Ana Helena Chiari é fonoaudióloga e fundadora da Criança que Cresce, clínica multiprofissional instalada numa casa colorida da rua Dom Pedro, no centro de Dracena, SP. No episódio 114 do AdamiCast, gravado em 5 de maio de 2022, ela contou ao Pedro e Mariana como construiu o espaçco depois de uma experiência pessoal com a filha Maria Flor, diagnosticada com uma deficiência que exigia terapia contínua em Presidente Prudente, a quase 200 km de distância. A trajetória semanal virou a base do projeto: atendimento humanizado, equipe multi, quintal com grama e brincadeira livre, inclusão de típicos e atípicos, e cultura de respeito à diferença.
O nome “Criança que Cresce” veio de uma brincadeira que começou com a Flávia, professora de musicalização que ajudou a tirar o projeto do papel. “Ficou eu gente com criança e criança grill, e de manhã acordei decidido: era Criança que Cresce”. Inaugurado em março de 2017, o espaçco fechou na pandemia e reabriu com a missão tripla de terapia, pedagogia e convivência — tudo no mesmo quintal. A equipe reúne terapeuta ocupacional, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudíloga e neuropedagoga, com atendimento de crianças de 0 a 5 anos, típicas e atípicas.
Da sala de casa ao sonho de incluir: a Maria Flor e as viagens a Presidente Prudente
Ana Helena conta que a inspiração veio da experiência com a filha caçula, Maria Flor, que tem uma deficiência que torna impossível fazer sozinha tarefas simples como comer e tomar banho. Nos primeiros anos de diagnóstico, a rotina da família era pegar o carro e ir a Presidente Prudente duas, três vezes por semana — a viagem era curta no mapa, mas drenava o corpo e o tempo da mãe. “Você deixava a menina em casa, saía cedo, marcava tudo no mesmo dia para não voltar, chegava às sete da noite. No dia seguinte, lá você tinha que dormir o dia inteiro pra recuperar”, lembra Ana Helena. Período sem fim à vista.
Foi nesse limite que começou a pensar em construir um espaço que reunisse terapia multiprofissional, equipe integrada e rotina familiar. O nome “Criança que Cresce” virou a marca de um jeito de cuidar que a própria Ana Helena sentia falta. “Eu queria escolher entre um atendimento de qualidade ou um atendimento humanizado — como se não pudesse ter os dois. A gente precisa dos dois”. A clínica multi nasce pra responder essa pergunta com estrutura.
Terapia, pedagogia e convivência: o tripé da clínica multi
A estrutura da Criança que Cresce é dividida em três áreas que conversam entre si. A parte terapêutica reúne terapeuta ocupacional, psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudíloga que atendem no mesmo espaço — o que permite discussão de caso em tempo real em vez do relatório por email que começa e não termina. “Cada profissional olha para um aspecto da criança. Quando eles conversam no corredor, sai um plano de verdade”, explica Ana Helena.
A parte pedagógica roda com neuropedagoga e pedagoga, e a parte de convivência e socialização é o que ela chama de “xodó” da casa. É o que diferencia a Criança que Cresce de uma clínica comum: em vez de criança entrar, fazer terapia e ir embora, ela fica a tarde toda — em horário de segunda, quarta e sexta — misturando com outras crianças de idade e perfis diferentes, inclusive com crianças típicas que vêm do bairro. “A socialização acontece na convivência, não na terapia”.
O quintal: chão quebrado, grama, horta e a volta do brincar tradicional
Uma das decisões mais marcantes foi arrancar o chão de cimento do quintal. Quando o dono do imóvel aceitou tirar o piso, a equipe mandou um cortador de concreto, tirou tudo e plantou um gramado. “Pô, a gente colocou grama. Hoje é um quintal cheio, árvores, horta, e a criança pisa na terra, brinca com galinha d’angola, replanta alface e couve”. Para Ana Helena, esse detalhe é terapêutico — e pedagogicamente forte: a criança volta a ter contato com a terra, sente o tempo de uma semente virar planta, aprende fazendo.
A parte clínica e o quintal funcionam integrados: “às vezes a terapia desce para o quintal, e a criança faz a sessão com a terra na mão. Quando dá errado, a gente passa pelo processo. Quando dá certo, é gratificante”. Ana Helena lembra de memórias da infância do avô, que toda semana entregava um legume diferente na casa da família, e reconhece que nem toda criança tem esse privilégio hoje. “A gente está tentando parcerias pra levar o Criança que Cresce pra fora do prédio: pra praça, mercado, parque, tudo o que a gente fazia quando era criança e que hoje não cabe no bolso dos pais”.
