#431

Charles Gesso: 17 anos no drywall, do barracão do pai ao barracão próprio e o curso que vai mudar a mão de obra em Dracena | #431

18 de novembro de 2025 • 8 min de leitura

Este texto vem do episódio #431 do AdamiCast

Charles Domingues chegou para fazer gesso na casa de Pedro e Mariana e ficou vermelho quando Pedro tentou convencê-lo a gravar o podcast. Demorou meses para ele topar. Quando finalmente sentou, contou 17 anos dentro do ramo, o começo no fundo da casa do pai com água no joelho quando chovia, a primeira moldura feita numa mesa comprada com o que sobrou, os dois anos sofridos até engrenar por conta, e o sonho que está virando realidade: um curso de montagem de drywall para resolver de uma vez a falta de mão de obra na região. No episódio 431 do AdamiCast, o Charles Gesso falou de tudo isso, mais a história da lua do Milanês e o orçamento simbólico que ele nunca vai esquecer.

Com 14 anos, a mãe mandou correr atrás de serviço

A escola nunca foi para o Charles. Quando a situação ficou insustentável, a mãe foi direta: você prefere trabalhar ou estudar? Ele disse que queria trabalhar. Ela disse: então amanhã você sai daqui e corre atrás. No dia seguinte, com 14 anos, rodou a cidade de Dracena inteira e foi parar numa marcenaria. Ficou lá uns três ou quatro meses. Aí um primo que trabalhava com gesso chamou para trabalhar com um rapaz do ramo. O Charles topou e foi. “Até hoje tô na mesma profissão.” São 17 anos no gesso.

Cinco anos aprendendo, depois o vizinho chamou para um biquinho

Ficou trabalhando para aquele rapaz por volta de cinco anos, aprendendo do jeito que o chefe ensinava. Saiu com 19 para 20 anos. Estava em casa, sem obra, quando o vizinho perguntou se ele queria fazer um serviço pequeno. Foi. Deu interesse. Começou a trabalhar por conta. No começo era uma obra por mês e dois meses parado, porque ninguém conhecia. O pai cedeu o fundo do quintal. Comprou uma mesa para fabricar moldura. Ergueu um puxadinho ele mesmo, cobriu com telha que sobrou do dinheiro. Quando chovia, a água chegava no joelho. Às vezes tinha que trabalhar dentro da chuva para não perder o serviço. “Entrava um dinheirinho, comprava uma ferramentinha, comprava alguma coisinha.”

Dois anos balançando até engrenar de vez. Gratidão especial para Adair Caburé, construtor que já conhecia o serviço do Charles de obras anteriores e foi um dos primeiros a indicar. Parceria com Ricardo e Arte Home Center há 11 anos. Com o tempo virou barracão próprio, escritório, nota fiscal, CNPJ. “Hoje num raio de 80 km de Dracena não tem uma empresa de gesso montada igual a minha.” Quando o cliente compara preço com um concorrente informal, o Charles explica que trabalhar certo é mais caro no Brasil. No final, o que sobra para cada um pode ser parecido. Mas o custo estrutural é completamente diferente.

Do aramado com estopa ao drywall parafusado

Quando o Charles começou, o forro de gesso era feito com o sistema aramado. A cada 60 centímetros, furava a laje, passava um arame galvanizado, prendia num suporte em H, pegava gesso e estopa e ia tramando tudo à mão para travar as placas. Era pesado, demorado e sujo. “Antigamente a pessoa ia falar gesseiro, Deus me livre.” Hoje é estrutura metálica, placa aparafusada, tudo linear, tudo padronizado. Dois anos depois de trabalhar por conta própria, o Charles começou a estudar normas, comparar com o que fazia e perceber que estava fazendo errado. “Comecei a olhar certinho: cara, não era assim.” Foi atrás de cursos, fez um em Gaiauba com Renato do Estilo Aveia, conheceu pessoal do drywall e do steel frame. “Cara, Dracena hoje só faz assim. Você passa e vê o concorrente trabalhando da mesma forma.” Para ele, o lado bom foi ver os outros evoluindo também. Do lado menos bom, um ex-funcionário que montou negócio próprio e copia as frases que o Charles usa nas redes sociais. “Que Deus abençoe.”

