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Adriano Kashiura: 44 anos de judô, a academia mais antiga da federação e o Pan-Americano em Bogotá | #433

27 de novembro de 2025 • 10 min de leitura

Este texto vem do episódio #433 do AdamiCast

Adriano Kashiura entrou no judô com cinco para seis anos arrastado pelo pai. Ia chorando para o treino e voltava chorando da academia. Apanhava muito porque era maior que os outros da turma e treinava com uma turma mais avançada. Hoje tem 49 anos, é faixa preta, professor e o responsável por manter viva a academia de judô de Dracena, fundada em abril de 1957 por dois imigrantes japoneses, mais antiga que a própria federação. No episódio 433 do AdamiCast, Adriano contou os 44 anos de judô, o pacto que fez com Deus aos 17 anos antes de ganhar dos times contratados de Ourinhos e Marília, o Pan-Americano conquistado em Bogotá a 3.200 metros de altitude, o colega que abriu dez academias em Portugal e o sensei que perdeu na pandemia e o colocou à frente do departamento.

Arrastado pelo pai, apanhando dos mais velhos

O pai do Adriano foi atleta de beisebol. Quando chegou a hora de colocar os filhos em alguma atividade, o judô foi a escolha. Adriano tinha um porte maior que os outros da turma de iniciantes, então foi colocado para treinar com uma turma mais avançada. O resultado era previsível. “Fui muitas vezes pro judô arrastado. Meu pai me pegava pelo braço, meu pai me levava chorando.” Por muito tempo foi assim: ou ia chorando ou voltava chorando. Não foi amor à primeira aula. “Teve um tempo que ia chorando ou voltava chorando.” Naquela época não havia celular, o pai dizia que ia ficar e acabou. A saída era se acostumar.

Com o tempo, a queda foi virando aprendizado. “No judô a gente aprende primeiro a cair. Para depois a gente levantar. Cada queda faz com que a gente se levante mais forte sempre.” O esporte foi ficando por conta de dedicação, resultados e oportunidades. Quando perguntado hoje se considera que o judô entrou na sua vida, a resposta é direta: “O judô não entrou na minha vida, ele tá enraizado. Praticamente vida toda.”

A academia de 1957 e os pioneiros do judô dracenense

A academia de judô de Dracena foi fundada em abril de 1957 por dois imigrantes japoneses. É mais antiga que a própria federação. Adriano ainda pegou o final dos professores pioneiros antes de seguir carreira própria. Hoje mantém contato com uma das filhas de um dos fundadores. “Se existe hoje uma academia, se existe um professor hoje, é graças ao seu pai. Ele teve credibilidade lá atrás, teve um trabalho sério, muita persistência, muita disciplina para poder sustentar isso que tá aí hoje.” Os pioneiros que ele faz questão de nomear são o CC Toshinobo Tomyos, o CC Tariro Morita, o CC Eduardo Ride Tomos, o CC Aldo Miauch e o CC José Carlos Vendramim. A academia foi reformada mas a estrutura não mudou, para preservar a memória afetiva de quem passou por lá.

O professor que virou professor por acaso

Adriano não se preparou para ser professor de judô. Em outubro de 2020, no auge da pandemia, perdeu o sensei. O pessoal da DEC foi até ele: o departamento precisava de continuidade. O César Isaua, presidente do Taicô, tinha outras ocupações. Adriano não queria entrar pela porta do fundo. Conversou com todos antes de aceitar, inclusive com o sensei mais antigo, que foi direto: “Não, eu tô cansado, minha missão eu cumpri. A partir do momento que o Rideu partiu, eu já cumpri minha missão. Cabe a vocês tocarem.” Adriano sentou, ficou pensando. Até então treinava normalmente e conversava com o sensei nas terças e quintas enquanto ele ficava sentado no banco.

Quando assumiu, a primeira ideia foi trazer de volta o pessoal que um dia esteve ali e se afastou por questões profissionais. “Os dinossauros foram voltando, foram se animando.” Com os veteranos voltando, os pais foram acreditando. O trabalho foi de formiguinha, transparente, com prestação de contas mensal sobre competições e cursos. O primeiro faixa preta que formou no seu ciclo foi o Juliano Bertolini, que sobreviveu à COVID e voltou debilitado, com o mental muito abalado. Adriano fez o papel do chato: quando ele estava cansado, ia lá e cutucava. Nos cursos, ia junto para fazer a mediação com os professores. “A ideia era mostrar: se ele é capaz com as limitações dele, vocês também são capazes.”

