Mirandinha é Sebastião Alexandre de Miranda, mas no carnaval e nas rodas de samba do interior paulista ele responde só pelo apelido. Aos 79 anos, com fôlego de dar inveja a muito jovem, ele soma mais de 60 anos de história do samba entre a Alta Paulista e o Pontal do Paranapanema. Fundou a escola Acadêmicos da Vila em Presidente Prudente, foi intérprete oficial e compositor da Império da Vila, e há mais de 40 anos brilha no carnaval de Dracena.
A conversa do AdamiCast mostrou a história de quem saiu da lavoura de café no interior de São Paulo com uma sanfona de oito baixos na cabeça e foi aprendendo samba pelo rádio do Rio de Janeiro, no batuque de lata de tinta e balde, até virar um dos baluartes do samba paulista. Pai de família, ex-instalador da Telesp, e acima de tudo patrimônio cultural vivo da região.
Da lavoura de café ao batuque na lata: como o samba entrou na vida de Mirandinha
Mirandinha nasceu em Miracema, interior do Rio de Janeiro, na divisa com Minas Gerais. Com 1 ano de idade, a família veio pra São Paulo, em busca de trabalho na lavoura de café. O pai se estabeleceu em Regente Feijó, na região de Presidente Prudente, e o menino cresceu carpindo e colhendo os pés de café da região. Mas a música já estava lá, dentro de casa. O pai tocava sanfona de oito baixos, e ele ficava ouvindo as músicas sertanejas de raiz. O samba, esse, veio de outra forma: pelo rádio.
As rádios do Rio de Janeiro transmitiam os desfiles das escolas de samba e os sambas de terreiro, e o garoto ficou encantado. Com 12, 13 anos, qualquer lata virava instrumento. Lata de tinta, balde, o que tinha. “Qualquer coisa virava instrumento.” O primeiro samba veio aos 17 anos, um samba simples sobre o cotidiano da roça, a vida simples, o silêncio, o som dos pássaros, o entardecer. Já tinha poesia ali. “A vida na roça inspira muita poesia.” A partir daí, o samba virou o centro da vida dele.
Em Presidente Prudente, o samba virou escola: Acadêmicos da Vila e Império da Vila
No início da década de 1960, a família se mudou pra Presidente Prudente. Lá, Mirandinha encontrou um grupo de amigos da Vila Marcondes, bairro tradicional da cidade, que se reunia pra cantar, beber cerveja e fazer samba. A brincadeira ficou séria: o grupo fundou o bloco Alunos do Samba, que cresceu e virou a escola de samba Acadêmicos da Vila. Depois, ele foi pra outra escola da região, a Império da Vila, onde virou intérprete oficial e compositor de diversos sambas-enredo. “Ganhamos alguns carnavais lá.”
A época de ouro do carnaval prudentino acontecia na Avenida Manoel Goulart, com a rivalidade saudável entre as três grandes escolas da cidade. O samba-enredo mais marcante da carreira de Mirandinha em Prudente foi o da Império da Vila de 1974, cujo enredo era sobre a Inconfidência Mineira. “Aquele samba tinha uma melodia muito forte, e a avenida inteira cantou junto. Lembro até hoje da emoção de puxar aquele samba.” A música do carnaval prudentino daquela época era mais simples do que a de hoje, sem a tecnologia atual, mas com calor humano e paixão incomparáveis. “Antigamente era mais amor à camisa, sabe? A gente trabalhava o ano inteiro no barracão, costurando fantasia, colando papelão, fazendo as alegorias com o que tinha.”
A vinda pra Dracena em 1978: samba na mala, telefone na bagagem
Em 1978, Mirandinha veio pra Dracena a convite da Cotesp, a Companhia de Telecomunicações do Estado de São Paulo, que depois virou Telesp. Trabalhou muitos anos como instalador e reparador de linhas telefônicas, andando pelas ruas da cidade inteira. “Dracena estava crescendo, e eu andei muito por essas ruas instalando telefone.” Mas o samba não ficou pra trás. Logo que chegou, procurou onde tinha samba, conheceu o pessoal do esporte, do futebol, e começou a movimentar o carnaval local.
