O episódio 310 do AdamiCast recebeu um casal que respira música há décadas em Dracena: Ellen Rose e Murphy, responsáveis pela Instituição Artística Guiomar Novaes, o conservatório que a cidade toda conhece pelo nome da pianista homenageada. Entre histórias de carreira, casamento, carnaval de rua e uma vida inteira dedicada ao ensino musical, os dois contaram como a música se tornou não apenas profissão, mas identidade.
Quem foi Guiomar Novaes e por que o nome importa
Ellen Rose abriu explicando a origem do nome da escola. Guiomar Novaes foi, segundo ela, “a maior pianista brasileira que fez uma carreira internacional, numa época em que as mulheres tinham pouca visão”. Nascida em São João da Boa Vista, mesma cidade natal de Ellen, Guiomar viveu principalmente nos Estados Unidos, tocou no Carnegie Hall e foi reconhecida, segundo relatos citados por Ellen, inclusive pelo maestro João Carlos Martins, como uma das melhores pianistas do mundo em sua época, especialista em Chopin. “Infelizmente essa carreira não tá na mídia, não se fala muito disso”, lamentou Ellen, que decidiu batizar sua escola com o nome dela como forma de resgatar essa memória.
De São João da Boa Vista e Caetité até Dracena
As trajetórias dos dois até a cidade têm origens bem diferentes. Ellen chegou em 1980, quando o pai, que trabalhava em firma de pavimentação de estradas, foi transferido para a região e depois se aposentou e ficou. Ela começou a estudar piano aos 10 anos, confessando que a motivação inicial foi social: “fui porque as minhas amiguinhas todas estudavam música”. Terminou o curso técnico no conservatório Carlos Gomes, da Dona Olga Camargo, e depois precisou ir a Presidente Epitácio para cursar uma faculdade de música, já que não havia opção na região.
Murphy, por sua vez, é paulistano, nascido na Freguesia do Ó, e chegou a Tupi Paulista em 1990, parte de uma leva de famílias vindas de Caetité, no sertão da Bahia, que se instalou na região. Sua relação com a música começou ainda criança, aos 6 anos, tocando tamborim de improviso, feito com tampinha de lata e um pedaço de pau, num carnaval de rua em Carapicuíba. Foi acolhido por uma escola de samba, a Unidos da Coab, e seguiu tocando até se mudar para o interior paulista. Ao chegar numa Tupi Paulista ainda de ruas de terra, se articulou para montar uma fanfarra na escola Emília Diogo do Amaral e nunca mais parou.
Uma escola com três gerações de alunos
O conservatório Guiomar Novaes completa 37 anos, fundado por Ellen em 1987 depois de um período trabalhando com Dona Olga. A trajetória da escola já rendeu algo raro: “eu já tenho netos musicais”, contou Ellen, se referindo a alunos que hoje matriculam os próprios filhos, repetindo o ciclo iniciado com os pais décadas atrás. A escola oferece formação completa, com aula de instrumento associada a teoria musical coletiva e participação em corais infantil, juvenil e adulto, pensada para formar músicos capazes de reconhecer timbres, afinar e cantar uma linha melódica sem depender de imitação.
Um destaque do trabalho da dupla é a atuação na APAE, onde encontram talentos musicais surpreendentes em alunos que não se adaptam bem a outras atividades. Ellen citou o caso de uma aluna autista “bem comprometida” que canta muito bem e decora as músicas com facilidade. “Eu acredito que é uma forma de se comunicar”, refletiu Ellen sobre a experiência, destacando também casos no coral de adultos, como o de uma dona de casa que enfrentava depressão e encontrou no canto uma nova forma de se valorizar.
O dia a dia de um casal que trabalha junto
Perguntados sobre como é dividir vida e trabalho, os dois foram sinceros: as tomadas de decisão acontecem naturalmente por estarem sempre próximos, já que atuam juntos no conservatório, na APAE e no Calango do Oeste. “A gente é professor ao mesmo tempo que é empresário”, explicou Murphy, destacando que a proximidade ajuda nas decisões do negócio, mas também traz desafios, como a dificuldade de desligar do trabalho quando a escola de música é praticamente extensão da própria casa. Entre as poucas fontes de atrito declaradas está a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras, já que um torce para cada lado.
Carnaval de rua e o resgate do Calango do Oeste
Um dos projetos mais recentes de Murphy é o Calango do Oeste, grupo de carnaval de rua criado a partir de uma conversa com Arthur Laureano em 2018 e efetivado em 2020, depois de décadas sem esse tipo de manifestação na cidade. Com recursos da Lei Aldir Blanc, o grupo conseguiu comprar instrumentos e hoje reúne mais de 40 ritmistas em apresentações que já incluem trio elétrico e banda profissional. “A gente tem como principal cliente as prefeituras municipais”, brincou Murphy, convidando quem tiver interesse a participar dos ensaios gratuitos, realizados às sextas-feiras na ABB, com foco no carnaval de 2025.
