Quatro primos que tinham acabado de sair da faculdade voltaram para Junqueirópolis, no interior de São Paulo, e num churrasco de fim de semana apareceram com uma bola oval e a história que tinham trazido da faculdade, a de que era possível montar um time de rugby no interior. Desse churrasco, em 2010, nasceu o Bufallos Rugby Clube, que doze anos depois já tinha um time adulto jogando torneios regionais pelo interior de São Paulo e um time infantil com turmas de crianças a partir dos seis anos. A história foi contada por Dener Moraes, capitão e treinador do time adulto, e Rubens Felix, o Big, treinador do time infantil, no episódio #168 do AdamiCast, gravado em novembro de 2022.
Ao longo de quase duas horas de conversa, os dois mostraram que o rugby é muito mais do que o esporte de contato que a maioria das pessoas ainda estranha no Brasil. É um esporte com cinco pilares explícitos, integridade, solidariedade, respeito, disciplina e paixão, e uma comunidade pequena o suficiente para que os adversários de sábado voltem a ser parceiros de churrasco no domingo. É também, segundo Dener, um dos poucos esportes em que a cidade pequena não é desculpa para não competir, porque “cabe todo tipo de corpo”, do magrinho ao mais pesado, e cada posição exige um perfil diferente.
Do churrasco aos torneios: doze anos de rugby no oeste paulista
Os quatro primos fundadores do Bufallos trouxeram da faculdade a curiosidade e a bola, e o resto veio no boca a boca. O primeiro treino, ainda em 2010, aconteceu em um campo improvisado de Junqueirópolis, e a adesão inicial foi tão pequena que Dener, que tinha entre 14 e 15 anos na época, ficou um ano inteiro só treinando antes de entrar em campo pela primeira vez. Quando entraram, no entanto, não saíram mais. “Eu falei pra eles: eu vou ser titular. Não tinha como, eu ia entrar. Fui o maior pontuador daquele dia e nunca mais saí do time.” Hoje Dener é capitão e treinador do time adulto, e essa história virou parte do que ele conta para os mais novos começarem.
A evolução do clube foi lenta, mas constante. Os primeiros torneios terminaram em oitavo lugar, depois em sétimo, depois em quarto. O grande salto veio com a criação de uma rede de times parceiros em cidades vizinhas, Presidente Prudente, Três Lagoas, São José do Rio Preto, Assis e Catanduva, o que permitiu organizar jogos e torneios com regularidade. Hoje o Bufallos joga o Campeonato Paulista, o circuito regional e amistosos interestaduais com times de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. “A gente joga contra time que treina três vezes por semana e tem nutricionista. A gente só toma cerveja… mas a gente chega.” A frase de Dener, contada entre risadas, é também um resumo do que diferencia a comunidade do rugby do interior.
Sevens, cinco pilares e um esporte que cabe todo tipo de corpo
O Bufallos joga a modalidade Sevens, sete jogadores de cada lado, em dois tempos de sete minutos, com intervalo de dois, e campo do mesmo tamanho do rugby tradicional de quinze. É a vertente mais veloz e mais usada em torneios de fim de semana, e a que melhor se adapta à realidade de times pequenos do interior. As regras são simples, mas desconcertam quem chega: a bola só pode ser passada para o lado ou para trás, nunca para frente; o tackle só pode ser na linha da cintura para baixo; o try vale cinco pontos e vem sempre seguido de uma tentativa de conversão, um chute ao estilo do futebol americano, que rende mais dois. É o suficiente para que o jogo, na prática, vire uma corrida contínua de um lado para o outro do campo, com disputas acesas nos rucks e mauls.
Os cinco pilares do rugby, integridade, solidariedade, respeito, disciplina e paixão, não são discurso de cartaz. Eles aparecem em gestes concretos: o capitão é o único jogador que pode falar com o árbitro, e sempre com tratamento de “senhor”; o terceiro tempo, a confraternização com os adversários depois do jogo, é parte oficial do ritual; e a frase que Dener repete com orgulho, “o futebol é um jogo de cavaleiros jogado por bárbaros, o rugby é um jogo de bárbaros jogado por cavaleiros”, resume o ethos. É um esporte que, segundo ele, cabe todo biotipo: do ponta magrinho que só corre, ao hooker baixinho e forte que é o mais bravo do time, até o pilar grandão que avança com três adversários pendurados no corpo.
Big e o time infantil: rugby tag como porta de entrada
A segunda metade do bate-papo é dedicada ao projeto que Dener considera o mais importante do Bufallos, o time infantil, conduzido por Rubens Felix, o Big. Apóstolo da inclusão pelo esporte, Big dá aulas de educação física em Junqueirópolis, na escola Neide Macedo, e usa o rugby como ferramenta pedagógica para crianças de seis a onze anos. O formato usado com os pequenos é o rugby tag, no lugar do tackle, uma cinta de velcro presa na cintura que o adversário tem de arrancar para derrubar o portador da bola. Sem contato, a criança aprende a correr, a passar e a decidir em fração de segundo, sem o medo da pancada.
Os números do primeiro mês de treinos mostram a fórmula funcionando. No primeiro treino apareceram quatro crianças, no segundo, quinze, e algumas mães começaram a ligar perguntando se podiam levar os primos. “É um esporte que dá para a criança ter uma vitória rápida. No futebol, se a criança não chuta bem, não faz gol. No rugby, ela só precisa correr e colocar a bola no chão. Isso é um try. Isso é um ponto. Isso é alegria.” O trabalho já tem agenda: treinos aos sábados às 15h30 na praça Rafael Capelli, em Junqueirópolis, abertos a meninos e meninas, e um primeiro evento infantil marcado para 19 de novembro, no Centro Olímpico de Dracena.