Aos 17 anos, o pacto antes de bater os contratados

A passagem que mais marcou a carreira de Adriano aconteceu aos 17 anos, nos Jogos Regionais em Marília. A equipe de Dracena era de molecada. Ourinhos, Marília e Tupã vinham com equipes contratadas, muita gente que já tinha passado pela seleção brasileira. Na véspera das lutas, um colega chamado Aroldo, o Carioca, chegou até ele. “Ô Kashiura, você acredita?” Adriano disse que acreditava. O Aroldo foi direto: “Faz um pacto com Deus hoje, pede para ele que ele vai transformar sua vida amanhã.”

No outro dia, a primeira luta da chave foi contra Ourinhos. Dracena ganhou de três a dois. Depois veio Marília. Depois Tupã. Campeões. “Fui ficando incrédulo. Aí o Aroldo olhou para mim e falou: eu não te falei?” Foi aquilo que marcou. “Tenho campeonatos mais importantes, títulos mais importantes. Mas esse foi o divisor.” Tava com 17 anos. Faz mais de 30 anos. “Tá bem vivo na memória.”

Pan-Americano em Bogotá, altitude de 3.200 metros e chá de coca

Em 2024, Adriano foi para Bogotá disputar o Pan-Americano. A cidade fica a aproximadamente 3.200 metros de altitude. Logo na chegada, os avisos vieram dos que já conheciam: você vai ficar com a boca seca, você vai ficar com dor de cabeça. No segundo dia começou a sentir muita sede. Água, banheiro, água, banheiro. Depois veio uma leve dor de cabeça. O pessoal indicou chá de coca e outros recursos locais. Adriano se hidratou, se alimentou e quando parecia que ia piorar, já estava na hora de voltar. “Quando estabilizou, tava na hora de voltar.” O título pan-americano veio mesmo assim.

No México, no ano anterior, o Pan-Americano não aconteceu para nenhum brasileiro. Por questões políticas, nenhum atleta obteve visto, mesmo os que foram entrevistados tiveram negado. Adriano ficou três meses agendado sem nem ser chamado para entrevista. Em Bogotá, além do título, ainda assistiu à janela do hotel a uma maratona de 20 minutos de gente passando sem parar e conheceu o Rogério, de Belém do Pará, seu colega de quarto. O Rogério é andarilho profissional, fala inglês, espanhol e mais uma língua, e foi de Bogotá direto para Cartagena com a mochila nas costas. No final de 2024, Adriano soube que o Rogério tinha ido para Paris e voltado campeão mundial.

A faculdade em Araçatuba, 14 quilos a menos e a vida de atleta

O judô abriu o caminho para a faculdade. A Universidade Toledo em Araçatuba tinha interesse em formar equipes universitárias para o campeonato universitário, que é muito forte. Adriano foi convidado para um teste de um mês nas férias de julho. Ficou lá duas a três semanas treinando de manhã e à tarde, debaixo do zinco, com o kimono chegando a pesar 6 ou 7 quilos de suor. Quando voltou para casa, tinha perdido 14 quilos. O pai e a mãe conversaram com o professor. No ano seguinte, a proposta estava feita: alimentação, estadia e a faculdade de direito. “O que me interessava era a faculdade.” A vida de atleta nesse período era treinamento, janta e dormir. Chegava nas aulas de direito e apagava. Um professor que hoje é desembargador em São Paulo teve a delicadeza de deixá-lo dormir sem chamar atenção, apenas orientando como posicionar a cabeça para não roncar.

O Brasil no judô e o amigo que abriu academias em Portugal

O judô é o esporte olímpico que mais trouxe medalhas para o Brasil: 28 no total, sendo cinco ouros, quatro pratas e 19 bronzes. Em Paris 2024, o Brasil trouxe ouro no pesado feminino, prata no masculino até 66 kg, dois bronzes no masculino até 73 kg e no feminino até 57 kg, e ficou em terceiro no campeonato de equipes mistas, atrás de França e Japão. No máster, o Brasil briga medalha a medalha com a França e é considerado a melhor equipe master do mundo há três ou quatro anos. O país tem aproximadamente 2,5 milhões de praticantes e judô em todos os estados e no Distrito Federal.

Um dos amigos formados nos anos de treinamento foi para Portugal depois de um episódio de violência no Rio que o traumatizou. A esposa tem descendência portuguesa, os dois fizeram a prova de naturalização e estão em processo de se tornar portugueses. Ele foi como professor reconhecido, obteve visto provisório para trabalhar e levou mais dois judocas de Dracena para fortalecer a academia. Hoje tem entre cinco e dez academias em Portugal. “Se engana quem acha que você é amador. Você é profissional mesmo.”

