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Da roça em Dracena à compra de dois jornais regionais: como Fernando Pereira criou o Grupo VF de Comunicação | #080

11 de janeiro de 2022 • 10 min de leitura

Este texto vem do episódio #80 do AdamiCast

Fernando Pereira é diretor do Jornal Regional e do Jornal Interativo, os dois veículos do Grupo VF de Comunicação que cobrem a Alta Paulista. Aos 43 anos, ele soma uma história que começa na roça em Dracena, passa pelo microfone da rádio local, pela agência de propaganda com carro de som, e chega até a compra dos dois jornais que, juntos, somam mais de 128 mil seguidores no Facebook e mais de um milhão de pessoas alcançadas por mês.

A história dele é a de um menino de família muito humilde que trabalhou na roça desde os 7 anos, virou narrador esportivo por acaso, montou uma agência de publicidade do zero, sobreviveu à pandemia, e, no meio do caminho, enfrentou uma batalha pessoal: um transplante de rim doado pela própria esposa. A conversa do AdamiCast mostrou a trajetória de quem construiu um império de comunicação regional no interior de São Paulo a partir do zero.

Da roça à Rádio Nova Dracena: a infância que virou carreira

Fernando nasceu em Dracena e cresceu sem casa fixa. Morou com a mãe, com a avó, com os tios, com a madrinha, com o padrinho, mudando de acordo com as dificuldades da vida. “Se você me perguntar com quem eu morei, é mais fácil falar com quem eu não morava.” Com 7 anos, já trabalhava na roça: carpindo tronco de café, colhendo algodão nas fazendas da região, esperando o caminhão do algodão passar pra recolher o que sobrava nas roças de Guaraçaí, Mirandópolis, Ouro Verde, Regente Feijó. Sem base familiar estável, com a escola mudando a cada mudança de endereço, ele fez o supletivo mais tarde pra terminar o ensino médio.

O futebol entrou como paixão desde cedo. Ia ao Centro Olímpico ver o time da cidade treinar, e ouvia rádio o dia inteiro: Rádio São Paulo, Capital, Record, Globo. “Eu queria ser o Neto.” A figura do narrador Maurinho Alves, da Rádio Regional de Dracena, virou referência. Fernando pedia pra entrar no estádio sem ingresso, chegava 11h da manhã pra assistir o jogo, ouvia o Maurinho narrar pelo rádio e tentava imitar a locução dele, na arquibancada vazia. “Eu chegava em casa, pegava o radinho velho que eu tinha, e ficava narrando o jogo do Corinthians pra mim mesmo.” O sonho de ser narrador esportivo começou ali.

Do teste na rádio ao microfone profissional: a formação de um narrador

A chance chegou na Rádio Nova Dracena, com o Maurinho já trabalhando lá. Fernando pediu uma oportunidade, fez um teste de narrador, e achou que tinha ido mal. “Acho que eu fui numa porcaria no teste, pra falar a verdade.” Mas a teimosia falou mais alto. Ligava todo dia, comprava fichas de orelhão, pedia outra chance. A primeira oportunidade veio narrando futsal de férias, num jogo que terminou 12 a 5. “Rede 17 gols, eu tava naquele nervosismo todo. O prefeito Zezinho Garcia e os vereadores entraram na cabine pra me apoiar.” Deu certo. Em 2003, Fernando assumiu a equipe de esportes da Rádio Regional de Dracena, com transmissões da Jovem Pan News em parceria. Foi o primeiro narrador esportivo de FM a fazer um programa direto com a Jovem Pan de São Paulo, junto com Milton Neves.

A tragédia pessoal marcou esse período. O locutor Clóvis Oliveira, que apresentava o Estúdio 92 da Rádio Liberal aos domingos de manhã, faleceu em janeiro de 2010 num acidente. Fernando, que já estava pronto pra assumir o programa, apresentou sozinho, sem substituição, sem saber muito bem como lidar com a perda. “Foi uma das piores notícias da minha vida na imprensa. Tínhamos trabalhado juntos 10 anos.” A partir daí, passou a trabalhar em três emissoras ao mesmo tempo: 95 FM como representante comercial, Rádio Globo como narrador esportivo, e Rádio Liberal com o programa de domingo. De lá pra cá, doze anos nas manhãs de domingo da Liberal.

