Quando Lauro Farina, de 19 anos, entrou pela primeira vez em um estúdio de tatuagem em Dracena, em 2022, ele não tinha uma única tatuagem no próprio corpo, e isso não era falta de vontade. Era respeito ao pai, um senhor perto dos 70 que nunca aprovou a profissão, e que sempre respondeu ao pedido do filho com a mesma frase: “Você não vai ser nada.” A história, contada no episódio #178 do AdamiCast, em dezembro de 2022, é a de um garoto de Santa Mercedes que repetiu de ano na escola, era da turma do Fundão, e que em vez de fazer faculdade de Artes, como o pai queria, usou a pandemia, o YouTube e a lei da reciprocidade para construir, do zero, a própria carreira de tatuador antes de completar 20 anos. Ele resume a trajetória com a frase que adotou como lema: a melhor vingança é o sucesso.
Ao longo de mais de duas horas de conversa, o Lauro mostrou que, em vez de talento isolado, o que sustenta um tatuador que está começando hoje é a combinação de três coisas que a geração dele tem e os mais velhos não tiveram: internet abundante, costume de produzir conteúdo, e coragem para ir a uma convenção online, pegar uma tatuagem de 19 horas na perna de um amigo, e postar a carícia inteira para quem quiser ver. O detalhe que define o episódio, e que ele conta sem esconder, é que até hoje, depois de mais de dois anos tatuando, ele não tem um desenho no próprio corpo. É uma escolha consciente, uma forma de respeito, e também, nas palavras dele, um pedaço do marketing que faz o negócio dele girar.
Escola era o Fundão, e a família já desenhava
Lauro cresceu em Santa Mercedes, cidade pequena vizinha de Dracena, em uma família em que o desenho sempre esteve em casa. A mãe desenha, faz pano de prato e fralda de boca pintada. O avô é pintor. Ele, desde pequeno, enchia o caderno de rabiscos, a ponto de a professora odiar a aula dele, porque enquanto os outros prestavam atenção, ele estava fazendo traço. Na escola, o histórico era outro: aluno da turma do Fundão, o Lauro era o primeiro a ser chamado quando dava problema, quase reprovou tantas vezes que ele mesmo perdeu a conta, e ouviu por anos a mesma frase, vinda dos colegas, dos professores e do próprio pai: “Você não vai ser nada.” Era o tipo de história que costuma terminar em um currículo de desenho de curral, e não em um portfólio de tatuagem.
A paixão pelo ofício, segundo ele conta, veio ainda na infância, nas viagens para a praia, vendo tatuadores de arena trabalhar. O pai nunca deixou fazer, e em uma dessas idas à praia, a mãe topou pagar um dragão pequeno no braço dele, com uns 8 anos. O pai viu, e pediu para tirar. O brilho sumiu, ele conta. “Falei, velho.” Anos depois, na mesma praia, o pai pagou a tatuagem da irmã, que já tinha 14. A justifica do pai, segundo ele, era direta: “Sua irmã mora sozinha, se sustenta, você ainda não.” Foi a deixa para o Lauro tomar a decisão que definiria a virada: sair de casa, se sustentar, e virar tatuador. A primeira inspiração profissional veio de um lugar improvável: o pai da namorada era tatuador, e quando o namoro começou, em 2019, ele viu ali a possibilidade concreta de entrar no mundo do qual sempre foi expulso.
A pandemia, o vídeo do Joel J e a planilha de estudos
2019 foi o ano em que o Lauro começou a desenhar de verdade, com objetivo, mas foi 2020, o ano da pandemia, que mudou tudo. Trancado em casa, sem aula, sem skate, sem muito o que fazer, ele assistiu a um vídeo do coach motivacional Joel J que o impacto até hoje. O Joel perguntava: “Qual vai ser a sua desculpa quando a pandemia acabar para você não ter mudado de vida?” A pergunta pegou, e o Lauro fez o que sabia fazer: sentou e montou uma planilha. Segunda ele estudava uma coisa, terça outra, quarta outra, e assim foi. Tudo o que tinha de graça na internet, ele foi buscar: técnicas no YouTube, aulas em PDF, transmissões ao vivo. “Eu aprendi tudo no YouTube, cara”, diz ele, sem esconder.