Sensei Macaqueba, Aurélio Miguel e a tradição que passa por Dracena

A região tem um privilégio: o sensei Macaqueba, faixa vermelha nono Dan, formador de atletas olímpicos e chegando aos 80 anos. Foi ele quem formou o Thiago Camilo, medalha de prata em Sydney 2000 e bronze em Pequim 2008. Macaqueba ainda vai regularmente ao Japão buscar informação na fonte. “Com essa idade, a gente conversa com ele e ele é um dos poucos nono Dan da América do Sul.”

O primeiro campeão olímpico brasileiro no judô foi o Aurélio Miguel, em Seul 1988. Voltou a medalhista em Atlanta 1996. Adriano teve oportunidade de conversar com ele várias vezes ao longo da carreira e descreve uma mentalidade fora do comum. “Qualquer adversidade para ele não tem problema. Ele suporta. Não tem. Falou atleta.” Os atletas japoneses chegavam a se recusar a treinar com o Aurélio no Japão por medo do quanto ele era combativo. A academia de judô de Dracena guarda essa tradição: foi fundada antes da federação paulista, formou atletas que chegaram à seleção, e hoje tem como colaboradores o CC Ademar Vatanabe, o CC Juliano Bertolini, o CC Cláudio Tanigut e o Dinho.

A criançada de quatro anos e o princípio do benefício mútuo

Se pudesse escolher entre trabalhar com competição, com jovens ou com a criançada, Adriano largaria a competição para ficar com as crianças. “Ali também eu me divirto. Às vezes chego estragado, chego moído. Mas a energia que vem é muito grande. E eu aprendi muito. O que eu aprendi nenhum lugar me ensina.” Hoje atende a partir dos quatro anos. Certa vez, para conter um aluno hiperativo, sugeriu chamar a mãe por videochamada. O menino de quatro anos respondeu na hora: “Minha mãe não tá aqui.” Adriano mostrou o celular. O menino quietou.

O princípio que mais cobra dos alunos é o gita que oi, ou TEI, o princípio do benefício mútuo. “Não adianta você ser campeão, o melhor, o destaque, se todos aqui não estão evoluindo. Se você está evoluindo, é porque eles estão ajudando você também. O que vale para mim é a evolução do coletivo.” E o cobrado vai além do tatame: obediência em casa, respeito à avó, à mãe, ao pai, situação na escola. “A gente cobra o interno e cobra o externo. O externo às vezes chega a ser mais importante.” Quando um pai chega e diz que o filho melhorou de comportamento em casa, é o sinal de que o caminho está certo.

Resumo do episódio

Adriano Kashiura, 49 anos e faixa preta de judô, assumiu em 2020 a academia mais antiga da federação paulista, fundada em 1957 por imigrantes japoneses em Dracena. No episódio conta sua trajetória de 44 anos no esporte, desde ser arrastado ao judô pelo pai aos cinco anos até ganhar o Pan-Americano em Bogotá aos 3.200 metros de altitude, passando pelo pacto com Deus aos 17 anos que resultou em campeonato contra times contratados e sua filosofia de ensino focada no benefício coletivo.

Principais aprendizados

  • As quedas no judô são aprendizado que fortalecem o atleta a se levantar mais forte cada vez
  • A academia de Dracena foi fundada antes da própria federação paulista de judô, em abril de 1957
  • Adriano assumiu a direção da academia por necessidade quando o sensei faleceu na pandemia de 2020
  • O Pan-Americano em Bogotá enfrentou desafios de altitude de 3.200 metros mas resultou em título mesmo assim
  • O princípio do gita que oi ou benefício mútuo cobra evolução coletiva além do tatame, incluindo comportamento em casa

Perguntas respondidas neste episódio

Como foi o começo de Adriano no judô?

Adriano foi levado ao judô pelo pai aos cinco ou seis anos, apesar de resistência inicial. Ia chorando para o treino ou voltava chorando porque era maior que os outros iniciantes e treinava com uma turma mais avançada, apanhando dos mais velhos.

Quando Adriano assumiu a academia de judô de Dracena?

Adriano assumiu a academia em outubro de 2020 quando o sensei faleceu durante a pandemia de COVID-19. O pessoal da federação procurou Adriano para dar continuidade ao trabalho, pois o presidente do Taicô tinha outras ocupações.

Qual foi a experiência de Adriano no Pan-Americano em Bogotá?

Adriano disputou o Pan-Americano em Bogotá em 2024, enfrentando desafios de altitude de 3.200 metros que causavam sede e dor de cabeça. Usou chá de coca para se hidratar, se alimentou adequadamente e conquistou o título mesmo com os sintomas.

Qual é o princípio de ensino que Adriano mais cobra dos alunos?

O princípio do gita que oi, também chamado TEI, o benefício mútuo. Adriano cobra que os alunos evoluam coletivamente, não apenas individualmente, e que respeitem também fora do tatame, incluindo comportamento em casa e respeito à família.

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Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.