O gesso 3D, o lixinho e a conta que não fechava

Quando o gesso 3D estourou na região, o Charles mergulhou de cabeça. As plaquinhas 30 por 30 com relevo chegavam fora de esquadro da fábrica. Todo mundo colava e deixava assim. Ele não aceitava. Pegou um taquinho de madeira, colocou uma lixa, e foi passando borda por borda para deixar tudo no mesmo plano antes de colar. O resultado era bonito. Mas enquanto o concorrente terminava em um dia, ele levava dois dias e meio. “Não dá para cobrar duas vezes e meia mais.” Começou a correr do estilo. Depois entrou o Luciandro com cimento queimado e marmorizado e o 3D foi perdendo espaço. Hoje a tendência é clean: cortineiro, sanca básica, sem detalhe chamativo. Para o Charles, ótimo. A montagem é a mesma, mas sem o perfeccionismo das peças em relevo.

A lua do Milanês e a notinha de R$ 400

Durante uma obra, o Luciandro chamou o Charles e pediu para deixar um espaço na parede para ele fazer uma lua com pintura especial. O Charles topou. O Luciandro disse que dava a lua de presente. Charles aceitou. A lua ficou bonita. Depois chegou uma nota de R$ 400 só de material. Charles questionou: mas você não ia me dar a lua? Luciandro explicou: mão de obra eu dou, material você paga. “Ficou bonito, ficou bem legal.” A parceria entre os dois é referência em acabamento na cidade.

Piso laminado entrou por falta de mão de obra

A ideia de trabalhar com piso laminado não partiu do Charles. Arquitetos e colegas perguntaram por que ele não fazia um curso, já que praticamente só existia uma empresa na região oferecendo esse serviço. Ele interessou, foi atrás do curso, o Santa Helena Home Center entrou como parceiro. Na casa de Pedro e Mariana foi o primeiro trabalho residencial com moradores dentro. Arrastar móvel, guarda-roupa, cama, cozinha em U com balcão de todos os lados. “Eu não acredito que ainda tô na sua cozinha.” Em três dias a casa estava pronta. O serviço comercial em ambiente vazio é muito mais tranquilo. Residencial com família morando é outra história. “Mas ficou bonito. Parece outra casa.”

Obra em Panorama: 500 m² de estrutura feita errado e o cara que sumiu

Num condomínio em Panorama, o Charles chegou para fazer quase 500 metros quadrados de forro de drywall e encontrou a estrutura inteira já montada pelo contratado anterior. Estava tudo errado. “Coisa horrível.” O cara tinha recebido metade do valor, montado a estrutura e desaparecido. O cliente não sabia que a estrutura estava comprometida. Acabou em processo judicial. O Charles foi chamado para testemunhar. Refazer é mais difícil do que começar do zero, e foi isso que aconteceu. “Eu falo para os meus meninos: vamos fazer certo porque o retorno é problema. Você sofre até para arrumar.”

Ferramenta é compra de tempo, e os meninos que tocam sozinhos

O Charles nunca parou de investir em ferramenta, mesmo quando a esposa estranhava ver o dinheiro voltando para a empresa. A lógica é simples: ferramenta reduz tempo de execução, e tempo é dinheiro. “O dinheiro é feito para comprar tempo.” A equipe hoje conta com o Alif, que está tocando sozinho uma obra de steel frame em Junqueirópolis, consultando o Charles por videochamada quando tem dúvida. “Ele é bem desenrola.” Também tem Diego e Wellon. A obra da Conecta Telecom em Andradina foi semana inteira fora de Dracena, fazendo forro e revestimento externo em steel frame de um prédio novo.