A empresa de propaganda e o impacto da pandemia

Paralelo ao trabalho no rádio, Fernando montou a própria empresa de propaganda, com foco em carro de som, panfletagem e divulgação de rua. Aprendeu com Moisés Antônio, que o ensinou a operar carro de som ainda na adolescência. No auge, a empresa tinha 7 funcionários, atendia Dracena, Andradina, e cidades vizinhas com clientes como Rede Troyano, Santa Helena, D´Escrânio, Big Mart. A logística era manual: cartucheira de fita cassete, bip em botão verde, hora certa pra trocar a propaganda, tudo cronometrado na mão. “No Dia das Mães, você tinha 50 mensagens, e a fita superaquecia. Locutor levantava e ia embora, só restava comercial.”

A pandemia chegou e acabou com o modelo. O faturamento, que chegava a R$ 50 mil por mês, caiu pra R$ 5 mil. O panfleto deixou de chegar nas casas, as gráficas fecharam, os carros de som pararam. “Olha a gráfica que eu comprei por R$ 150 mil, hoje não serve pra mais nada. Foi vendida pra sucata.” A virada veio quando ele percebeu que o celular já estava na mão de todo mundo: Dracena tinha 45 mil celulares em 2020, passou de 50 mil em 2021. A empresa migrou pro digital. “Onde está o foco agora? Internet e celular.”

Comprar dois jornais: a aposta que mudou o jogo

Em 2021, o professor José Narciso chamou Fernando pra apresentar um programa de esportes. Em vez disso, Fernando fez uma proposta: comprar o Jornal Interativo, que era do Narciso, em vez de arrendar. O valor era alto, mas a proposta foi feita com prazo de validade. “A proposta é pra hoje. Amanhã já não me interessa.” O contrato de compra e venda foi assinado, registrado em cartório, e o Jornal Interativo passou a ser do Grupo VF. “Foi a maior alegria da minha vida.” Em 1 ano e 3 meses, o número de seguidores do jornal saltou de 84 mil pra 128 mil no Facebook.

A segunda compra veio em paralelo, com o Jornal Regional, que era do genro do seu Dias Gonçalves. A pandemia tinha tornado o impresso inviável: o jornal rodava em Rio Preto, chegava em Dracena no dia seguinte, com notícias defasadas, gráfica fechando, custo de distribuição insustentável. A última edição impressa saiu, e a versão digital passou a circular todo dia, 7h30 da manhã, com notícias do dia. Hoje, os dois jornais somam mais de 1 milhão de pessoas alcançadas por mês, com grade de programação que vai de boletim da manhã a JC Notícias, agro, gastronomia e transmissões esportivas com equipe de dois narradores, dois repórteres e um comentarista. O Jornal Regional é o carro-chefe do negócio, com 37 a 38 páginas na edição de Natal.

A batalha do transplante: a história por trás do empresário

Em 2015, Fernando foi diagnosticado com insuficiência renal crônica. A creatinina, que devia ficar em até 1,2, estava em 8. Ele estava perto da hemodiálise. A solução foi dieta rígida: sem proteína de segunda a quinta, só carne na sexta, exame de sangue de manhã, e o ciclo recomeçava. Inscreveu-se na fila do transplante do Hospital do Rim de São Paulo. A esposa dele, de quem ele fala pouco mas com muita admiração, decidiu ser a doadora. “Ela tinha na cabeça dela que ela era minha doadora.” A compatibilidade ficou em quase 100%. Mas uma leishmaniose cutânea apareceu no meio do processo, atrasou tudo, e quase jogou o transplante pra escanteio.

Em agosto de 2017, o sogro dele faleceu. No fim do mesmo ano, em outubro, o transplante foi realizado. Fernando não precisou de hemodiálise em nenhum momento. “Graças a Deus eu fiz o tratamento certinho.” A recuperação foi lenta, mas completa. Hoje, ele faz funcional com o amigo Carlos à terça e quinta, joga bola, janta fora, viaja com a família. “A vida não é brinquedo. A vida é porrada atrás de porrada. Mas eu tenho motivo pra falar que não pode desistir.” Pensou em abrir um restaurante depois do transplante, mas não quis se prender ao balcão. Preferiu continuar construindo o Grupo VF.

A visão de marketing que ele defende para o interior

Fernando tem uma visão clara sobre comunicação no interior: marca precisa se organizar, e propaganda é investimento, não gasto. “Marca grande não para de investir em mídia. Coca-Cola, Ambev, não param.” Repetir é o principal fator: quem vê o nome dez vezes lembra na hora de comprar. E o interior tem um diferencial que as capitais esqueceram: a relação pessoal. “O lojista de Dracena sabe o nome do cliente, sabe o nome do filho. Isso vale ouro.”

