Em janeiro de 2011, um grupo de amigos em Dracena, no interior de São Paulo, se reúne para decidir o nome de um coletivo novo de taiko. A escolha saiu de uma única pergunta escrita em vários pedaços de papel: “o que você sente ao estar tocando?”. A resposta que mais se repetiu, entre os primeiros integrantes, foi “coração puro”. Nascia ali o Grupo Seishin Daiko, e a história que os líderes César Kazumi Tabuse e Kenji Miyaguchi contaram no episódio #162 do AdamiCast, gravado em outubro de 2022, é justamente a de como esse “coração puro” virou uma campanha nacional e, depois, uma viagem para o Japão.
Ao longo de quase três horas de bate-papo, César, presidente do grupo, e Kenji, atual líder e instrutor, mostraram o que é preciso para manter um grupo cultural japonês vivo a 600 km de São Paulo, em uma cidade de cerca de 45 mil habitantes, e por que o taiko, antes de ser esporte, é uma forma de organizar famílias inteiras em torno de uma prática que eles consideram “corpo, arte, esporte e cultura” ao mesmo tempo.
O nome que veio de pedaços de papel e o “Daiko” que não é erro
Antes de qualquer apresentação, o Seishin Daiko precisava de um nome. A turma inicial escreveu em vários pedaços de papel o que sentia ao estar ali, e a expressão “coração puro” se repetiu mais vezes. Daí o “Seishin”, que em japonês carrega justamente esse sentido. Já o “Daiko” tem uma explicação mais prática: em português, “taikô” significa tambor, mas a pronúncia original japonesa, mais longa, foi adaptada pelos fundadores para ficar “Daiko”, no mesmo espírito de outras simplificações que a língua japonesa faz para se tornar mais fácil de falar.
O grupo nasceu em 15 de janeiro de 2011 e, desde o início, contou com a ajuda de dois instrutores de fora para dar os primeiros passos: Frank, de Marília, do grupo Kodô, e o mexicano Carlos Alberto Sabino, de Bauru. Em um fim de semana, eles vieram a Dracena ensinar o básico e, dali em diante, a turma começou a se organizar. César entrou pouco depois da fundação e, em 2016, assumiu a presidência pela primeira vez, cargo ao qual retornou em 2022, depois de um primeiro mandato de quatro anos. Kenji entrou ainda adolescente, aos 21 anos, e se tornou líder e instrutor depois de uma experiência que ele resume em uma frase: “eu era muito tímido, e o taikô me ajudou a me soltar.”
Do quarto lugar ao Campeonato Brasileiro em quatro anos
A primeira aparição do Seishin Daiko no Campeonato Brasileiro foi em 2014, na categoria Júnior, quando o grupo ainda tinha apenas três anos de existência. O resultado foi um quarto lugar, mas, como lembra César, aquilo já era muito mais do que se esperava. “Não era expectativa de pódio naquele ano, com três anos de grupo. Esse quarto lugar acendeu uma chama: a gente é capaz.” Em 2015, veio o primeiro título nacional, na categoria Mirim, com a garotada mais nova, e o grupo passou a acreditar de verdade na possibilidade de vencer.
Entre 2016 e 2017, o Seishin Daiko disputou a categoria Júnior com uma música chamada Hanami, inspirada no costume japonês de contemplar as cerejeiras, e foi vice-campeão nas duas tentativas. A derrota de 2017, em particular, foi especialmente difícil de digerir, porque boa parte dos tocadores daquele ano estava na última temporada permitida na categoria e não teria mais chance de ir ao Japão. Mas o grupo se reergueu, e em 2018 escreveu uma música autoral sobre a imigração japonesa na região de Dracena, com direito a café, trem, berrante e o som do entardecer no interior. O resultado foi o título brasileiro na categoria Júnior e a vaga para representar o Brasil no Japão em março de 2019.
A viagem para o Japão, o couro rasgado e o sexto lugar entre 60 grupos
A viagem ao Japão durou onze dias e rendeu uma experiência que os dois líderes tratam como definitiva. No campeonato, o Seishin Daiko competiu contra cerca de 60 grupos selecionados em todo o Japão, em um universo de mais de mil grupos japoneses, além de uma equipe forte de Taiwan. O Brasil, segundo César, já tinha alcançado um terceiro lugar com o grupo Colônia Pinhal em edições anteriores; o Seishin Daiko terminou em sexto. Mais do que o resultado, eles destacam o teste de palco no dia anterior, o treinamento com um professor japonês de nível um e a turnê por escolas brasileiras no Japão, onde apresentaram para crianças nascidas fora do Brasil que estão começando a se conectar com a cultura de origem.
Um dos momentos mais marcantes da história do grupo aconteceu justamente na decisão de 2018, no Brasil. João Paulo, um dos filhos de César e um dos tocadores, bateu tão forte no chimed que o couro do instrumento rasgou no meio da apresentação. Como a regra do campeonato não permite troca de instrumento, ele continuou tocando com o couro furado até o fim, com a placa virada para o público para não chamar a atenção dos jurados, e o irmão do outro lado do palco, que fazia o solo complementar, ajustou o andamento para compensar a diferença de som. O grupo foi campeão, e a história só foi contada depois, na festa da vitória. É o tipo de episódio que, para César e Kenji, resume a filosofia do grupo: improviso, confiança e comprometimento com o time.
