Tem profissões que chegam por escolha. Tem outras que chegam pelo berço, no sentido mais literal possível. Ivan Isidoro nasceu dentro de uma funerária, em Adamantina, numa família onde a mãe já trabalhava no ramo desde os 14 anos. Hoje ele comanda a Mutuária Dracenense, empresa pioneira em planos funerários na região. No episódio 461 do AdamiCast ele contou como tudo começou, por que inventou o plano funerário em Dracena antes de todo mundo, quase morreu de susto com uma charrete num posto de combustível e o que a pandemia mudou para sempre no jeito das famílias velarem os seus.
Você pode acompanhar o Ivan e a Mutuária Dracenense no Instagram em @ivanisidoro_ e @mutuariadracenense.
Nascido dentro de uma funerária
A mae de Ivan trabalhava num servico funerário em Pacaembu desde os 14 anos. Foi lá que conheceu o marido. Quando surgiu oportunidade de ir para Adamantina, onde o patrao morava, a família foi. E foi lá que Ivan nasceu, literalmente dentro do estabelecimento. “Nasci realmente dentro de uma funerária”, ele contou, rindo. Cresceu nesse ambiente, sem traumas, sem estranheza. Bullying? Existia. Tirava de letra.
O pai, com a família crescendo, decidiu voltar para Pacaembu e montar o proprio negocio. Ivan era o filho mais velho e foi aprendendo tudo ao lado do pai desde os 14, 15 anos. Naquela época nao havia tanatopraxia, nao havia ar condicionado, os velórios duravam 24 horas. Toda a preparacao do corpo era feita na mao, a família toda envolvida. O pai do Ivan hoje tem 85 anos e continua no ramo. A mae, dona Olívia, tem 75 e ainda atende em Panorama. O irmao cacula cuida da funerária de Junqueirópolis. A família toda no mesmo ramo, proxima.
O professor que mudou o rumo
Ivan estava fazendo faculdade em Dracena quando conheceu o professor Diógenes e contou um pouco da história: casado, com uma filha pequena, precisando crescer. O professor fez uma pergunta simples: “Por que nao Dracena?” A frase ficou na cabeca. Ivan conversou com a esposa, convenceu o pai a vender a empresa em Pacaembu e a família se mudou para Dracena em 1988. Montaram perto da igreja matriz. Os primeiros tempos eram de revezamento: Ivan ficava um dia, o pai voltava, depois trocavam.
A sacada do plano funerário
O grande diferencial que Ivan trouxe para Dracena foi o plano funerário. A ideia veio de uma visita a Araraquara, onde ele viu o conceito funcionando. O problema era claro: quando uma família perde alguém, raramente tem dinheiro reservado para isso. Dependia de prefeitura, de vaquinha de vizinhos, de favor. Ivan voltou com a ideia na cabeca, conversou com o professor, e lancou o plano em Dracena antes de qualquer concorrente.
Alem de garantir o servico funerário, o plano no comeco oferecia benefícios extras, como desconto em consultas medicas. Isso trouxe o cliente antes da necessidade, coisa raríssima num ramo onde ninguem pensa em “planejar” a propria morte. Os convênios com empresas da regiao ajudaram a divulgar. E assim o nome da Mutuária Dracenense foi crescendo numa cidade onde Ivan chegou sendo conhecido apenas pelo futebol de campo que jogava.
Historias da estrada que nao saem da memoria
Nos primeiros anos Ivan viajava muito para buscar corpos em Sao Paulo, Mato Grosso do Sul, Cuiabá. A van da funerária era uma caravana, sem a separacao exigida hoje pela vigilância sanitária. Ele dormia no caminho, deitado num colchao ao lado da urna, enquanto o motorista de confianca, o Valmir, dirigia.
Numa dessas viagens a Sao Paulo, trouxe junto a mae de um rapaz que teria que pegar onibus sozinha de volta. Ivan ofereceu carona, ela aceitou e veio deitada no colchaozinho. Ao parar num posto para abastecer, ele e o Valmir desceram ao banheiro e esqueceram completamente dela. O frentista, olhando para a caravana preta de funerária de madrugada, viu a mulher se mexer la dentro e deu o maior susto da vida. “Correu ate hoje”, Ivan contou rindo.
Outra vez, voltando de Jundiaí apos buscar um corpo, trouxe um filhote de pastor alemao que a prima lhe dera de presente, amarrado no step traseiro da van. Novo posto de combustível, novo susto: o cachorro latiu, o frentista fugiu. “Entrou no banheiro e nao saiu mais”, resumiu Ivan.
E ainda o episodio na volta de Cuiabá, mais de 1.200 km, quando o Valmir percebeu que nenhum carro vinha de frente na pista. Estrada bloqueada por indios com flechas. Ivan desceu para negociar pessoalmente com o chefe da aldeia. Liberaram depois de alguma conversa. “Um dos caras me cutucou com a flecha”, lembrou, sem abandonar o bom humor.
O acidente que parou a cidade e a pandemia que mudou tudo
Quando Pedro e Mariana perguntaram sobre o episodio mais marcante da carreira, Ivan lembrou de duas coisas. A primeira foi o acidente com estudantes nos anos 1991 ou 1992, quando um onibus com jovens da regiao se acidentou. A cidade parou. O IML local nao tinha estrutura para receber tantos corpos. Foi um momento que ficou gravado.