O carnaval de rua de Dracena, na Avenida Presidente Vargas, próximo à praça, era uma festa bonita. Tinha a escola da Vila Barros, a do Jardim Brasilândia, e desfiles memoráveis que reuniam o povo dracenense. Mirandinha ajudou a estruturar o carnaval na cidade, trouxe a experiência de Prudente, organizou ensaios, ensinou o pessoal a tocar na bateria, e compôs samba-enredo pra escola local. “O povo dracenense sempre foi muito acolhedor com o samba.” De lá pra cá, soma mais de 40 anos brilha no carnaval da cidade.
O samba de mesa: pandeiro, tantã, violão e cavaquinho
Fora do carnaval, o samba que Mirandinha mais gosta de fazer hoje é o de mesa, o samba de raiz, aquele acústico, com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho. Tocou muito no Dracena Tênis Clube (DTC), na Associação Bancária, no campestre, fazendo noites de seresta e rodas de samba. “Esse é o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto, interagem.” As referências dele são os grandes do samba carioca e paulista: Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, e com destaque pro Adoniran Barbosa, que ele considera o pai do samba paulista. “Aquele linguajar simples, mas de uma profundidade incrível. As pessoas se identificam na hora.”
Hoje, Mirandinha arranha no cavaquinho e no violão, mas o forte dele é percussão. Toca pandeiro, tamborim, surdo, e consegue tocar quase tudo numa bateria de escola de samba. O pandeiro é o companheiro de palco de sempre, e ele mostrou no AdamiCast que aos 79 anos o fôlego segue intacto. No currículo, mais de 100 composições, entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas, a maioria guardada na memória e em cadernos antigos. Nunca gravou profissionalmente, mas o pessoal tem cobrado, e um projeto de gravação está nos planos. “Dracena precisa desse registro histórico do meu talento.”
Aos 79 anos: o segredo da juventude
Quando perguntaram qual o segredo da vitalidade, Mirandinha respondeu sem floreio: “Não guardar mágoa de ninguém, viver a vida com alegria. Fazer o que gosta, que no meu caso é o samba.” A alimentação é simples: arroz com feijão bem temperado, bife acebolado, salada de alface. Comida caseira é a melhor que tem. E ele anda muito a pé por Dracena, o que ajuda a manter o fôlego. “A música alimenta a alma. Quando a alma está feliz, o corpo responde bem.” O samba, pra ele, é terapêutico. “Eu já tive momentos difíceis na vida, perdas na família, problemas de saúde, mas quando eu pegava o pandeiro e começava a cantar, a dor diminuía. O samba cura.”
A rotina dele inclui ensaiar, compor, participar de eventos, e tocar nas rodas de samba da cidade. A esposa, dona Maria, foi brava no começo com as saídas pra ensaio, mas acostumou e hoje é a maior fã e incentivadora dele. Os três filhos gostam de música e herdaram o gosto pelo bom samba, mas seguiram outras profissões. “Sem o samba, acho que eu não existiria. Seria mais difícil pra mim.”
A mensagem do Mirandinha: quem canta, seus males espanta
Mirandinha fechou o bate-papo com uma mensagem pros jovens que estão começando na música e pra quem está desanimado com a vida. Pra os jovens: “Não desistam dos seus sonhos. A música é um caminho lindo, mas exige dedicação, estudo e, acima de tudo, respeito pela arte e pelo público.” Pra quem está desanimado: “A vida é um sopro. A gente não pode perder tempo com tristeza ou rancor. Procurem fazer o que traz alegria pro coração de vocês. E cantem! Quem canta, seus males espanta. O canto liberta a alma e traz felicidade.”