O curso que vai tirar o mercado do buraco

A falta de mão de obra qualificada é o maior problema da construção civil no interior. Quem assiste um vídeo no TikTok coloca uma ferramenta no bolso e se apresenta como profissional. O cliente aceita porque não tem opção. O serviço fica “bom” na visão do cliente, que é leigo. Três anos depois o teto cai. O Charles está articulando um curso de montagem de drywall no próprio barracão, em parceria com fornecedores e a indústria. A ideia é juntar turmas a cada dois ou três meses. Ele tem bagagem para ensinar e quer resolver o problema que prejudica todo o mercado. “Mão de obra não tem. Então a gente vai formar.”

Quando Pedro perguntou o que ele diria para o Charles de 14 anos no fundo do quintal fazendo a primeira moldura, a resposta foi curta: não desista. Vai ser difícil. Foi. Mas não desiste. O pai do Charles mantém um trailer de lanche na esquina da Loja Brasil há mais de 25 anos, ponto que Pedro frequentou desde moleque vindo de Flora Rica. O Charles trabalhou lá também. Hoje pensa em expandir a empresa, considera uma distribuidora de materiais no futuro, e dorme às 20h para acordar às 5h. O sonho ainda está em construção, igual às casas que ele entrega.

Resumo do episódio

Charles Gesso trabalha há 17 anos no ramo de drywall e molduras, começando aos 14 anos no fundo do quintal do pai com água no joelho quando chovia e evoluindo para uma empresa estruturada com escritório e CNPJ num raio de 80 km de Dracena. O episódio traça sua trajetória desde os primeiros cinco anos aprendendo, passando pelos dois anos iniciais de dificuldade como autônomo, a evolução técnica do aramado com estopa para o drywall parafusado moderno, histórias de parcerias e desafios como a obra errada em Panorama, e culmina com seu projeto de criar um curso de montagem de drywall para resolver a falta de mão de obra qualificada na região.

Principais aprendizados

  • A mãe do Charles foi direta aos 14 anos: escolha entre estudar ou trabalhar, e ele escolheu trabalhar no dia seguinte rodando a cidade.
  • Ferramenta é investimento em tempo de execução, e o Charles nunca parou de reinvestir na empresa mesmo quando a esposa questionava os gastos.
  • O sistema de drywall evoluiu do aramado com estopa manual para estrutura metálica com placa aparafusada, linear e padronizada.
  • Trabalhar formalmente é mais caro estruturalmente no Brasil, mas o resultado final pode compensar comparado ao trabalho informal.
  • A falta de mão de obra qualificada é o maior problema da construção civil no interior, levando a profissionais de TikTok que causam problemas três anos depois.

Perguntas respondidas neste episódio

Como começar a trabalhar com drywall sem formação?

Charles começou aos 14 anos trabalhando para um rapaz do ramo durante cinco anos para aprender, depois saiu por conta quando um vizinho o chamou para um serviço pequeno. No início era uma obra por mês e dois meses parado porque ninguém conhecia seu trabalho.

Qual é a diferença entre o drywall antigo e moderno?

O drywall antigo usava sistema aramado onde furava a laje a cada 60 centímetros, passava arame galvanizado e tramava gesso com estopa à mão. O moderno usa estrutura metálica com placa aparafusada, tudo linear e padronizado, sem o peso e a sujeira do método anterior.

Por que o Charles começou a trabalhar com piso laminado?

Não foi ideia dele, mas de arquitetos e colegas que perguntaram por que não fazia o curso já que só existia uma empresa oferecendo esse serviço na região. Ele se interessou, fez o curso com parceria do Santa Helena Home Center e começou os trabalhos residenciais.

O que o Charles planeja fazer para resolver a falta de mão de obra?

Ele está articulando um curso de montagem de drywall no próprio barracão em parceria com fornecedores e a indústria, com plano de juntar turmas a cada dois ou três meses para formar profissionais qualificados na região.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.