadas no AdamiCast. De padre e freira a doutores em Direito, de uma sacola com tudo que tinham a um filho em Niterói e 4.000 livros em casa, Valéria e José Leite mostraram o que acontece quando duas pessoas decidem, apesar de tudo, construir juntas.

Onde encontrar

Valéria e José Leite passam por Dracena, SP, toda semana para dar aula e advogar. Siga o casal nas redes sociais: Valéria em @valeriaaurelina e @valeria.leite.1804, José em @prof.joseleite, e o escritório em @lsb.advogados.

Resumo do episódio

Valéria e José Leite abandonaram a vida religiosa como freira e padre para reconstruir suas vidas do zero, aos 31 e 34 anos, com apenas uma sacola de pertences. Ao longo de 26 anos, conquistaram carreiras em Direito como advogados e professores universitários, enfrentando julgamentos sociais e estabelecendo relacionamento baseado em disciplina e diálogo. A trajetória revela como decisões corajosas e projetos comuns transformaram uma crise pessoal em construção sólida de vida profissional e familiar.

Principais aprendizados

  • Amor não segura ninguém junto; o que mantém um casal é disciplina, diálogo e a escolha contínua de construir algo junto com projetos comuns.
  • Um outdoor com anúncio de mestrado em Direito foi o catalisador que permitiu José ingressar no curso sem possuir bacharelado anterior, apoiado em sua formação filosófica e teológica do seminário.
  • O trauma de ter que devolver uma filha de sete anos durante adoção transformou-se em vocação profunda, levando Valéria a estudar Direito de Família com monografia, dissertação e tese todas sobre adoção.
  • A diferença entre informação e conhecimento é crítica: informação é saber que tomate é fruta, conhecimento é não usar tomate em salada de fruta.
  • Viver juntos o tempo todo, saindo de Osvaldo Cruz às cinco da manhã para dar aula em Dracena e voltando à meia-noite, funcionou porque ambos estavam sempre juntos em um propósito comum.

Perguntas respondidas neste episódio

Como uma pessoa ordenada padre ingressou no mestrado em Direito sem bacharelado?

José não possuía bacharelado em Direito quando concorreu ao mestrado, mas apresentou um projeto e passou na seleção, competindo contra juízes e advogados experientes. Sua formação sólida em filosofia e teologia acumulada no seminário foi determinante para acompanhar as aulas e se tornar o segundo da turma a defender a dissertação.

O que levou Valéria a escolher Direito de Família como especialização?

A experiência traumática de adotar e perder uma menina após todo o processo de aproximação, quando o promotor informou que a destituição do poder familiar não havia sido concluída. Essa vivência com a burocracia e despreparo do sistema foi o gatilho para estudar Direito determinada a compreender e transformar essa realidade.

Qual foi o impacto prático de deixar a vida religiosa para José e Valéria?

José saiu da vida sacerdotal sem patrimônio, sem conta bancária e sem emprego, pesando 20 kg a menos do que seu peso normal, usando roupas gastas e chinelo havaiano furado. Valéria abriu um salão de beleza fazendo escovas nas amigas enquanto tentavam se estruturar, ganhando ele meio salário mínimo dando uma aula semanal.

O que mantém um casal unido além da paixão, segundo José?

Disciplina e diálogo. A paixão passa com o tempo, mas o que fica é a escolha de construir algo junto, ter projetos comuns e ceder sem deixar de ser quem se é. O relacionamento funciona através da escolha constante de permanecer unido apesar das diferenças.

Ouça no Spotify ou assista no YouTube.

Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.