Mirandinha é patrimônio cultural de Dracena e da região. Com mais de 60 anos de história, mais de 100 composições, passagens pela Acadêmicos da Vila e pela Império da Vila em Presidente Prudente, e quatro décadas no carnaval de Dracena, ele segue tocando pandeiro, cantando e encantando. O samba não tem tempo ruim, e Mirandinha tampouco.
Onde encontrar
Mirandinha está em Dracena, tocando em rodas de samba, eventos culturais e ensaios pela região. Pra acompanhar o trabalho dele, basta seguir o perfil no Instagram: @mirandinhasambistaa. O episódio completo do AdamiCast está no YouTube e no Spotify.
Resumo do episódio
Mirandinha, aos 79 anos, é compositor e intérprete que acumula mais de 60 anos de história do samba entre Presidente Prudente e Dracena. Saído da lavoura de café, aprendeu samba pelo rádio do Rio de Janeiro e batuque em latas de tinta, fundando a escola Acadêmicos da Vila e compondo para a Império da Vila antes de se mudar para Dracena em 1978 como instalador de telefones da Telesp. O episódio mostra como o samba estruturou sua vida, sua relação com a música de mesa e de carnaval, e como mantém vitalidade aos 79 anos através da alegria, dedicação ao samba e vida simples.
Principais aprendizados
- O samba entrou na vida de Mirandinha pelo rádio do Rio de Janeiro que transmitia desfiles e sambas de terreiro, encantando o garoto na lavoura de café do interior paulista.
- O primeiro samba foi composto aos 17 anos sobre o cotidiano da roça, inspirado pela vida simples, silêncio, som dos pássaros e entardecer.
- O carnaval prudentino dos anos 1960 e 1970 funcionava com trabalho coletivo no barracão durante todo o ano, costurando fantasias e fazendo alegorias com materiais simples.
- O samba de mesa, feito com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho, é considerado por Mirandinha o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto e interagem.
- Mirandinha compôs mais de 100 sambas entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas, guardados em sua memória e em cadernos antigos, nunca tendo gravado profissionalmente.
Perguntas respondidas neste episódio
Como Mirandinha começou no samba saindo da lavoura de café?
Mirandinha nasceu em Miracema no Rio de Janeiro e aos 1 ano se mudou para São Paulo com a família em busca de trabalho na lavoura de café. O pai tocava sanfona de oito baixos, e ele ficou ouvindo músicas sertanejas em casa. O samba veio pelo rádio do Rio de Janeiro, que transmitia desfiles de escolas de samba. Com 12, 13 anos, usava latas de tinta e baldes como instrumentos, e aos 17 anos compôs o primeiro samba sobre a vida simples da roça.
Qual foi o samba-enredo mais marcante de Mirandinha em Presidente Prudente?
O samba-enredo mais marcante foi o da Império da Vila em 1974, cujo tema era a Inconfidência Mineira. A música tinha uma melodia muito forte e conseguiu fazer a avenida inteira cantar junto, deixando uma emoção duradoura na memória de Mirandinha.
Como era o carnaval de rua em Dracena quando Mirandinha chegou em 1978?
O carnaval de rua de Dracena acontecia na Avenida Presidente Vargas, próximo à praça, reunindo escolas como a Vila Barros e Jardim Brasilândia. Mirandinha ajudou a estruturar o carnaval na cidade, organizando ensaios, ensinando o pessoal a tocar na bateria e compondo sambas-enredo para a escola local.
Qual é o estilo de samba que Mirandinha mais gosta de fazer hoje?
O samba de mesa, acústico, feito com pandeiro, tantã, violão e cavaquinho. Mirandinha tocou muito em clubes e associações da cidade, fazendo noites de seresta e rodas de samba. Para ele, esse é o verdadeiro samba, onde as pessoas cantam junto e interagem.
Quantas composições Mirandinha tem no currículo?
Mais de 100 composições, entre sambas-enredo, sambas de terreiro e serestas. A maioria foi guardada na memória e em cadernos antigos. Nunca gravou profissionalmente, mas um projeto de gravação estava sendo planejado.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.