Quem é dracenense de longa data provavelmente já sentou à mesa da Massa Real num domingo de família, comeu uma esfirra no balcão antes de a pizza chegar, ou lembrou daquele lombo no abacaxi que ficou para a história. Kátia é o nome por trás de tudo isso, mas a história que precede a pizzaria é ainda mais fascinante: ela começou dentro de um navio, 41 dias navegando do porto de Hong Kong até Santos, em meados dos anos 1960, quando ela tinha menos de 7 anos de idade.
Nascida em Hong Kong, então colônia britânica, Kátia chegou ao Brasil com a família fugindo do avanço comunista na China continental. O destino planejado era o Canadá, mas o Brasil aceitava imigrantes com mais facilidade naquele momento. A família fez uma parada que se tornou definitiva. Ela cresceu em São Paulo, aprendeu a fazer pastel aos 8 anos no balcão do pai, e absorveu a culinária no sangue, sem curso, sem receita anotada: na observação, no paladar, na prática.
De Santos a Dracena: uma parada no ônibus que mudou tudo
A chegada a Dracena foi quase acidental. Em visita a parentes em Panorama, a família perdeu o trem e precisou pegar o ônibus. A parada foi em Dracena. A mãe de Kátia olhou para a Igreja Matriz e disse que a cidade era boa. Foi quase uma profecia. Em 1977, Kátia se mudou para cá com o marido e os quatro filhos. Já são quase 50 anos de Dracena.
Ela foi recebida com a curiosidade natural de uma cidade do interior que nunca havia visto uma imigrante chinesa dirigindo uma perua com quatro filhos pequenos. Houve estranhamento, algum preconceito inevitável, mas também muito acolhimento. Amizades que duraram décadas. Uma professora chamada Dona Guaraci, que a recebeu com paciência e carinho no primeiro dia de escola em São Paulo, ficou para sempre na memória afetiva.
O Garanhão, as esfirras e o começo de tudo
O primeiro negócio em Dracena foi o Garanhão, um lanchonete na praça onde hoje fica o Supremo. Ali do lado funcionava também o Cuca Fresca, e os dois dividiam o espaço e o movimento. Kátia lembra que chegava a vender de tudo, de rabo de galo a lanches variados, numa cidade ainda descobrindo seus gostos. Ali ficou 8 anos, testando, aprendendo o mercado, entendendo o que o povo dracenense queria comer.
Foi nessa fase que aprendeu a fazer esfirra com a sogra, cozinheira de origem libanesa que herdara as receitas da família. Aquelas esfirras, feitas com ervas do quintal, entraram para a memória afetiva de muita gente. Uma noite síria que organizaram juntas, com kibe e coalhada feitos do zero, é lembrada até hoje pelos que estiveram presentes.
A Massa Real, a pizza portuguesa e 34 anos na Avenida
Com a leitura de que a pizza crescia como tendência, Kátia apostou. Levou para a Avenida a sua experiência com massas, aperfeiçoada desde a infância nos pastéis do pai em Santo Amaro. A Massa Real foi a primeira pizzaria de Dracena com playground para crianças. A reforma que transformou o espaço virou um evento na cidade. Ali ficou 34 anos.
A pizza alla Sardegnara, com alcaparras, champignon, alho e manjericão, e a clássica portuguesa foram marcas da casa. O lombo no abacaxi, servido nas quintas de comida chinesa, entrou para a lenda: doce com salgado, apresentação no próprio abacaxi, um prato que muitos dizem nunca ter encontrado igual em outro lugar.
FAPIDRA, Alquimia Boutique, Boate Balua e o espírito de quem topa tudo
Kátia não parou na pizzaria. Na FAPIDRA, a grande feira agropecuária da região, ela trabalhou por 5 anos com uma barraca perto do palco, chegando a 16 horas de trabalho por dia. Dinheiro que ajudou a construir a casa, telha a telha. Ali serviu pizza e esfirra para públicos que viram shows de Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Roberto Carlos, que exigiu carro branco para circular pela cidade e acabou andando no Tempra da Kátia.