A segunda foi a pandemia. Ivan disse que chegou a se preparar para morrer porque sabia que ele e a equipe estariam na linha de frente. O funcionário Marcos se ofereceu para ir em todos os atendimentos para proteger os colegas. Uma funcionária que morou no fundo da Mutuária pegou Covid no inicio da pandemia e ligou em panico do pronto atendimento: “Me tira daqui que eu vou morrer de medo”. Ivan foi busca-la. O Marcos, que esteve em tudo, nao adoeceu ou foi assintomatico.
A pandemia tambem mudou de vez o comportamento das famílias. Os velórios que duravam 24 horas viraram coisa do passado. Hoje as famílias fecham o velório de madrugada e voltam de manha. Ivan admitiu que o proprio ramo incentivou essa mudanca, mesmo sabendo que diminui o retorno financeiro: menos horas de velório significa menos coroas, menos flores, menos tudo. “Estamos ficando um pouquinho mais frios”, disse ele, ponderando.
A equipe que cresceu junto
Ivan tem funcionários que entraram com ele desde os 13 anos e estao la ate hoje. O Marcos cuida do atendimento ao publico, o Valmir aposentou depois de décadas de viagens, o Everton assumiu as estradas longas e ainda posta a rota no story enquanto dirige. “Coloca tudo no status, Castelo Branco, estamos chegando”, Ivan descreveu, rindo.
A empresa expandiu alem de Dracena. O irmao cacula esta em Junqueirópolis, o pai e a mae ainda atendem em Panorama. A Mutuária tem parceria com o crematório Kardácio de Aracatuba ha mais de 20 anos, e mais recentemente com o novo crematório de Presidente Prudente. Atende pedidos de todo o estado e de outros, como o caso recente de um familiar em Manaus que precisava trazer o corpo ate Campinas para embarcar.
O futuro e o cemiterio de Dracena
Antes de encerrar o bate-papo rolou uma discussao franca sobre o cemiterio de Dracena. Ivan estima que o espaco restante se esgota ate o final do ano. Muitos tumulos estao abandonados, famílias que nao voltam mais, geracoes que perderam o hábito de ir no Dia dos Finados. O poder publico tem receio de mexer no assunto, ele reconhece, porque quem tomar a decisao de reaver tumulos abandonados vai enfrentar critica. “Nao existe politico que se reeleja mexendo nisso”, Pedro comentou. “Exato”, concordou Ivan.
A solucao no horizonte e combinacao de mais espaco, mais cremacao e talvez cemiterio vertical, conceito que ja existe em Aracatuba e nos grandes centros. Ivan ve a cremacao crescendo rapido na regiao. O cemiterio vertical elimina o problema do lencol freatico e usa espaco para cima. “A geracao que vem ja aceita essa modernidade”, ele disse.
Entender para atender
Ivan fechou o papo com uma reflexao que aparece com frequencia na rotina de quem trabalha no ramo funerário: a família so se encontra no velório. As pessoas arrumam tempo para dar o ultimo tchau, mas enquanto o parente esta vivo nao ligam, nao visitam, nao aparecem. “Eu acho que se voce tiver a oportunidade de estar com quem voce gosta, esteja em vida”, ele disse.
O lema da Mutuária Dracenense, lembrado por um funcionário ao vivo no chat durante o episodio, e simples: entender para atender. Nao e fácil trabalhar no pior momento de uma família. Mas é exatamente por isso que a equipe treinada, comprometida e de longa data faz a diferenca. Como disse um cliente no chat durante o programa: “O trabalho da Mutuária foi muito importante na perda do meu irmao. Um zelo e uma preocupacao com a família que fez toda a diferenca nessa hora tao difícil.”
Resumo do episódio
Ivan Isidoro nasceu dentro de uma funerária em Adamantina e hoje comanda a Mutuária Dracenense, pioneira em planos funerários na região. Ele traz a história de como uma sugestão do professor Diógenes o levou a Dracena em 1988, como implementou o conceito de plano funerário antes da concorrência e como a pandemia transformou permanentemente os velórios locais, encurtando durações e mudando comportamentos das famílias.
Principais aprendizados
- O plano funerário surgiu da observação de que famílias raramente têm dinheiro reservado quando perdem alguém, dependendo de prefeitura ou ajuda de vizinhos.
- Oferecer benefícios extras como desconto em consultas médicas no plano funerário trouxe clientes antes da necessidade, algo raro no ramo.
- A pandemia reduziu permanentemente a duração dos velórios de 24 horas para períodos noturnos apenas, diminuindo a receita de coroas e flores.
- O cemitério de Dracena terá espaço esgotado até o final do ano, com muitos túmulos abandonados por famílias que não retornam.
- Cemitérios verticais e cremação estão crescendo na região como solução moderna para problemas de espaço e lençol freático.
Perguntas respondidas neste episódio
Como surgiu a ideia do plano funerário?
A ideia veio de uma visita a Araraquara onde Ivan viu o conceito funcionando. Ele identificou o problema central: famílias sem dinheiro reservado para despesas funerárias dependem de ajuda da prefeitura ou de vizinhos. Ao retornar para Dracena, conversou com o professor Diógenes e lançou o plano antes de qualquer concorrente.
Quando a Mutuária Dracenense foi fundada?
Ivan se mudou para Dracena em 1988 com a família e montou a funerária perto da igreja matriz. Os primeiros tempos envolveram revezamento entre ele e seu pai até que a operação se estabilizasse.
Como a pandemia mudou os velórios em Dracena?
Os velórios que duravam 24 horas se tornaram coisa do passado. Atualmente as famílias fecham o velório de madrugada e voltam de manhã, representando uma mudança permanente no comportamento mesmo que diminua a receita com coroas e flores.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.