Os quatro pilares e a frase que guia o grupo
Para explicar por que o Seishin Daiko consegue se manter há mais de uma década, César recorre a uma imagem que ele considera essencial: os quatro pilares. O grupo só funciona bem quando os pais, os tocadores, a diretoria e a dupla presidente e líder estão em harmonia. “Se algum deles tiver problema, dificilmente um grupo vai se sustentar.” No caso do Seishin Daiko, esse modelo aparece na prática: os pais ajudam a organizar logística, finanças e eventos, e a própria viagem ao Japão foi bancada em grande parte pelas famílias, já que a Associação Brasileira de Taikô cobre apenas parte das passagens.
A filosofia do grupo aparece em uma frase que Kenji diz ter aprendido com um dos instrutores e que tenta passar adiante: “antes de você ser um bom tocador, seja uma boa pessoa”. É o tipo de lema que, segundo ele, faz diferença especialmente com as crianças e adolescentes que começam a praticar a partir dos seis ou sete anos, alguns desmotivados ou com dificuldade de se encaixar em outros esportes, e que no taiko encontram uma rotina de disciplina, ensaios nos fins de semana e responsabilidades compartilhadas. Foi o que aconteceu com o próprio Kenji, que diz ter superado a timidez justamente ao assumir a liderança do grupo, e com vários dos outros garotos que hoje dividem palcos entre Dracena, o Brasil e o Japão.
Onde encontrar
O Grupo Seishin Daiko treina em Dracena, SP, onde foi fundado em 2011, e mantém uma agenda de apresentações regionais, nacionais e, eventualmente, internacionais. Em 2023, o grupo abriu inscrições para um novo núcleo de formação de tocadores, com o apoio do Colégio Objetivo, e está aberto a interessados de todas as idades. Para acompanhar a agenda, os campeonatos e a formação da nova turma, siga o Instagram @seishindaiko.
Resumo do episódio
O Seishin Daiko nasceu em janeiro de 2011 quando amigos em Dracena se reuniram para nomear um grupo de taiko, escolhendo "coração puro" como conceito norteador. Sob liderança de César Kazumi Tabuse e Kenji Miyaguchi, o grupo evoluiu de um quarto lugar no Campeonato Brasileiro em 2014 para campeão nacional em 2018 e representante do Brasil no Japão em 2019, conquistando sexto lugar entre 60 grupos selecionados. A história ilustra como manter uma prática cultural japonesa viva a 600 km de São Paulo através de harmonia entre pais, tocadores, diretoria e liderança, tratando o taiko como corpo, arte, esporte e cultura simultaneamente.
Principais aprendizados
- O nome Seishin vem da resposta mais frequente quando fundadores perguntaram o que sentiam ao tocar: coração puro, expressão que em japonês carrega esse sentido.
- O taiko reúne corpo, arte, esporte e cultura ao mesmo tempo, funcionando como disciplina que organiza famílias inteiras em torno de uma prática compartilhada.
- Um grupo cultural se sustenta quando há harmonia entre quatro pilares: pais, tocadores, diretoria e dupla de presidente e líder.
- A filosofia central do grupo resume-se em uma frase: antes de você ser um bom tocador, seja uma boa pessoa, especialmente importante para crianças e adolescentes que começam aos seis ou sete anos.
- O improviso, confiança e comprometimento com o time são valores demonstrados em episódios como quando um tocador continuou apresentando com instrumento danificado durante uma decisão de campeonato.
Perguntas respondidas neste episódio
Como o Seishin Daiko começou e qual é a origem do nome?
O grupo foi fundado em 15 de janeiro de 2011 quando amigos em Dracena se reuniram e escreveram em pedaços de papel o que sentiam ao tocar. A expressão mais frequente foi coração puro, que em japonês é Seishin. Daiko é a adaptação da pronúncia original japonesa de taikô, o tambor, feita pelos fundadores para facilitar a fala.
Qual foi a trajetória competitiva do Seishin Daiko até representar o Brasil no Japão?
O grupo estreou no Campeonato Brasileiro em 2014 com quarto lugar, conquistou o primeiro título nacional em 2015 na categoria Mirim e foi vice-campeão na categoria Júnior em 2016 e 2017. Em 2018, venceu o Campeonato Brasileiro com uma música autoral sobre imigração japonesa, conquistando a vaga para competir no Japão em março de 2019, onde ficou em sexto lugar entre cerca de 60 grupos selecionados.
Quais são os quatro pilares que mantêm o Seishin Daiko funcionando?
Os quatro pilares que sustentam o grupo são: os pais, que organizam logística, finanças e eventos; os tocadores; a diretoria; e a dupla de presidente e líder. Quando todos estão em harmonia, o grupo funciona bem, mas se algum deles tiver problema, dificilmente o grupo se sustenta.
O que faz com que crianças e adolescentes se adaptem melhor no taiko do que em outros esportes?
O taiko oferece uma rotina de disciplina, ensaios nos fins de semana e responsabilidades compartilhadas que ajudam crianças e adolescentes, especialmente aqueles desmotivados ou com dificuldade em outros esportes, a se encaixarem. A filosofia central do grupo, baseada na frase antes de você ser um bom tocador, seja uma boa pessoa, reforça valores que fazem diferença nessa trajetória.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.