Concursos, emoções e uma vida dedicada ao ensino
Entre as memórias mais marcantes, Ellen relembrou ter levado duas alunas, incluindo Karina Maúcha, hoje radicada nos Estados Unidos, para um concurso internacional de piano no Chile em 1995, no qual venceram. Murphy citou apresentações com orquestras formadas por crianças do projeto Criança Feliz e o terceiro lugar conquistado pelo coral da instituição no Mapa Cultural Paulista de 2002, perdendo apenas para o Conservatório de Tatuí, considerado a maior escola de música da América Latina. Ele também compartilhou um momento pessoal difícil, quando precisou tocar em um casamento na mesma noite em que enterrou o sogro, ilustrando a rotina intensa de quem vive de música. Encerrando o papo, o casal reafirmou o compromisso com a formação musical da região, com novos encontros de bateristas, corais e apresentações programadas para os próximos meses, sempre reforçando a importância de mostrar aos alunos outras referências musicais além do que domina as redes sociais.
Onde encontrar
Você encontra quem participou deste episódio no Instagram: @ia.guiomarnovaes e @murfbatera.
Resumo do episódio
O episódio traz Ellen Rose e Murphy, músicos da Instituição Guiomar Novaes de Dracena, contando como a escola surgiu em homenagem à pianista brasileira Guiomar Novaes e como cada um chegou à música por caminhos diferentes, ela pelo piano desde criança e ele pela percussão e carnaval de rua desde os 6 anos em São Paulo. Eles explicam a estrutura pedagógica da escola, com aulas individuais de instrumento combinadas a teoria musical e coral, o trabalho com alunos da APAE, a criação do grupo de carnaval Calango do Oeste e a rotina de trabalhar juntos como casal e sócios. Também comentam sobre adaptação de tom nas músicas, cuidados vocais dos cantores profissionais e experiências marcantes em apresentações e concursos ao longo de mais de trinta anos de conservatório.
Principais aprendizados
- A escola de música oferece formação completa combinando aula individual de instrumento, teoria musical coletiva e participação em coral, mesmo para quem só quer aprender um instrumento.
- Depois da pandemia aumentou a procura de alunos adultos por indicação médica buscando uma atividade musical.
- Adaptar o tom de uma música à voz de quem canta é necessário e correto, pois o tom original gravado nem sempre serve para outro tipo de voz.
- O grupo Calango do Oeste oferece aulas gratuitas de instrumentos de bateria de escola de samba toda sexta-feira na ABB visando o carnaval de rua da cidade.
- Cantores profissionais precisam de cuidados constantes com a voz, como aquecimento antes e depois de cantar e alimentação regrada, para sustentar carreiras longas.
Perguntas respondidas neste episódio
Como funciona o método de ensino da escola de música da Guiomar Novaes?
O aluno que faz aula de instrumento na escola é automaticamente vinculado também a uma aula coletiva de teoria musical e a um coral, seja infantil, juvenil ou adulto. A ideia é que o músico tenha uma formação completa, reconhecendo timbres, afinação e leitura musical, mesmo que o foco inicial seja apenas aprender a tocar um instrumento específico como piano ou bateria.
É necessário mudar o tom de uma música para cantar?
Sim, mudar o tom é necessário e correto quando a voz de quem canta não corresponde à do artista original. Uma pessoa com voz grave, como um barítono ou baixo, não deve tentar cantar no mesmo tom de um tenor, pois o resultado fica ruim. A escola sempre trabalhou para passar essa informação aos alunos, mostrando que adaptar a tonalidade é parte do trabalho musical correto.
Como participar do grupo de carnaval de rua Calango do Oeste?
Os ensaios acontecem toda sexta-feira às 19 horas no clube da ABB, no caminho para o Jardim Brasilândia, e qualquer pessoa pode aparecer para aprender a tocar um instrumento de escola de samba sem pagar nada. O grupo iniciou os trabalhos em maio visando o carnaval de 2025 e já realizou apresentações com dezenas de músicos e trio elétrico em carnavais de rua contratados por prefeituras da região.
Por que a escola de música tem o nome de Guiomar Novaes?
O nome homenageia a pianista brasileira Guiomar Novaes, considerada uma das melhores pianistas do mundo em sua época, especialista em Chopin, que rodou o mundo tocando em locais como o Carnegie Hall nos Estados Unidos. Como a fundadora da escola nasceu na mesma cidade da pianista, São João da Boa Vista, decidiu usar o nome para divulgar essa artista pouco conhecida e valorizar seu legado.
Quais resultados a música pode trazer para pessoas com autismo ou depressão?
Alunos com espectro autista que não se adaptam bem a outras atividades conseguem se expressar através do canto, decorando músicas com facilidade mesmo em casos comprometidos. Em adultos, o coral também ajudou pessoas que enfrentavam depressão a se sentirem realizadas e a melhorarem a autoestima, servindo como forma de comunicação e de se sentir valorizado através da atividade musical.
Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.