Além disso, abriu a Alquimia Boutique, uma loja de roupas onde chegou a fechar um quarteirão para fazer desfile. Comprou também a Boate Balua, que ficou pouco mais de um ano sob sua gestão. Cada negócio era uma aposta: chegava com energia, via o que funcionava, e quando não dava mais, vendia ou fechava e seguia em frente.
Quase 60 anos de Dracena, um pouco cansada, mas ainda na cozinha
Hoje Kátia está um pouco mais devagar por conta da saúde, mas não abre mão da pizzaria. Diz que só sai de casa para ir até lá. Conhece cada cliente pelo nome, personaliza os pedidos, retira cebola, troca ingrediente, prepara pizza para intolerantes à lactose com os próprios ingredientes que o cliente traz. A massa ainda é feita só com água e sal.
A filha Karina está em Fronteira, advogada e comunicadora. A Karen ficou em Dracena, trabalhou 14 anos no fórum como estenotipista antes de se dedicar ao comércio. Os filhos gêmeos ficaram pela cidade. Toda a família carrega o K no nome. A frase que Karina cita como lema da mãe resume bem: “O trabalho dignifica o homem. Bora trabalhar.”
Onde encontrar
Kátia e a Massa Real estão em Dracena, SP. Acompanhe pelo Instagram: @massareal76
Resumo do episódio
Kátia chegou a Dracena em 1977 após uma jornada de 41 dias em navio desde Hong Kong, fugindo do avanço comunista na China. Começou vendendo lanches no Garanhão, aprendeu a fazer esfirra com a sogra libanesa e fundou a Massa Real, primeira pizzaria da cidade com playground, onde permaneceu 34 anos. Sua história revela como a culinária aprendida na infância com o pai em São Paulo se transformou em negócios bem-sucedidos, incluindo participação na FAPIDRA, uma boutique e uma boate, sempre com o espírito de quem arrisca e se reinventa.
Principais aprendizados
- A culinária foi aprendida na prática desde os 8 anos, observando o pai fazer pastéis, sem cursos ou receitas anotadas.
- O Garanhão funcionou por 8 anos como espaço de teste para entender o mercado e os gostos da população local.
- A Massa Real foi diferenciada por oferecer playground para crianças, algo inédito em pizzarias de Dracena na época.
- O trabalho na FAPIDRA chegou a ocupar 16 horas diárias durante 5 anos e ajudou a construir patrimônio familiar.
- A adaptação de receitas para clientes com necessidades especiais, como intolerantes à lactose, mantém a relevância do negócio.
Perguntas respondidas neste episódio
Como a Massa Real se diferenciava das outras pizzarias de Dracena?
Era a primeira pizzaria da cidade com playground para crianças. Oferecia pizzas como a alla Sardegnara com alcaparras, champignon, alho e manjericão, e a portuguesa. O lombo no abacaxi, servido nas quintas de comida chinesa, era um prato único com apresentação no próprio abacaxi.
Como Kátia aprendeu a fazer esfirra?
Aprendeu com a sogra, que era cozinheira de origem libanesa e herdara as receitas da família. As esfirras eram feitas com ervas do quintal e marcaram a memória afetiva de muitos dracenenses.
Quanto tempo Kátia trabalhou no Garanhão antes de abrir a Massa Real?
Ficou 8 anos no Garanhão, testando e aprendendo o mercado, entendendo o que o povo dracenense queria comer antes de apostar na pizzaria como tendência crescente.
Por quanto tempo a Massa Real funcionou na Avenida?
A pizzaria permaneceu 34 anos na Avenida antes de Kátia se dedicar menos aos negócios devido a questões de saúde, mantendo-se ainda envolvida na operação diária.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.