Há pessoas que escolhem uma profissão, e há pessoas que são escolhidas por ela. Emilson José Rabelo pertence ao segundo grupo. Em 1999, aos 19 anos, ele foi contratado como auxiliar de coletor de sementes para um projeto de reflorestamento na USP de Ribeirão Preto, sem ter nenhuma experiência na área. Hoje, 25 anos depois, é especialista em produção de mudas nativas e sócio da Ambiental Mudas, em Araraquara, com capacidade de produzir 2 milhões de mudas por ano.
No episódio #357 do AdamiCast, Emilson veio até Dracena para uma conversa que rapidamente virou uma aula. De como escalar árvores com espora nos pés para colher sementes a 10 metros de altura até as preocupações com espécies que já não conseguem mais frutificar por causa das mudanças climáticas, ele mostrou que produzir uma muda nativa é muito mais do que plantar uma semente num tubete.
Tudo começa numa semente, mas não é tão simples
O ponto de partida do trabalho de Emilson é a coleta de sementes, e logo de cara ele derruba um mito: não dá para simplesmente chegar numa árvore e colher tudo. A regra é coletar no máximo um terço da produção, porque o restante pertence aos animais e à regeneração natural. E mesmo assim, para que a semente vire muda no viveiro, muitas vezes é preciso imitar o que a natureza faz sozinha.
Sementes de casca dura, como o Jatobá e o Flamboiã, precisam de um processo chamado quebra de dormência: sem ele, você planta mil sementes e não nasce nenhuma. Emilson explica as duas formas principais: a escarificação mecânica, que é lixar a casca semente por semente para fazer uma pequena abertura que permita a entrada de água, e a escarificação química, com ácido sulfúrico, usada em larga escala. Cada espécie tem seu tempo e seu método, e o viveiro trabalha com 150 espécies diferentes ao mesmo tempo.
Por que o reflorestamento precisa de 80 espécies diferentes
Reflorestar não é plantar árvores. É reconstituir um ecossistema, e isso exige diversidade. Emilson explica que dentro de uma floresta existe a chamada sucessão ecológica: há as pioneiras, que adoram sol e crescem rápido para criar sombra; as secundárias, que crescem na proteção delas; as tardias, como os Ipês, que vivem 200 a 500 anos; e as climáticas, que precisam de sombra e crescem devagar.
Por isso, um reflorestamento bem feito precisa de no mínimo 80 espécies plantadas juntas, em proporções que imitam a distribuição natural da floresta. Se você plantar uma espécie só, isso não é reflorestamento, é plantio comercial. Emilson ainda ressalta a importância das zoócoricas, árvores cujos frutos alimentam a fauna local, porque a floresta e os animais se constroem juntos.
De auxiliar a sócio: 25 anos construindo um viveiro
A trajetória de Emilson passou por três viveiros em cidades diferentes. Começou em Tambaú, onde ficou 9 anos, subindo de auxiliar a gerente. Depois foi para Iumbra, onde em um ano e meio levou um viveiro de 100 mil para 500 mil mudas. A virada maior veio quando foi contratado para montar do zero a Ambiental Mudas, em Araraquara, com uma demanda inicial de 200 mil mudas por ano. Em dois anos virou 500 mil. Depois chegou a 1 milhão. Hoje a capacidade é de 2 milhões de mudas anuais.
Essa escala impõe desafios logísticos que vão muito além da produção: uma muda pioneira leva de 4 a 6 meses para ficar pronta, e uma não pioneira leva de 8 a 12 meses. O viveiro precisa produzir o ano inteiro para vender só de outubro a março, que é a janela das chuvas. E cada uma das 80 ou mais espécies exige cuidados diferentes de irrigação, adubação e substrato.
Crédito de carbono, extinções e as preocupações de quem está no campo
Emilson acompanha a fenologia das árvores há 25 anos, e o que ele tem visto nos últimos anos o preocupa. Uma espécie que sempre produzia sementes entre setembro e outubro começou a produzir em junho. Outra, chamada Guaritá, uma aroeira de tronco cinza muito bonita, há mais de 5 anos dá flores abundantes mas não produz uma semente sequer. A hipótese é que o calor excessivo na época da fecundação causa um aborto total dos frutos.