O terceiro tempo e a família que o rugby constroi
Em mais de uma hora e meia de conversa, Dener volta várias vezes ao terceiro tempo, e isso não é por acaso. É ali, na confraternização depois do jogo, que a comunidade do rugby se consolida: o adversário que você acabou de dar uma entrada pesada vira a pessoa com quem você toma cerveja, troca ideia sobre próximo torneio e até marca amistoso. “O rugby aposenta a gente precocemente porque a gente vai tomando pancada, mas o que segura a gente no esporte é a amizade.” A frase poderia ser de qualquer modalidade, mas no Bufallos ela é quase uma declaração de princípio: os quatro primos que começaram continuam jogando juntos, e a maior parte do time adulto atual entrou por amizade, não por busca ativa.
O resultado é um clube com cara de família estendida. Quando o time foi vice-campeão de um torneio em Três Lagoas, a amiga que Dener tinha levado só para conhecer saiu convertida, chorou junto com a equipe, e voltou para casa impressionada com a energia do banco. “Ela falou: você vê a energia que tava no banco? É coisa de louco.” A própria Dani, esposa do Rubens, virou o que Dener chama de “a razão” do grupo, a pessoa que distribui água, tira foto de todo mundo, trata dos machucados, e que é tão parte do Bufallos que, segundo o marido, “se você casar com a gente, casa com o time também”.
Onde encontrar
O Bufallos Rugby Clube tem base em Junqueirópolis, SP, e mantém time adulto e infantil abertos a novos jogadores. O time infantil treina aos sábados, às 15h30, na praça Rafael Capelli, com entrada gratuita para crianças a partir dos seis anos. O time adulto treina em horário a combinar, e os jogos acontecem em fim de semana, em cidades como Dracena, Presidente Prudente, Três Lagoas, São José do Rio Preto e Catanduva. Para acompanhar a agenda, inscrições e bastidores, siga o Instagram do clube, @bufallosrugbyclube, e dos treinadores @dener_amaral e @rubensfelix.big.
Resumo do episódio
O Bufallos Rugby Clube nasceu em 2010 de um churrasco entre quatro primos que voltaram da faculdade para Junqueirópolis com uma bola oval e a ideia de montar um time no interior. Doze anos depois, o clube possui time adulto competindo em torneios regionais e time infantil com crianças a partir dos seis anos, funcionando como comunidade que valoriza os cinco pilares do rugby: integridade, solidariedade, respeito, disciplina e paixão. O esporte acolhe todo tipo de corpo e perfil físico, e consolida amizades através do terceiro tempo, a confraternização entre adversários depois dos jogos.
Principais aprendizados
- O rugby sevens funciona com sete jogadores de cada lado em dois tempos de sete minutos, com a bola passada apenas para o lado ou para trás, nunca para frente.
- A modalidade cabe todo biotipo, do ponta magrinho que corre até o pilar grande que avança com adversários pendurados no corpo.
- O rugby tag, modalidade infantil com cinta de velcro em lugar de tackle, permite que crianças aprendam a correr, passar e decidir em fração de segundo sem medo de pancadas.
- Os cinco pilares explícitos do rugby são integridade, solidariedade, respeito, disciplina e paixão, manifestos em gestos como o capitão ser o único a falar com o árbitro.
- O terceiro tempo, confraternização oficial com adversários depois do jogo, consolida a comunidade do rugby transformando rivais em amigos que se reúnem além do campo.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o rugby sevens?
O rugby sevens usa sete jogadores de cada lado em dois tempos de sete minutos com intervalo de dois minutos. A bola só pode ser passada para o lado ou para trás, nunca para frente. O try vale cinco pontos seguido de uma tentativa de conversão que rende dois pontos adicionais. O campo tem o mesmo tamanho do rugby tradicional de quinze.
Qual é o formato de rugby para crianças pequenas?
O rugby tag é usado com crianças de seis a onze anos e substitui o tackle por uma cinta de velcro presa na cintura. O adversário precisa arrancar a cinta para derrubar quem tem a bola, eliminando contato físico. A criança aprende a correr, passar e tomar decisões rápidas sem medo de pancadas.
Por que o rugby funciona bem em cidades pequenas?
Segundo o capitão do Bufallos, o rugby é um dos poucos esportes em que a cidade pequena não é desculpa para não competir porque cabe todo tipo de corpo. Cada posição exige um perfil diferente, do magrinho ao mais pesado. Além disso, a criação de rede de times parceiros em cidades vizinhas permitiu organizar jogos e torneios com regularidade.
Como funciona a comunidade do rugby além do campo de jogo?
O terceiro tempo é a confraternização oficial com os adversários depois do jogo, onde rivalidades se transformam em amizades. O adversário que você enfrentou pesadamente vira a pessoa com quem você toma cerveja e marca próximos torneios. Essa dinâmica consolida a comunidade e mantém os jogadores no esporte pela amizade.
Como começar no rugby tag infantil no Bufallos?
O time infantil do Bufallos treina aos sábados às 15h30 na praça Rafael Capelli em Junqueirópolis, com entrada gratuita para crianças a partir dos seis anos. No primeiro mês de treinos, o grupo cresceu de quatro para quinze crianças. O primeiro evento infantil foi marcado para 19 de novembro no Centro Olímpico de Dracena.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.