A virada digital foi o que salvou o negócio na pandemia. Hoje, o Grupo VF atende empresas da região com pacotes integrados: rádio, redes sociais, vídeo de publicidade. “Tem que ter WhatsApp Business. O dono da padaria que não tem WhatsApp Business está perdendo cliente.” A linguagem tem que ser simples. “Não adianta chegar no comerciante falando em inglês, em SEO, em lead. Ele quer saber o que vai vender mais.” O interior, pra ele, ainda é uma ília de mão em mão, e o jornalismo regional tem a missão de conectar as pessoas da região com o que elas precisam saber.

Onde encontrar

Fernando Pereira está em Dracena, à frente do Grupo VF de Comunicação, que edita o Jornal Regional e o Jornal Interativo. Pra acompanhar o trabalho dos dois jornais e do grupo, basta seguir os perfis no Instagram: @fernando.dracena, @jornalinterativo_oficial e @jornalregionaldracena. O episódio completo do AdamiCast está no YouTube e no Spotify.

Resumo do episódio

Fernando Pereira construiu o Grupo VF de Comunicação partindo da roça em Dracena aos 7 anos, passando por narrador esportivo na rádio, agência de propaganda com carro de som, até chegar à compra de dois jornais que hoje alcançam mais de um milhão de pessoas por mês. A trajetória inclui a migração digital forçada pela pandemia, que transformou um negócio de R$ 50 mil mensais em faturamento reduzido, e um transplante de rim que não o fez desistir de expandir o império de comunicação regional.

Principais aprendizados

  • A insistência gera oportunidades: Fernando ligava diariamente após falhar no primeiro teste de narrador até conseguir sua chance na rádio.
  • A pandemia liquidou o modelo de carro de som e panfleto, mas perceber que 50 mil celulares estavam em mãos na cidade orientou a migração para digital.
  • Comprar um jornal exigiu propostas diretas com prazo de validade: Fernando ofereceu comprar em vez de alugar, deixando claro que a proposta valia apenas naquele momento.
  • Marca precisa repetir constantemente sua mensagem, pois quem vê o nome dez vezes lembra na hora de comprar, diferente do marketing esporádico.
  • No interior, a relação pessoal entre lojista e cliente vale ouro, um diferencial que as capitais esqueceram e que a comunicação regional deve conectar.

Perguntas respondidas neste episódio

Como Fernando Pereira começou como narrador esportivo?

Assistia aos treinos no Centro Olímpico e ouvia a narração pela rádio, imitando o locutor Maurinho Alves na arquibancada vazia. Pediu oportunidade na Rádio Nova Dracena, fez teste, ligava diariamente para insistir, e conseguiu sua primeira transmissão narrando um jogo de futsal.

Como a pandemia afetou o negócio de propaganda de Fernando?

O faturamento caiu de R$ 50 mil para R$ 5 mil mensais quando o panfleto deixou de chegar nas casas, gráficas fecharam e carros de som pararam. Uma gráfica comprada por R$ 150 mil foi vendida como sucata. A virada veio ao perceber que o celular já estava nas mãos de todos na cidade.

Como Fernando conseguiu comprar o Jornal Interativo?

Fez uma proposta direta e ousada ao professor José Narciso: em vez de alugar para fazer um programa, ofereceu comprar o jornal. A proposta tinha prazo de validade, deixando claro que valia apenas naquele dia. O contrato foi assinado e registrado em cartório.

Qual foi o impacto da compra dos jornais no alcance de público?

No Jornal Interativo, o número de seguidores saltou de 84 mil para 128 mil no Facebook em um ano e três meses. Os dois jornais juntos somam mais de 1 milhão de pessoas alcançadas por mês.

Como a saúde de Fernando impactou sua trajetória empresarial?

Em 2015, foi diagnosticado com insuficiência renal crônica. Seguiu dieta rigorosa até receber o transplante em outubro de 2017, doado pela esposa. Sem nunca fazer hemodiálise, recuperou-se completamente e continuou expandindo o Grupo VF em vez de abrir um restaurante como havia pensado.

Ouça no Spotify ou assista no YouTube.

Este texto foi gerado por Inteligência Artificial com base na transcrição do episódio do AdamiCast.