Típicos e atípicos juntos: a inclusão de verdade, e o caso da Maria Flor
Ana Helena é direta sobre o que entende por inclusão: não é ter criança com deficiência num canto e criança típica em outro. É misturar de verdade. “A criança típica aprende a conviver com a diferença, e a criança atípica aprende a conviver com o mundo. Os dois lados aprendem”. A Maria Flor, hoje com dois anos (nascida em 2020, em plena pandemia), não conviveu com outras crianças até chegar à Criança que Cresce — e o ganho foi imediato. “Ela olhava, aprendia observando a outra. Esse tempo sem socialização foi ruim, e agora a gente está correndo atrás”.
A história termina no aviso político que ela faz a cada palestra: a luta antimanicomial começa em casa. Lembra do caso da Margarida, uma mulher neurodivergente que, na infância da avó de Ana Helena, foi encontrada acorrentada num quartinho ao lado da casa e viveu anos num asilo porque a família não tinha estrutura. “As pessoas trancavam e escondiam. E aí ninguém fala sobre isso. Como você vai tratar se você esconde?”. A frase final ela repete como lembrete: “Cada criança tem o nome dela. Ela é muito mais do que um diagnóstico. Tem direito de existir como é, e precisa ser amada como é”.
Onde encontrar
A Criança que Cresce fica na rua Dom Pedro, no centro de Dracena, SP, numa casa colorida com quintal, gramado e horta. Atende crianças de 0 a 5 anos (típicas e atípicas), com equipe multiprofissional (terapia ocupacional, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia e pedagogia), segunda, quarta e sexta. Contato: @criancaquecresce (da clínica) ou @aninhahelenachiari (Ana Helena Chiari). A clínica está com vaga aberta para fonoaudíloga no momento da gravação.
Resumo do episódio
Ana Helena Chiari fundou a Criança que Cresce, clínica multiprofissional em Dracena que integra terapia, pedagogia e convivência para crianças típicas e atípicas de 0 a 5 anos. O projeto nasceu da experiência pessoal de levar a filha Maria Flor para terapia contínua a 200 km de distância, inspirando um modelo que mistura profissionais em tempo real, quintal com grama e horta, e socialização genuína entre crianças com e sem deficiência.
Principais aprendizados
- A inclusão verdadeira mistura crianças típicas e atípicas no mesmo espaço, para que ambas aprendam a conviver com a diferença e com o mundo.
- Equipes multiprofissionais integradas no mesmo espaço permitem discussão de caso em tempo real em vez de relatórios por email que não avançam.
- O contato com terra, plantas e animais no quintal é terapêutico e pedagogicamente forte, permitindo que crianças vivenciem o tempo e aprendam fazendo.
- Atendimento humanizado e de qualidade não são escolhas excludentes: a estrutura certa permite oferecer ambos simultaneamente.
- A luta antimanicomial começa em casa, questionando a prática de esconder e trancar pessoas com diferenças neurológicas ou deficiências.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o atendimento multiprofissional na Criança que Cresce?
A clínica reúne terapeuta ocupacional, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiologa e neuropedagoga no mesmo espaço. Cada profissional olha para um aspecto diferente da criança, e o diálogo entre eles no corredor resulta em um plano integrado de verdade, em vez de relatórios isolados por email.
Qual é a faixa etária atendida e qual a frequência de atendimento?
A clínica atende crianças de 0 a 5 anos, típicas e atípicas. O atendimento acontece segunda, quarta e sexta, com crianças permanecendo a tarde toda para misturar convivência, terapia e pedagogia no mesmo espaço.
Como o quintal é usado na terapia e educação das crianças?
O quintal possui grama, árvores, horta e animais. A criança pisa na terra, planta e colhe alimentos, aprende o tempo de uma semente virar planta. Às vezes a própria terapia desce para o quintal, com a criança fazendo sessão com terra na mão, vivenciando processo de aprendizado prático.
Como funciona a inclusão de crianças típicas e atípicas juntas?
Crianças típicas do bairro vêm conviver com crianças atípicas no mesmo espaço. A criança típica aprende a lidar com a diferença enquanto a criança atípica aprende a conviver com o mundo. A socialização acontece naturalmente na convivência, não isolada em terapia.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.