Em paralelo, ele descobriu um fenômeno que usa até hoje: tatuadores experientes costumam dar imersões gratuitas para vender cursos pagos depois, como parte do que ele chama de lei da reciprocidade. A estratégia do Lauro foi simples, e até um pouco ousada: entrou em todas as imersões que podia, absorveu o conteúdo das aulas, e só pagou quando efetivamente começou a tatuar. “Eu falei, não vou pagar ainda, porque eu não sou tatuador. Quando eu começar, eu pago.” Os cursos de tatuagem, segundo ele, custam entre R$ 4 mil e R$ 5 mil presenciais, mas ele optou pelos online, mais baratos, e foi complementando com o conteúdo gratuito. Foi o período em que ele passou a postar a evolução dos próprios desenhos no Instagram, e em que a Sâmia, cliente da mãe dele na cidade, indicou que ele fosse falar com o Marquinho, tatuador com 23 anos de carreira em Dracena, que o ensinou os primeiros traços e abriu as portas do estúdio.
A primeira rosa, 19 horas na perna do amigo e a reninha lavada
A primeira tatuagem de verdade que o Lauro fez foi uma rosa, na casa do amigo dele em São Paulo, depois de uma passada clássica pela Galeria do Rock para comprar o equipamento básico. Ele não tinha nada, reaproveitava agulha de pele artificial, e mesmo assim topou. O amigo não aguentou o tempo todo, ficou só o traço, e a rosa ficou inacabada. Um ano depois, o Lauro voltou, refez a rosa em uma hora, e então entendeu a diferença: não era dom, era prática. A tatuagem mais demorada que ele já fez veio logo em seguida, em uma convenção online: 19 horas seguidas na perna do amigo Vinícius, começando às 6:40 da manhã, depois de uma noite em claro para planejar. Ele gravou um vídeo no final, com a cara de cansaço estampada, e foi parar nas redes.
Tem também a história da reninha que viralizou pelo motivo errado. O Lauro passou 4 horas tatuando uma rena na perna de um amigo, na frente da casa dele, tomando tereré enquanto o outro deitava no chão. No final, antes de lavar, ele tirou uma foto com a tinta ainda em relevo. “Ainda bem que tirei a foto antes, porque eu errei a mistura e saiu tudo.” A piada visual que a foto proporcionou, uma tatuagem de 4 horas que se dissolve na lavagem, virou um dos BOs que ele mais gosta de contar. Outras histórias que ele conta com orgulho e sem filtro incluem a vez que tatuou o logo da Midea na bunda de um amigo de “mindset” durante um rolê em casa, e a vez que tatuou o que ele chama de chupacu, uma espécie de Chupacabra inventada para um grupo de amigos de uma chácara em Pauliceia, na bunda de duas pessoas diferentes, com a frase “chupa cu” ao lado para não deixar dúvida. São anedotas que o Lauro trata como histórias de trabalho, e não como casos isolados.
Marketing como tatuagem, tatuagem como marketing
Para o Lauro, o diferencial dele na região não é o traço, porque o traço se aprende, e sim a capacidade de transformar cada cliente em conteúdo. Ele sabe editar vídeo, mexer no Photoshop, e entende o algoritmo do Instagram e do TikTok como quem respira. Foi assim que a tatuagem de Luffy, o protagonista de One Piece, segurando a própria fimose, postada em um domingo qualquer, um dia depois de ter estreado o filme do anime, bateu 1 milhão de visualizações em menos de uma semana. “Falei, pronto, venci na vida.” O episódio mostra que, para a geração dele, o marketing não é um departamento, é parte do ofício. E o detalhe que sela isso, o fato de ele não ter nenhuma tatuagem no próprio corpo, virou parte do próprio marketing.
