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Patrimônio vivo do samba: aos 79 anos, Mirandinha conta 60 anos de história do carnaval entre Prudente e Dracena | #079

06 de janeiro de 2022 • 9 min de leitura

Este texto vem do episódio #79 do AdamiCast

Mirandinha é Sebastião Alexandre de Miranda, mas no carnaval e nas rodas de samba do interior paulista ele responde só pelo apelido. Aos 79 anos, com fôlego de dar inveja a muito jovem, ele soma mais de 60 anos de história do samba entre a Alta Paulista e o Pontal do Paranapanema. Fundou a escola Acadêmicos da Vila em Presidente Prudente, foi intérprete oficial e compositor da Império da Vila, e há mais de 40 anos brilha no carnaval de Dracena.

A conversa do AdamiCast mostrou a história de quem saiu da lavoura de café no interior de São Paulo com uma sanfona de oito baixos na cabeça e foi aprendendo samba pelo rádio do Rio de Janeiro, no batuque de lata de tinta e balde, até virar um dos baluartes do samba paulista. Pai de família, ex-instalador da Telesp, e acima de tudo patrimônio cultural vivo da região.

Da lavoura de café ao batuque na lata: como o samba entrou na vida de Mirandinha

Mirandinha nasceu em Miracema, interior do Rio de Janeiro, na divisa com Minas Gerais. Com 1 ano de idade, a família veio pra São Paulo, em busca de trabalho na lavoura de café. O pai se estabeleceu em Regente Feijó, na região de Presidente Prudente, e o menino cresceu carpindo e colhendo os pés de café da região. Mas a música já estava lá, dentro de casa. O pai tocava sanfona de oito baixos, e ele ficava ouvindo as músicas sertanejas de raiz. O samba, esse, veio de outra forma: pelo rádio.

As rádios do Rio de Janeiro transmitiam os desfiles das escolas de samba e os sambas de terreiro, e o garoto ficou encantado. Com 12, 13 anos, qualquer lata virava instrumento. Lata de tinta, balde, o que tinha. “Qualquer coisa virava instrumento.” O primeiro samba veio aos 17 anos, um samba simples sobre o cotidiano da roça, a vida simples, o silêncio, o som dos pássaros, o entardecer. Já tinha poesia ali. “A vida na roça inspira muita poesia.” A partir daí, o samba virou o centro da vida dele.

Em Presidente Prudente, o samba virou escola: Acadêmicos da Vila e Império da Vila

No início da década de 1960, a família se mudou pra Presidente Prudente. Lá, Mirandinha encontrou um grupo de amigos da Vila Marcondes, bairro tradicional da cidade, que se reunia pra cantar, beber cerveja e fazer samba. A brincadeira ficou séria: o grupo fundou o bloco Alunos do Samba, que cresceu e virou a escola de samba Acadêmicos da Vila. Depois, ele foi pra outra escola da região, a Império da Vila, onde virou intérprete oficial e compositor de diversos sambas-enredo. “Ganhamos alguns carnavais lá.”

A época de ouro do carnaval prudentino acontecia na Avenida Manoel Goulart, com a rivalidade saudável entre as três grandes escolas da cidade. O samba-enredo mais marcante da carreira de Mirandinha em Prudente foi o da Império da Vila de 1974, cujo enredo era sobre a Inconfidência Mineira. “Aquele samba tinha uma melodia muito forte, e a avenida inteira cantou junto. Lembro até hoje da emoção de puxar aquele samba.” A música do carnaval prudentino daquela época era mais simples do que a de hoje, sem a tecnologia atual, mas com calor humano e paixão incomparáveis. “Antigamente era mais amor à camisa, sabe? A gente trabalhava o ano inteiro no barracão, costurando fantasia, colando papelão, fazendo as alegorias com o que tinha.”

