Tinha lanche demais na mesa quando o Daniel soltou a frase. No meio da gravação, entre uma piada e outra sobre a chapa, ele falou sem peso na voz, quase como quem comenta o tempo: “eu acho que nós ganhava mais dinheiro quando era no trailer do que agora.” Ninguém no estúdio parou pra processar aquilo na hora. Eu parei depois, revendo.
Porque não é pouca coisa. É o dono da lanchonete mais conhecida de Dracena, com estrutura, espaço kids, cobertura, 11 pessoas na equipe, dizendo que o negócio pequeno, precário, montado com ferro de ferro-velho na frente de casa, dava mais dinheiro no bolso do que o negócio grande que ele passou anos construindo. Ele mesmo dá o motivo: “você pega um sábado lá, você gasta R$ 1.000 de funcionário só num dia.”
Eu acho que isso não é acidente de percurso do Gordinho. É o retrato de como a maioria dos negócios nasce numa cidade como a nossa.
A conta que ninguém aprende antes de abrir
A gente romantiza empreendedorismo, mas a verdade é que boa parte de quem abre negócio aqui não abre porque quis, abre porque precisou. Foi demitido, não tinha outra opção, ou cansou de ser mandado embora depois de anos. Empreende pra sobreviver, não pra construir império. E quem entra assim, sem ter estudado o próprio negócio antes de abrir, carrega um problema que vem junto: não sabe precificar direito. Não sabe o custo real do que vende, não sabe o lucro real que fica no fim do mês. Sabe se o caixa fechou no positivo ou no negativo, e só.
Quando o negócio cresce, a conta muda de categoria
Isso seria só um detalhe se o negócio ficasse do tamanho do trailer pra sempre. Mas ele cresce, e aí a conta muda de categoria. Você quer produzir 30%, 40% a mais. Pra isso, contrata gente. Só que esse funcionário novo, no começo, não te dá 40% a mais de produção líquida. Ele come parte dela. Enquanto você não escala a venda na mesma proporção que escalou o custo, você tá trabalhando mais pra ganhar igual, ou pior, pra ganhar menos. Uma fábrica que produzia 100 unidades e decide produzir 130 ou 140 contratando gente pro chão de fábrica só volta a ter mais lucro se conseguir vender 170, 180. Antes disso, o custo subiu e a margem que sobra é a mesma de quando ela produzia menos, só que agora com mais gente pra pagar e mais dor de cabeça pra administrar.
Em Dracena, o cálculo é ainda mais apertado
O Gordinho fez exatamente isso, só que em lanche. E numa cidade do tamanho de Dracena, esse cálculo fica ainda mais apertado, porque aqui as coisas são mais devagar e o acesso é menor. Eu falo sempre que na nossa cidade o dinheiro gira de mão em mão. Não entra dinheiro de fora pra girar esse ciclo mais rápido. Então quando você aumenta sua estrutura, sua folha, seu custo fixo, você tá apostando que vai conseguir puxar uma fatia maior de um bolo que não está crescendo na mesma velocidade que sua estrutura cresceu. Numa capital, com fluxo de gente e dinheiro entrando toda hora, esse tempo de maturação é mais curto. Aqui, é mais longo, e nesse meio tempo o custo já tá rodando cheio, comendo margem todo santo dia.
Ninguém fala sobre isso em voz alta
O que me incomoda não é o Daniel ter dito isso. É que praticamente ninguém mais fala. Todo empresário da região que cresceu de estrutura sabe, no fundo, se essa mesma conta bateu certo ou não pra ele. E a maioria não vai admitir em voz alta, porque admitir soa como fracasso, quando na verdade é só matemática que ninguém fez antes de assinar o contrato de aluguel maior ou comprar a máquina nova. O Daniel só teve a sinceridade, ou a falta de filtro, de dizer isso com o microfone ligado.
Isso não significa que ele errou em crescer. Significa que crescer sem calcular o ponto de equilíbrio de cada funcionário novo, de cada metro quadrado novo, é apostar no escuro esperando que o volume compense. Às vezes compensa. Às vezes você só trocou uma operação enxuta e lucrativa por uma operação grande e pesada, que parece mais séria de fora, mas que deixa menos dinheiro na sua mão no fim do mês.
Fica a pergunta pra quem tá pensando em crescer agora, contratar mais um, abrir a segunda unidade, alugar o ponto maior: você já fez essa conta, ou tá indo no instinto de que “negócio maior é sinal de que tá dando certo”? Porque às vezes o negócio que mais parece sucesso de fora é o que menos sobra dinheiro por dentro.
Esse texto nasceu da conversa com Daniel e Letícia, do Gordinho Lanches, no EP #469. Assista ao episódio completo.