A escolha de não se tatuar, hoje, já não é mais só respeito ao pai. É uma posição de marca. “Sempre tento ganhar em cima de algum bo, não posso fazer tatuagem, então eu sou o tatuador sem tatu.” Ele tem várias ideias prontas no caderno, com o script todo definido, esperando a hora de poder fazer. Quando perguntado, ele diz que é uma questão de tempo, não de vontáo. Hoje, ele mora sozinho em Dracena, sustenta-se, paga boleto, paga a tatuagem dos outros, paga o próprio skate, e atende no estúdio do Marquinho ao lado da esposa do tatuador, a Eliara, construindo a própria carteira de clientes em uma faixa etária mais nova do que a do chefe. O próximo passo, segundo ele, é começar a se tatuar, com calma, e fazer com que o pai veja, mais uma vez, que o filho que repetiu de ano e desenhava no caderno não era um caso perdido, era um tatuador esperando a pandemia acabar.
Onde encontrar
Lauro Farina atende como tatuador em Dracena, no estúdio do Marquinho, e vive entre Santa Mercedes e a região, atendendo uma clientela nova que se identifica com a pegada mais leve e digital dele. Para acompanhar a rotina, os bastidores e os próximos projetos, siga o @laurofarina_.
Resumo do episódio
Lauro Farina começou a carreira de tatuador aos 19 anos sem nenhuma tatuagem no próprio corpo, transformando uma infância marcada por desaprovação familiar e repetência escolar em sucesso através da internet, criatividade de conteúdo e aprendizado autodidata durante a pandemia. O episódio revela como um garoto da turma do fundão usou YouTube, imersões gratuitas e marketing digital para construir um portfólio viral que ultrapassou 1 milhão de visualizações em uma única postagem, consolidando a profissão como tatuador em Dracena antes de completar 20 anos.
Principais aprendizados
- Tatuadores iniciantes hoje precisam combinar desenho com capacidade de produzir conteúdo para redes sociais, não apenas dominar técnicas isoladas.
- A lei da reciprocidade permite aproveitar imersões gratuitas de tatuadores experientes para absorver conhecimento antes de pagar por cursos especializados.
- Conteúdo viral em tatuagem depende de criar anedotas memoráveis e saber editar vídeo, mexer em Photoshop e entender algoritmos de Instagram e TikTok.
- Marketing não é um departamento separado para gerações digitais, mas parte integral do ofício e identidade profissional do tatuador.
- Prática consistente resolve diferenças de desempenho mais do que talento isolado, como demonstra a evolução entre a primeira rosa inacabada e o trabalho profissional posterior.
Perguntas respondidas neste episódio
Como Lauro aprendeu tatuagem sem fazer cursos pagos no início?
Ele assistiu vídeos no YouTube, estudou aulas em PDF, acompanhou transmissões ao vivo gratuitas e participou de imersões oferecidas por tatuadores experientes. Aproveitou a lei da reciprocidade, entrando em imersões gratuitas para absorver conteúdo antes de pagar pelos cursos quando já começou a tatuar.
Por que Lauro não tem nenhuma tatuagem no próprio corpo apesar de ser tatuador?
Inicialmente era respeito ao pai, que nunca aprovou a profissão. Com o tempo, virou uma posição estratégica de marca, permitindo que ele use a singularidade como diferencial de marketing, sendo conhecido como o tatuador sem tatuagem que sempre ganha em cima dessa característica única.
Como o vídeo da tatuagem de Luffy chegou a 1 milhão de visualizações?
Lauro tatuou Luffy segurando a própria fimose, postando no domingo, um dia depois do filme do anime ter estreado. O conteúdo viral aproveitou o timing do lançamento cinematográfico e a capacidade dele de transformar cada cliente em conteúdo através de edição de vídeo e entendimento de algoritmos.
Qual foi o papel da pandemia na trajetória de Lauro como tatuador?
A pandemia foi decisiva. Trancado em casa, ele assistiu a um vídeo motivacional que o impactou e criou uma planilha de estudos sistemática, buscando gratuitamente técnicas na internet. Foi o período em que começou a postar evolução de desenhos no Instagram e ganhou indicação para aprender com um tatuador experiente em Dracena.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.