A vinda pra Dracena em 1978: samba na mala, telefone na bagagem

Em 1978, Mirandinha veio pra Dracena a convite da Cotesp, a Companhia de Telecomunicações do Estado de São Paulo, que depois virou Telesp. Trabalhou muitos anos como instalador e reparador de linhas telefônicas, andando pelas ruas da cidade inteira. “Dracena estava crescendo, e eu andei muito por essas ruas instalando telefone.” Mas o samba não ficou pra trás. Logo que chegou, procurou onde tinha samba, conheceu o pessoal do esporte, do futebol, e começou a movimentar o carnaval local.

O carnaval de rua de Dracena, na Avenida Presidente Vargas, próximo à praça, era uma festa bonita. Tinha a escola da Vila Barros, a do Jardim Brasilândia, e desfiles memoráveis que reuniam o povo dracenense. Mirandinha ajudou a estruturar o carnaval na cidade, trouxe a experiência de Prudente, organizou ensaios, ensinou o pessoal a tocar na bateria, e compôs samba-enredo pra escola local. “O povo dracenense sempre foi muito acolhedor com o samba.” De lá pra cá, soma mais de 40 anos brilha no carnaval da cidade.

O samba de mesa: pandeiro, tantã, violão e cavaquinho

Fora do carnaval, o samba que Mirandinha mais gosta de fazer hoje é o de mesa, o samba de raiz, aquele acústico, com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho. Tocou muito no Dracena Tênis Clube (DTC), na Associação Bancária, no campestre, fazendo noites de seresta e rodas de samba. “Esse é o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto, interagem.” As referências dele são os grandes do samba carioca e paulista: Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, e com destaque pro Adoniran Barbosa, que ele considera o pai do samba paulista. “Aquele linguajar simples, mas de uma profundidade incrível. As pessoas se identificam na hora.”

Hoje, Mirandinha arranha no cavaquinho e no violão, mas o forte dele é percussão. Toca pandeiro, tamborim, surdo, e consegue tocar quase tudo numa bateria de escola de samba. O pandeiro é o companheiro de palco de sempre, e ele mostrou no AdamiCast que aos 79 anos o fôlego segue intacto. No currículo, mais de 100 composições, entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas, a maioria guardada na memória e em cadernos antigos. Nunca gravou profissionalmente, mas o pessoal tem cobrado, e um projeto de gravação está nos planos. “Dracena precisa desse registro histórico do meu talento.”

Aos 79 anos: o segredo da juventude

Quando perguntaram qual o segredo da vitalidade, Mirandinha respondeu sem floreio: “Não guardar mágoa de ninguém, viver a vida com alegria. Fazer o que gosta, que no meu caso é o samba.” A alimentação é simples: arroz com feijão bem temperado, bife acebolado, salada de alface. Comida caseira é a melhor que tem. E ele anda muito a pé por Dracena, o que ajuda a manter o fôlego. “A música alimenta a alma. Quando a alma está feliz, o corpo responde bem.” O samba, pra ele, é terapêutico. “Eu já tive momentos difíceis na vida, perdas na família, problemas de saúde, mas quando eu pegava o pandeiro e começava a cantar, a dor diminuía. O samba cura.”

A rotina dele inclui ensaiar, compor, participar de eventos, e tocar nas rodas de samba da cidade. A esposa, dona Maria, foi brava no começo com as saídas pra ensaio, mas acostumou e hoje é a maior fã e incentivadora dele. Os três filhos gostam de música e herdaram o gosto pelo bom samba, mas seguiram outras profissões. “Sem o samba, acho que eu não existiria. Seria mais difícil pra mim.”

A mensagem do Mirandinha: quem canta, seus males espanta

Mirandinha fechou o bate-papo com uma mensagem pros jovens que estão começando na música e pra quem está desanimado com a vida. Pra os jovens: “Não desistam dos seus sonhos. A música é um caminho lindo, mas exige dedicação, estudo e, acima de tudo, respeito pela arte e pelo público.” Pra quem está desanimado: “A vida é um sopro. A gente não pode perder tempo com tristeza ou rancor. Procurem fazer o que traz alegria pro coração de vocês. E cantem! Quem canta, seus males espanta. O canto liberta a alma e traz felicidade.”