Ele também nota que os pássaros chegam cada vez mais cedo às árvores para comer sementes, disputando com os coletores, o que sugere escassez de alimento na natureza. Para continuar produzindo espécies como o Jequitibá Rosa, Emilson chegou ao ponto de construir uma gaiola de sombrite para proteger as sementes plantadas dos pássaros. No mesmo tempo, um novo mercado cresce no horizonte: projetos de sequestro de carbono no Norte e Nordeste do Brasil estão aumentando a demanda por mudas nativas em estados que antes nem plantavam.
A parceria com jardins botânicos e as espécies em extinção
Além do viveiro comercial, Emilson tem uma parceria com o Jardim Botânico Araribá, em Amparo, que trabalha com o BGCI, organismo britânico que financia jardins botânicos ao redor do mundo. Nesse trabalho, ele entra nas florestas para identificar e mapear espécies, fazendo levantamentos de flora que vão embasar um futuro selo de qualidade para propriedades com reflorestamento diverso e saudável.
O BGCI também patrocina projetos de propagação de espécies em extinção ou vulneráveis, como o Pau Brasil, o Cedro Rosa, o Jacarandá da Bahia e o Pau Marfim, espécies que os viveiros comerciais não produzem porque o custo é inviável para o preço de mercado. Para Emilson, esse é o maior gargalo do setor: as espécies mais raras e difíceis de produzir são exatamente as que mais precisam de investimento externo para sobreviver.
Onde encontrar
Emilson José Rabelo é especialista em produção de mudas nativas e reflorestamento, sócio da Ambiental Mudas, em Araraquara, SP. A gravação do episódio foi realizada em Dracena, SP. Acompanhe o trabalho dele no Instagram: @emilsonjrabelo
Resumo do episódio
Emilson Rabelo, especialista em produção de mudas nativas, conta como evoluiu de auxiliar de coletor de sementes para sócio de viveiro com capacidade de 2 milhões de mudas anuais. O episódio revela que reflorestamento é reconstruir ecossistemas, não apenas plantar árvores, e explora os desafios reais do setor, desde técnicas de quebra de dormência de sementes até preocupações com mudanças climáticas que afetam a produção de espécies nativas.
Principais aprendizados
- A coleta de sementes segue uma regra: colher no máximo um terço da produção, deixando o restante para os animais e regeneração natural.
- Sementes de casca dura precisam de quebra de dormência através de escarificação mecânica ou química para germinar no viveiro.
- Um reflorestamento adequado exige no mínimo 80 espécies diferentes plantadas juntas para reconstituir um ecossistema de verdade.
- Mudas pioneiras levam 4 a 6 meses para ficar prontas, enquanto as não pioneiras levam de 8 a 12 meses, exigindo planejamento anual rigoroso.
- Espécies raras em extinção são inviáveis para produção comercial e dependem de financiamento externo como o do BGCI para sobreviver.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o processo de quebra de dormência de sementes?
Sementes de casca dura como Jatobá e Flamboiã precisam de quebra de dormência para germinar. Existem duas formas principais: a escarificação mecânica, que é lixar a casca semente por semente para fazer uma pequena abertura que permita a entrada de água, e a escarificação química, com ácido sulfúrico, usada em larga escala.
Por que o reflorestamento precisa de múltiplas espécies?
Reflorestamento reconstitui um ecossistema através da sucessão ecológica. Um mínimo de 80 espécies plantadas juntas em proporções que imitam a distribuição natural é necessário. As pioneiras crescem rápido criando sombra, as secundárias crescem sob proteção delas, as tardias vivem séculos e as climáticas crescem devagar na sombra.
Qual é o tempo de produção de uma muda nativa no viveiro?
O tempo depende do tipo de espécie. Mudas pioneiras levam de 4 a 6 meses para ficar prontas, enquanto mudas não pioneiras levam de 8 a 12 meses. O viveiro precisa produzir o ano inteiro para vender entre outubro e março, que é a janela das chuvas.
Quais são as preocupações atuais com as espécies nativas?
Mudanças climáticas estão afetando a fenologia das árvores. Espécies que produziam sementes em determinada época agora produzem em outros períodos. Algumas, como o Guaritá, dão flores abundantes mas não produzem sementes por causa do calor excessivo durante a fecundação, causando aborto dos frutos.
Como as espécies raras em risco de extinção são conservadas?
Espécies raras e vulneráveis como o Pau Brasil, Cedro Rosa, Jacarandá da Bahia e Pau Marfim são inviáveis para viveiros comerciais pelo custo. O BGCI, organismo britânico que financia jardins botânicos, patrocina projetos de propagação dessas espécies em extinção para garantir sua sobrevivência.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.