Mirandinha é patrimônio cultural de Dracena e da região. Com mais de 60 anos de história, mais de 100 composições, passagens pela Acadêmicos da Vila e pela Império da Vila em Presidente Prudente, e quatro décadas no carnaval de Dracena, ele segue tocando pandeiro, cantando e encantando. O samba não tem tempo ruim, e Mirandinha tampouco.

Onde encontrar

Mirandinha está em Dracena, tocando em rodas de samba, eventos culturais e ensaios pela região. Pra acompanhar o trabalho dele, basta seguir o perfil no Instagram: @mirandinhasambistaa. O episódio completo do AdamiCast está no YouTube e no Spotify.

Resumo do episódio

Mirandinha, aos 79 anos, é compositor e intérprete que acumula mais de 60 anos de história do samba entre Presidente Prudente e Dracena. Saído da lavoura de café, aprendeu samba pelo rádio do Rio de Janeiro e batuque em latas de tinta, fundando a escola Acadêmicos da Vila e compondo para a Império da Vila antes de se mudar para Dracena em 1978 como instalador de telefones da Telesp. O episódio mostra como o samba estruturou sua vida, sua relação com a música de mesa e de carnaval, e como mantém vitalidade aos 79 anos através da alegria, dedicação ao samba e vida simples.

Principais aprendizados

  • O samba entrou na vida de Mirandinha pelo rádio do Rio de Janeiro que transmitia desfiles e sambas de terreiro, encantando o garoto na lavoura de café do interior paulista.
  • O primeiro samba foi composto aos 17 anos sobre o cotidiano da roça, inspirado pela vida simples, silêncio, som dos pássaros e entardecer.
  • O carnaval prudentino dos anos 1960 e 1970 funcionava com trabalho coletivo no barracão durante todo o ano, costurando fantasias e fazendo alegorias com materiais simples.
  • O samba de mesa, feito com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho, é considerado por Mirandinha o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto e interagem.
  • Mirandinha compôs mais de 100 sambas entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas, guardados em sua memória e em cadernos antigos, nunca tendo gravado profissionalmente.

Perguntas respondidas neste episódio

Como Mirandinha começou no samba saindo da lavoura de café?

Mirandinha nasceu em Miracema no Rio de Janeiro e aos 1 ano se mudou para São Paulo com a família em busca de trabalho na lavoura de café. O pai tocava sanfona de oito baixos, e ele ficou ouvindo músicas sertanejas em casa. O samba veio pelo rádio do Rio de Janeiro, que transmitia desfiles de escolas de samba. Com 12, 13 anos, usava latas de tinta e baldes como instrumentos, e aos 17 anos compôs o primeiro samba sobre a vida simples da roça.

Qual foi o samba-enredo mais marcante de Mirandinha em Presidente Prudente?

O samba-enredo mais marcante foi o da Império da Vila em 1974, cujo tema era a Inconfidência Mineira. A música tinha uma melodia muito forte e conseguiu fazer a avenida inteira cantar junto, deixando uma emoção duradoura na memória de Mirandinha.

Como era o carnaval de rua em Dracena quando Mirandinha chegou em 1978?

O carnaval de rua de Dracena acontecia na Avenida Presidente Vargas, próximo à praça, reunindo escolas como a Vila Barros e Jardim Brasilândia. Mirandinha ajudou a estruturar o carnaval na cidade, organizando ensaios, ensinando o pessoal a tocar na bateria e compondo sambas-enredo para a escola local.

Qual é o estilo de samba que Mirandinha mais gosta de fazer hoje?

O samba de mesa, acústico, feito com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho. Mirandinha tocou muito em clubes e associações da cidade, fazendo noites de seresta e rodas de samba. Para ele, esse é o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto e interagem.

Quantas composições Mirandinha tem no currículo?

Mais de 100 composições, entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas. A maioria foi guardada na memória e em cadernos antigos. Nunca gravou profissionalmente, mas um projeto de gravação estava sendo planejado.

Ouça no Spotify ou assista no YouTube.

Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.